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Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta - O meu canto

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À Conversa com Cátia Araújo

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Já aqui vos falei do livro infantil "Elias e o Medalhão Perdido".

Hoje, deixo-vos com a entrevista à autora do mesmo - Cátia Araújo!

 

 

 

 

 

Quem é a Cátia Araújo?

A Cátia é apenas uma miúda crescida, que sentiu a necessidade de partilhar com os outros o mundo de fantasia que a habita.

 

 

Como é que surgiu a sua paixão pela escrita?

Sempre senti um enorme apelo para expressar o que sentia, por vezes das formas mais inusitadas, como quando era pequena e fazia birras fenomenais! Lá fui crescendo, e substituindo as birras pelo desenho. Adorava ver as formas e os traços crescerem numa folha de papel branquinha, enquanto o resto do mundo desaparecia à minha volta. Mas, de facto, nunca tive muito jeito para desenhar e como a minha necessidade de expressão era tão grande, acabei por enveredar pela escrita, como forma de desabafo. O Elias surgiu numa fase da minha vida em que precisava de me alhear da realidade e de tornar tudo à minha volta mais leve e mágico.

 

 

A forma como viveu a sua infância, desenvolveu esse gosto pela escrita, e pela fantasia?

Ainda sou da geração em que não existiam muitos brinquedos e tínhamos de usar o que havia, criando a partir daí uma realidade alternativa. O facto de ter brincado muito na rua com outras crianças terá ajudado a acentuar este lado mais fantasista pois tudo servia para criarmos uma história, objetos ou personagens diferentes. Na rua onde a minha avó vivia muitas vezes existiam castelos para escalarmos ou jornadas perigosas para superarmos, dragões escondidos atrás de árvores ou poções mágicas para fazer com plantas.

Quando era criança contavam-me histórias e eu também lia muito, o que me permitia viajar para outros locais e viver aventuras magníficas. Acho que isso ajudou a integrar esta vertente que, mais tarde, veio a ser desbloqueada e partilhada.

 

 

De que forma vê os avós do seu tempo, e os avós da atualidade, na forma como convivem com os netos e lhes passam valores e saberes, estimulando a imaginação?

Acho que são gerações bastante distintas, mas sempre pautadas pelo amor e aconchego. Penso que, quando era criança, os avós tinham maior disponibilidade para criarem e estarem com os netos e, portanto, essa transmissão de conhecimentos, de valores, era muito fácil e fluída.

Os saberes, as tradições, as histórias e os mitos, já vinham de gerações anteriores e eram transmitidos, sobretudo, de modo oral e quando (apenas) se ouve, sem imagem associada, isso estimula a imaginação e dá espaço e terreno para criar algo novo.

Atualmente acho que as características e a falta de tempo das sociedades modernas, em que andamos todos a correr e os avós trabalham até mais tarde, não estimulam tanto essa veia criativa. Não é preciso imaginar, criar, desenvolver… é mais fácil meter um miúdo a jogar playstation do que lhe contar uma história.

Mas por outro lado os avós da atual geração têm acesso a uma série de recursos que nas gerações anteriores não existia, ou não estava tão explorada, existindo uma transmissão de informação mais rápida.

 

 

A Cátia afirma que tem “a ambição de poder inspirar crianças, jovens e adultos a sonharem e (re)viverem aventuras fantásticas”. As suas histórias são a forma que encontrou de o fazer?

Honestamente espero que sejam um meio de chegar às pessoas que deixaram de sonhar, e que guardaram num cofre bem fechado a sua criança interior, porque acham que “é parvo” ou “infantil” ou “têm outras responsabilidades”.

Somos e seremos sempre crianças, a questão é se a deixamos viver em pleno ou não. Há quanto tempo não fazemos caretas com amigos, ou saltamos numa poça de água? Há quanto tempo não pregamos uma partida ou nos imaginamos super-heróis?

Por isso este livro não tem só como destinatário as crianças, mas também os pais delas, porque está escrito de uma forma divertida, com uma pitada de ironia e sarcasmo que apenas os mais velhos irão compreender e com a qual se irão identificar. Estabelece-se, assim, uma ponte para este imaginário infantil e a vida diária que qualquer adulto tem.

 

 

 

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Em que se inspirou para escrever “Elias e o Medalhão Perdido”?

