Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Primeiro dia sem a Tica

 

26 de Fevereiro de 2016

 

Quero desde já pedir-vos desculpa pela quantidade de posts que tenho escrito e sei que ainda vou escrever, sobre a Tica.

Não quero fazer do blog um muro das lamentações, até porque nada a irá trazer de volta. Mas escrever, e deitar tudo cá para fora é uma das formas de me ajudar a superar a sua perda.

Sabem quando uma pessoa leva uma pancada, ou se magoa, e na altura acha que até não dói assim tanto, mas passadas umas horas arrefece, e as dores tornam-se insuportáveis?

A noite em que a Tica morreu foi como essa pancada. O primeiro dia sem a Tica está a ser complicado, e as dores começam a fazer-se sentir.

Levantei-me de manhã, como nos restantes dias, para ir trabalhar. Não tenho a Tica na entrada, em cima da máquina de secar, para o pequeno-almoço vegetariano.

Vou desembaciar a janela da sala, e só depois me lembro que a Tica não vai para a janela. Choro sem parar, porque preciso. Porque dali a pouco tenho que acordar a minha filha, e nessa altura preciso de estar calma. Mentalizo-me que a melhor forma é não pensar em nada. Respirar fundo, e abstrair os pensamentos temporariamente.

Volto a chorar enquanto conversamos com o veterinário, e ele nos explica o que, provavelmente, terá acontecido. Volto a recompôr-me, para entrar no trabalho.

Por lá, as lágrimas vão caindo esporadicamente, e às tantas já nem sequer estou a ver bem o que está escrito no monitor do computador. 

A meio da manhã, aproveito um momento mais calmo para ligar aos meus pais e dar a notícia.

Ao almoço, tudo parece melhor, vou buscar a minha filha à escola, e vamos almoçar. Mas, assim que chego perto de casa, olho para a janela onde a Tica estava sempre, à nossa espera, e vou-me abaixo.

Volto para casa dos meus pais e decido não voltar à minha, na hora de almoço. Preparo-me para a tarde de trabalho, que volta a ter altos e baixos. Mas há clientes e telefonemas para atender, e tenho que me abstrair.

À noite, saio do trabalho, e as lágrimas voltam a cair. Misturam-se com a chuva que cai, e quase nem me importo se me estou a molhar ou não. E também não quero saber se estou na rua a chorar que nem uma perdida. Faço-o, porque quando chegar a casa tenho que estar calma.

Passo pelos meus pais para ir buscar a minha filha, e vamos para casa. Por momentos, ainda tenho a preocupação de fechar a porta depressa, para a Tica não fugir. Só depois percebo que isso não vai acontecer. 

Inconscientemente, tento ver se ela estará a dormir na nossa cama, ou na sua mantinha na sala. Mas sei que não a vou encontrar.

Jantamos, e enquanto a minha filha não vai com o pai, ficamos na sala a ver TV. Num canto do sofá, olho para o monte de roupa que tinha secado ontem, e lembro-me de como a Tica gostava de se deitar em cima dela. Nunca mais irá fazê-lo.

Quando a minha filha se vai embora, tenho mais uma recaída. Tudo se mantém na mesma. Até o saco com a areia suja de chichi e o cocó, que ficou por despejar. A caixa que não vai mais utilizar. A taça da comida, a da água, o vaso das ervas em cima da máquina...

Vou para a sala escrever. E penso que, se estivesse entre nós, já estaria enroscada no meu colo, a dormir. Também isso não voltará a acontecer.

O meu marido, a trabalhar mas preocupado por eu estar sozinha, liga-me, e choramos os dois ao telefone, com saudades da nossa "minguinhas".

Tenho que me deitar e tentar dormir. Desta vez, a Tica não irá para cima de mim, nem pedir-me para ir lá para dentro da cama para dormir enroscada a mim, na conchinha.

Está a ser muito duro. Mais do que com a Fofinha.

Só queria que, de alguma forma, ela me desse um sinal...de que está bem, de que gostou de estar connosco, de que foi feliz, de que não sofreu quando morreu, de que apenas saiu para não morrer à nossa frente...

Tenho uma vontade enorme de voltar a enchê-la de beijinhos, porque todos os beijinhos do mundo ainda seriam poucos. Tenho vontade de tê-la novamente ao colo, e cantar-lhe a sua música. Sinto necessidade de abraçá-la, de a cobrir de mimos, nem que fosse uma última vez.

Ando às voltas na cama...de tanto chorar, hei de ficar esgotada, e adormecer...

Amanhã, espera-me outro dia. A vida continua, mesmo que eu queira ficar parada no tempo. Hei de sobreviver, com algumas rugas a mais, e os olhos um pouco mais inchados que hoje... 

Hoje...

 

...cai a chuva com força, assim como as lágrimas que vão sendo derramadas pelos meus olhos;

...o céu vestiu-se de cinzento, assim como eu me vesti de negro;

...o dia está triste, assim como o meu coração;

...o vento sopra zangado, assim como eu grito de revolta.

 

Hoje, a natureza mostra a sua solidariedade para connosco e, acima de tudo, para com a Tica, neste momento tão triste, em que nos despedimos dela, e ela se despede para sempre desta vida.

Virá o dia em que o sol voltará a surgir por entre as nuvens, em que o tempo irá amainar e o dia voltará a brilhar. Nesse dia, estará ela na sua nova vida, a lançar a sua luz sobre todos nós, e a dizer-nos que está tudo bem, que ela está bem, e também eu devo ficar bem...

Mas ainda é hoje...

 

 

À Conversa com Hugo Pena

.

Imagem www.jornaldoalgarve.pt

 

O meu convidado de hoje nasceu no Montijo, mas há mais de 25 anos que reside no Algarve.

Para além de instrutor de condução, Hugo Pena participa também em vários projetos ligados à cultura e literatura no Algarve.

Gosta de escrever e ler vários géneros literários, como Ensaios, Poesia, Romance e principalmente o Romance Policial.

 

A sua primeira incursão na escrita ocorreu em 2013, quando escreveu o policial “Porquê Eu?”, que conta a história de uma arquiteta de sucesso que, numa altura em que o seu casamento atravessa uma crise, recebe um dom inesperado, que lhe permite ajudar a descobrir vários homicídios, sendo o seu marido um dos principais suspeitos.

 

Em 2014, lançou o seu segundo romance policial “Justiça Cega”, que relata a história do rapto de Joana Gomes, uma criança de tenra idade, cujo desaparecimento despoleta transtornos diversos nos pais, na comunidade escolar e nas instâncias policiais.

 

A apresentação de “Justiça Cega” ocorreu na Biblioteca Municipal de Castro Marim, e foi com este livro que conquistou, em 2015, o prémio “Escritor do Ano 2015”, atribuído pela Arte, associação que, no Algarve, promove e premeia a nível nacional quem se distingue em diversas áreas culturais.

Pedro de Oliveira Tavares, que assina o prefácio de «Justiça Cega», afirma que nesta obra “o autor chama a atenção para alguns perigos da nossa sociedade, como, por exemplo, os riscos escondidos nas redes sociais ou os fenómenos da prostituição e dos abusos sexuais”.

Hugo Pena está hoje connosco para nos falar um pouco mais sobre si e o seu trabalho.

 

 

O que leva um instrutor de condução a aventurar-se no mundo da escrita?

Olá. Antes de mais, quero agradecer-lhe a possibilidade de mostrar um pouco mais de mim e do meu trabalho nesta entrevista. Espero que as pessoas que a leiam possam passar a ter o meu trabalho debaixo de olho e lhes aguce o apetite para lerem as minhas duas obras, especialmente a última.

Para ser sincero, nem eu sei bem a resposta a essa pergunta. Era um desejo que tinha desde há uns anos a esta parte. Ganhei o gosto pela leitura, talvez um pouco tarde, já depois dos vinte e cinco anos e desde aí comecei a perceber que um dia gostava de escrever um livro. Curiosamente, comecei a escrever o primeiro livro de

forma um pouco caricata. Um aluno tinha faltado a uma aula de condução, sem avisar, e como fiquei aquela hora livre decidi começar a fazer um rascunho da história que pretendia. A partir daí foi escrever e apagar quase diariamente. Apaguei muitas vezes e cheguei à mesma conclusão que o saudoso e mestre da nossa literatura, José Saramago: “Os computadores são ótimas máquinas de apagar”.

Ainda hoje não me lembro qual o aluno que faltou – devo-lhe esse agradecimento.

 

Porquê a escolha do género policial para estes dois primeiros trabalhos?

A resposta é simples: porque são os meus géneros favoritos – policial e romance policial. Também gosto de outros géneros, tal como indica na apresentação, mas esses dois são os meus preferidos. Gosto de ação, suspense, mistério, thriller e investigação.