Sempre adorei mundos mágicos, florestas e seres fantásticos, por isso o Elias acabou por surgir de forma muito natural uma vez que já faz parte do meu universo desde criança. O facto de ser uma adepta confessa da Serra de Sintra e de todo o misticismo que a envolve, com aquela aura especial e única, terá também ajudado nos contornos e contexto espacial da história. As personagens, as suas características e as expressões que lhes estão associadas foram sendo criadas a partir do meu quotidiano, do que ia ouvindo na rua, nos pequenos detalhes que ia observando nos transportes públicos, nas dinâmicas familiares e com amigos, o que acabou por humanizar muito as personagens: umas são distraídas, outras vaidosas, outras arrogantes e por aí fora. Facilmente qualquer pessoa se revê neste livro.

 

 

Este livro é o primeiro de várias aventuras que o Gnomo Elias ainda irá viver?

Este será o primeiro de várias aventuras que o Elias irá viver juntamente com os seus amigos. Aliás, o segundo livro já está em andamento.

 

 

Escrever livros infantis é a linha que quer seguir na escrita, ou ambiciona chegar a outro tipo de público – juvenil ou mesmo adulto?

Neste momento pretendo expandir o universo do Elias, com novas aventuras, locais e personagens. Sinto que o Elias chegou até mim por algum motivo e compete-me dar-lhe voz e expressão. Enquanto assim for faz-me sentido continuar nesta linha, mas no momento em que nos deixe de fazer sentido continuarmos juntos, poderemos seguir caminhos diferentes.

 

 

A Cátia é licenciada em Ciências da Educação. Na sua opinião, é uma área que complementa, de alguma forma, a escrita, e vice-versa?

Acho que ajuda sobretudo a ter uma visão mais ampla, mais alargada, a sair “do quadrado” e a ver a realidade com outros olhos.

 

 

Considera que, a nível da educação, a criatividade e a imaginação das crianças tendem a ser estimuladas ou reprimidas?

Ainda temos uma educação muito restritiva e castradora, onde as crianças são pouco estimuladas para criarem e desenvolverem novas formas de expressão.

Tudo tem de seguir uma determinada ordem e formato, é tudo muito baseado na repetição e memorização de conteúdos e não tanto na exploração ou no imaginário infantil.

Aos poucos começa a sentir-se uma maior abertura nesta vertente, com novas formas de atuar e pensar, mas ainda temos um longo caminho para percorrer.

 

 

Que feedback tem recebido por parte dos leitores, relativamente a este livro que lançou em janeiro deste ano?

Até agora o feedback tem sido bastante bom! As pessoas gostam da história que tem uma tónica divertida e das personagens, onde acabam por se rever de alguma forma.

 

 

Para quando uma próxima obra?

Este primeiro volume ainda terá de chegar a mais crianças e a mais pais, de modo a que o Elias e os amigos se possam dar ainda mais a conhecer! De qualquer forma o segundo volume já está em andamento!

 

 

Que mensagem gostaria de deixar às crianças deste mundo?

Que não tenham pressa de crescer! Que todos os dias façam festinhas a dragões ou uma nova poção com o que encontrarem, de preferência com a ajuda dos vossos pais!

 

 

Muito obrigada, Cátia!

 

 

*Esta conversa teve o apoio da Chiado Editora, que estabeleceu a ponte entre a autora e este cantinho.

O Gnomo Elias: Elias e o Medalhão Perdido

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Há dias recebi este livro, e consegui finalmente lê-lo!

É uma história elaborada para as crianças, que junta seres míticos e encantados como gnomos e fadas, aos animais da floresta, acrescentando ainda uma pitada de magia.

Tudo começa quando o tio Hipólito avisa o seu sobrinho Elias que o vai visitar em breve, e precisa do medalhão da família.

Só que Elias não faz ideia de onde o pôs, e sabe que vai estar em maus lençóis se não o encontrar, e se o tio descobrir que ele o perdeu.

A fada Bianca percebe que o gnomo Elias anda mais rezingão e estranho que o habitual, e tenta perceber o que se passa com o amigo. Nesta história, a fada Bianca representa a personagem cómica, tagarela, cusca e extrovertida, mas ainda assim, amiga e eficaz, apesar de um pouco desastrada.

 

Depois de Bianca comentar com a sua amiga cerva, também esta fica preocupada, e decide ajudar o seu amigo. E, qual não é o meu espanto, quando Bianca chama pela sua amiga. "Amora!".

Sim, a cerva chama-se, imaginem, Amora Silvestre! O mesmo nome da nossa gata!

Aqui, esta Amora representa a racionalidade, a ponderação.

 

Cada uma à sua maneira, Bianca e Amora vão tentar ajudar Elias a encontrar o medalhão perdido, de que tanto ouviram falar, e que julgam ter poderes mágicos que, caindo nas mãos erradas,podem pôr em perigo toda a floresta.

Será que vão conseguir fazê-lo a tempo, antes da chegada de Hipólito?

 

Destaco ainda uma outra curiosidade pessoal: eu costumo chamar à nossa Becas "o nosso guaxinim".

E não é que ela tem mesmo a cauda igual aos guaxinins desta história!

 

 

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Para quem tem filhos pequenos, que gostem deste género de histórias, eu aconselho.

É um livro pequenino, que se lê bem em poucos minutos, e que fará, com certeza, a delícia dos mais novos!

 

 

 

 

 

Terá sido obra do Gnomo Elias?!

 

E hoje fui, mais uma vez, surpreendida com um livrinho enviado pela Chiado Editora e pela autora Cátia Araújo!

Terá sido obra do Gnomo Elias, que achou que talvez eu o pudesse ajudar a encontrar o medalhão perdido?!

Nesse aspecto, não sei se terá sorte, mas espero descobrir o mistério depois de ler a história. 

Muito obrigada a ambas, pela surpresa!

À Conversa com Abílio Cardoso Bandeira

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Desde de que se lembra que escreve poesia, sem nunca ter ousado publicar. Já escreveu uma peça de teatro: “uma comédia ligeira em 3 actos”, como gosta de dizer. Durante alguns anos publicou crónicas no jornal “O Varzeense”. Sonhava ser arqueólogo ou agente da Policia Judiciária; conseguiu ainda frequentar o curso da PJ, na Escola do Barro, em Loures, mas as disciplinas de direito tramaram-lhe a vida. Ironia do destino, conseguiu entrar para os tribunais. É oficial de justiça há mais de 20 anos.

"HÁ HORAS DO DIABO" é o seu primeiro romance.

Aqui fica a entrevista do autor:

 

 
 
Quem é o Abílio Cardoso Bandeira?
É uma pessoa normal; que valoriza a verdade e a honestidade, que adora rir, que admira o sentido de humor, adora o sol, sem detestar a chuva e adora animais, todos eles, até de pessoas gosta. Se calhar, dentro de mim, talvez veja o mundo de uma forma diferente da maior parte das pessoas, pelo menos das que conheço. Podendo não parecer, sou um sofredor do mundo, muito mais do que aquilo que mostro. Vejo-me assim como se fosse “o pessimista mais optimista do mundo”.
 
 
O Abílio escreve poesia desde que se lembra. Pode-se dizer que foi a sua primeira paixão, em termos de escrita?
Ah, sim, com certeza, em termos de escrita foi a minha primeira paixão, sei lá, 13, 14 anos – apesar de ainda hoje escrever poemas –, mas sempre foi mais para mim do que para os outros; a poesia sempre foi uma coisa mais intimista, mais dos sentidos, da alma, uma coisa em que eu me abro mais, às vezes até me abro a mim próprio (risos), talvez por isso nunca me passou pela cabeça editar, ou sequer tentar, editar a minha poesia. Ainda hoje continuo com essa ideia.
 
 
Escreveu também uma peça de teatro. Como foi essa experiência?
Foi entusiasmante e engraçada, ao mesmo tempo. A peça chama-se “Senhora Maria e Companhia” e era, como eu a definia, uma comédia ligeira em 3 actos, para grupos de teatro amador. Foi escrita para ser levada à cena por um grupo de teatro amador de Lisboa, do qual eu fazia parte na época, o Grupo de Teatro Esporão, que, apesar de ter começado a ensaiar a peça nunca a chegou a levar ao palco. Muitos anos mais tarde, na aldeia do Esporão, no concelho de Góis, que era a terra referência do próprio Grupo de Teatro, a juventude dessa aldeia acabou por ressuscitar o GTE e às tantas pegou na minha peça e levou-a à cena por duas vezes, uma na aldeia do Esporão e outra na vila de Góis. Lembro-me desse tempo com muito carinho, até porque nesse Grupo de Teatro, fui cenógrafo, actor, ensaiador, e sei lá mais o quê… Bons tempos. Aliás, se algum grupo de teatro amador andar à procura de uma comédia ligeira, a minha está à disposição, sem contrapartidas nenhumas.
 
 
E o convite para escrever crónicas do jornal “Varzeense”, como surgiu?
Isso foi um acaso do destino, mas mesmo tendo começado por acaso ainda durou alguns anos, em duas épocas distintas.
 
 
Que temas eram abordados nessas crónicas? Recorda-se de alguma que tenha sido mais comentada na altura?
Os temas eram da minha livre escolha, falava de tudo; da sociedade, dos sentimentos, de recordações, de coisas que me aconteciam no dia-a-dia, de política, algumas até meio poéticas, ou mesmo sobre futebol (risos)… lembro-me de algumas que foram bastante comentadas até, uma por exemplo que se chamava “Sopas de cavalo cansado” - que o pessoal mais novo, provavelmente, nem saberá o que é, até faxes me enviaram; uma outra era sobre eu ter, inadvertidamente, “morto” um Pai Natal que ainda poderia “ter vivido alguns anos na imaginação da minha filha”, enfim, era uma mistura indefinida. A primeira série de crónicas chamava-se “Crónicas da Serra” e a segunda série “30 por 1 linha – Crónicas da vida que passa”.
 
 
O Abílio sonhava ser arqueólogo ou agente da PJ. Não conseguiu, mas acabou por se tornar oficial de justiça. Pode-se dizer que, também na sua vida, houve “Horas do Diabo”?!
Claro que houve, há horas do diabo na vida de todos nós, não acha? Também há horas de Deus, mas as do diabo continuam a existir, faz parte desta coisa de viver, desta eterna corrida de obstáculos que é a vida. Se os obstáculos, essas  “horas do diabo”, nos fazem mais fortes e nos dão mais determinação, melhor; o problema é quando essas “horas” nos derrubam, ou nos obrigam a andar mais devagar…
 
 
 
 
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“Há Horas do Diabo” é precisamente o título do seu primeiro romance. Em que é que se inspirou para o escrever?
Inspirei-me na minha vida, nas pessoas que conheci, em histórias que me contaram, o resto é imaginação, claro; mas mais de 90% das personagens do meu livro foram inspiradas em pessoas reais, e foram “construídas” não exactamente como era a pessoa na vida real, mas quase, e algumas são até muito parecidas com pessoas que um dia conheci. Não posso no entanto deixar de referir a minha paixão pela escrita do Camilo Castelo Branco, sem dúvida o principal responsável pela minha vontade de escrever em prosa, de escrever romances, sem dúvida.
 
 
O que o levou a optar por publicar um romance, e não um livro de poesia?
Como já disse, a poesia é para mim uma coisa mais intimista, mais dos meus sentidos, da minha alma; é uma coisa que me custa mais a expor. Sinto-me mais nu na poesia, e doí-me mais, e estou certo que me ia magoar mais com as opiniões dos outros. Como disse, é uma coisa mais minha, mais pessoal; durante anos nem sequer mostrava o que escrevia, a ninguém, e muitas eu rasguei e queimei… Com a prosa tenho uma relação diferente, consigo distanciar-me mais, ser mais frio no que escrevo, apesar de não achar que a minha escrita seja “fria”, bem pelo contrário.
 
 
Que críticas tem recebido relativamente a esta obra? O público identifica-se, de certa forma, com as personagens e o ambiente onde a história se desenrola?
Bem, as críticas têm superado tudo o que eu esperava, e não estou a dizer isto por vaidade nenhuma, algumas pessoas que mal conheço e outras que nem sequer conheço, têm-me dito que adoraram o livro, incluindo as personagens e ambiente daquela aldeia. Lembro-me, assim de repente, de duas ou três, como por exemplo: “ri e chorei a ler o seu livro, que mais podia pedir?”; “obrigada, por conseguires despertar em mim, novamente, sentimentos que há muito não tinha quando lia um livro” ou por exemplo: “gostei tanto que o vou voltar a ler”, para mim estas críticas enchem-me o peito, dão-me ânimo para continuar, claro. Mas, eu sou de todas as pessoas do mundo a menos indicada para falar disso, não é?  
 
 
 
 
 
 
Nos diversos diálogos entre as personagens, optou por reproduzir a linguagem exatamente como era falada. Fê-lo com o objetivo de tornar a história mais realista e, de certa forma, transportar o leitor para aquela época, e aquelas gentes?
Não sei, não pensei nisso quando estava a escrever, é assim que eu escrevo, não o sei fazer de outra forma, não me preocupei muito com isso. Se a história em si fica a perder com essa minha abordagem? Se fica mais confusa a leitura? Não sei, confesso que não sei, isso só os leitores o podem dizer.
 
 
Na sua opinião, embora a trama se situe na década de 70, em termos de valores (ou a falta deles), atitudes e a própria mensagem que se retira da leitura, considera que esta poderia perfeitamente ser uma história passada na atualidade?
Claro que podia, obviamente que algumas coisas teriam que ser adaptadas ao nosso tempo, certas maneiras de falar são diferentes, a vida é diferente, a própria sociedade de 1970 é muito diferente da de hoje; mas os sentimentos das pessoas não mudaram assim tanto, penso que na essência das coisas somos muitos parecidos ao que éramos há 40 ou 50 anos atrás, continuamos a amar, a sofrer, a ser boas ou más pessoas, a ter ou não um sentido de honra; nunca partilhei daquela ideia de “vai-te mundo cada vez para pior”, acho que hoje continua a haver pessoas com um enorme sentido de honra e que procuram acima de tudo a verdade e a justiça, e outras que tanto lhes faz, desde que elas próprias estejam bem.
 
 
Para quando uma próxima obra?
Já ando de volta dela há algum tempo, chama-se “São Miguel dos Cães” e já tem as personagens principais, e até algumas secundárias, esboçadas, mas como é uma história de época, passa-se no século XIX na altura em que termina um ciclo de uma enorme violência em Portugal, as invasões Francesas, a que se segue, quase de imediato, aquela terrível guerra civil, entre Miguelistas e Liberais, as chamadas Guerras Liberais; e por isso exige muito estudo, muitas leituras, para que a obra seja convincente e os leitores a sintam real, como eu espero. O tempo é que não é muito, dava-me jeito estar reformado (risos), mas enfim…
 
 
Muito obrigada, Abílio!
 
Cara Marta, muito obrigado por esta oportunidade.
 
 
 

*Esta conversa teve o apoio da Chiado Editora, que estabeleceu a ponte entre a autora e este cantinho.

 

 

Há Horas do Diabo, de Abílio Cardoso Bandeira

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Há horas que desejavamos que durassem para sempre, que não nos importaríamos de passar por elas novamente, que deixam saudades. E, depois, há as outras, que mais valia nunca terem chegado nem acontecido. Há horas do diabo, que podem mudar para sempre o rumo da história...

 

Neste livro, Abílio Cardoso Bandeira centra a sua história na aldeia de Sobral da Beira, e nos seus habitantes, tanto nos que por lá vão ficando, como os que partiram e voltaram, e tornaram a partir, ou ficam de vez, e naqueles que nunca mais voltarão.

Ora, num meio pequeno, todos se conhecem, todos se entreajudam, todos sabem da vida e dos segredos de todos. Ou quase!

Porque, por muito que conheçamos as pessoas que nos rodeiam, podemos muitas vezes ser surpreendidos com acções, gestos e até segredos que nunca imaginaríamos. E serão esses que iremos descobrir à medida que a história se vai desenrolando.

 

Quem é o desenterrador de cadáveres que ataca, não só os falecidos de outras regiões, como os da própria aldeia?

O que aconteceu a Afonso, que depois de ter vendido todo o património da família desapareceu, juntamente com o dinheiro da venda?

Quem é que todos os meses envia parte desse mesmo dinheiro para Laura, a viúva?

Que missão tem o misterioso Jorge Calçudo a cumprir em Sobral da Beira, e de que forma será determinante para a descoberta de muitos dos segredos destes habitantes?

 

Em "Há Horas do Diabo" temos também uma história de amor, ao estilo Romeu e Julieta, nas personagens de Gonçalo e Ana. No entanto, o autor, de forma inteligente, não foi por aí, dando mais relevância a outros acontecimentos e mistérios.

 

A trama é apresentada de forma simples, recriando até a linguagem característica daquele tempo e daquelas gentes. E o mesmo se aplica às personagens, quase todas com alcunhas e histórias associadas aos seus nomes, quase todas com algum grau de parentesco umas com as outras, e com personalidades para todos os gostos, que dá vontade de divagar sobre elas.

 

E, como não poderia deixar de ser, a cena que mais me comoveu tinha que ter um animal! Neste caso, um cão - o Fúria! Uma cena bastante rápida, e sem grande relevância para muitos, mas para mim, serviu para me irritar e comover em seguida. 

 

 

Poderia ficar por aqui, mas não queria deixar de falar sobre algumas das personagens da história, e das reflexões que as mesmas originaram.

 

Enquanto uns lutam por uma oportunidade que nunca chega, outros desperdiçam todas aquelas que lhes vão parar às mãos…

Rita e Carlinhos partiram jovens da terra que os viu nascer. Ela, para Lisboa, em busca de um trabalho que lhe garantisse um futuro melhor, que nunca teria ali, junto com o seu pai, naquela aldeia. Ele, para Coimbra, para se formar em advocacia.

Quando os encontramos, de volta a Sobral da Beira, seja em férias ou indefinidamente, percebemos que nenhum deles cumpriu o objetivo. Ambos têm algo a esconder, ambos mentem, ambos enganam os pais.

 

 

Aqueles que mais pecados apontam ao próximo, acusando-os de não respeitar Deus e a igreja, são os que mais pecam na vida, com gestos que vão, precisamente, contra tudo aquilo que são os mandamentos de Deus…

Como dizia, por vezes, a minha mãe “andam por aí a bater com a mão no peito, não faltam a uma missa e depois, mal saem pela porta da igreja, não fazem mais mal porque não podem. Gente falsa e hipócrita.”

Nesta história, a hipocrisia está representada pela personagem da Ana Viúva, uma beata que não perde uma oportunidade de prejudicar os outros, criar intrigas, meter-se na vida dos restantes habitantes, alegando sempre a defesa da moral e dos bons costumes.

Hipocrisia e falsidade há em qualquer lado, e cada vez mais, mas nos meios mais pequenos, é mais notória. Deveria chegar o dia em que estas cobras provassem o seu próprio veneno. Talvez isso as fizesse mudar...ou talvez não! Já nasce com elas, é mais forte que elas.

 

 

"Quem tudo quer tudo perde! E o pior cego, é aquele que não quer ver!"

Dois ditados bem populares que se poderiam bem aplicar ao Sr. Teixeira da farmácia!

 

 

Os padres também são seres humanos

E o padre Carlos não é excepção. São poucos os padres como ele, pessoas que se preocupam, de facto, com o próximo, que tentam ajudar dentro das suas possibilidades, que não se deixam levar pelos desvarios de beatas ofendidas. Ele não é um santo, é um padre que, nessa condição, está ao serviço de Deus, e age de acordo com o que seria de esperar dele, assim como de qualquer um de nós. Um padre que, como todos nós, é humano. E, por isso mesmo, também erra, também comete pecados e se penitencia por eles.

 

 

Quanto às restantes personagens, cada leitor fará as suas próprias reflexões quando ler esta história, que eu recomendo vivamente!

 

 

Sinopse

"Se um homem que nunca tinha entrado numa igreja não se tivesse confessado; se outro não tivesse dado um pontapé num cão e se outro ainda não tivesse feito uma promessa… provavelmente, esta história teria sido muito diferente.

Durante o verão de 1970 numa aldeia dos arredores de Viseu, uma série de histórias de amor cruzam-se com uma outra história de amor proibido.
Numa terra em que o sacristão passa pessoas para França; um homem desapareceu inexplicavelmente; um padre sofre as dores do mundo e um misterioso filho da terra regressa para iniciar uma estranha construção.
Ao mesmo tempo que no cemitério local enigmáticos desenterramentos vão prosseguindo sem que alguém encontre uma explicação."

 

 

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