 

Qual tem sido o feedback que tem obtido por parte do público relativamente a “Porquê Eu?” e “Justiça Cega”?

O “Porquê Eu?” foi o primeiro. Foi com ele que iniciei a minha vertente de escrevente. Sim, escrevente e não escritor. Um escritor é aquele que é capaz de transformar o que escreve numa verdadeira obra literária: eu ainda não sou escritor. Divirto-me a escrever o que gosto, como gosto e onde gosto. Vou escrevendo as minhas histórias e tentando aperfeiçoar a escrita. Repare, os meus leitores dizem ter notado uma boa evolução do primeiro para o segundo – e eu também notei. Porquê? Porque estamos sempre a aprender e ao escrevermos mais, temos tendência a evoluir. No primeiro nem tudo foi perfeito; existiram situações que já não vemos no segundo – umas por inexperiência, outras por desconhecimento e algumas por confiar demasiado nos outros. Frequentei alguns cursos de escrita criativa, li mais sobre a vertente da escrita e, neste momento, sinto-me mais capacitado para fazer mais e melhor. No entanto, o feedback foi bastante positivo. É claro que não podemos agradar a todos, mas as críticas, sejam elas construtivas ou destrutivas, são sempre bem-vindas – dou o peito às balas, pois só assim podemos crescer enquanto escreventes e, mais tarde, enquanto escritores. Para a primeira vez, ter a Biblioteca de Castro Marim completamente cheia com cerca de duzentas pessoas na apresentação da minha obra, sendo a primeira vez que a mesma encheu para a apresentação de um livro, é um enorme motivo de orgulho.

“Justiça Cega” foi um trabalho mais elaborado e mais cuidado que o primeiro, fruto já de alguma experiência e conselhos acumulados. Tem sido muito importante o excelente feedback por parte dos meus leitores, aos quais agradeço a sua sinceridade nas opiniões emitidas e nos conselhos que me têm dado. Já tive uma crítica bastante

positiva num blogue brasileiro “Amoras com Pimenta”, que me deixou bastante satisfeito e, ao mesmo tempo, algo perplexo por “Justiça Cega” também dar que falar no Brasil.

Em ambos, tento sensibilizar as pessoas para algum flagelo social e, neste último, o facto de uma criança de treze anos ter sido raptada e agredida fisicamente, psicologicamente e sexualmente, mexeu muito com as pessoas, ao ponto de dizerem que estavam a sentir-se tão entranhadas na personagem da menina, que parecia que eram elas que estavam a viver aquela história. Muitas disseram-me que choraram bastante, que sentiram angústia, revolta, raiva e vontade de fazerem elas a sua própria justiça e quando se consegue que os leitores tenham esses sentimentos e reações, é porque a mensagem chegou exatamente como eu queria: tocou-lhes.

 

“Justiça Cega” valeu-lhe o prémio de “Escritor do Ano 2015”. Qual é a sensação de ver o seu trabalho reconhecido desta forma? Foi algo inesperado?

Sinceramente, foi algo que não esperava. Tenho apenas dois livros editados e ser distinguido logo no segundo livro que escrevo, é algo que não me passava pela cabeça. A sensação é ótima, como deve calcular, mas ganhar o galardão Estrelas d’Arte para “Escritor do Ano 2015”, entre mais quatro nomeados com excelentes trabalhos, era algo que não pensava poder concretizar-se. Outras personalidades foram distinguidas, desde o desporto (Telma Monteiro) ao fado (Ana Moura), passando pela melhor banda (Amor Electro), melhor ator (Ruy de Carvalho), revelação do ano (Lívio Macedo), personalidade do ano (Papa Francisco), melhor jornalista (José Ataíde). É um orgulho ver o meu nome entre estas personalidades.

Assim foi e é sinal que “Justiça Cega” mexeu mesmo com os leitores.

 

Tenho lido vários comentários que referem que “Justiça Cega” é um bom livro para todos os pais lerem, uma espécie de alerta para os perigos que os seus filhos podem correr na atualidade. Concorda com esta opinião?

Absolutamente. Esta história é exatamente um alerta que tento fazer aos pais, crianças e adolescentes, acerca dos perigos escondidos (ou não) na nossa sociedade. Temos a tendência para pensar que as coisas más só acontecem aos outros, mas quando nos tocam à porta, a coisa complica-se e damos conta que não é bem assim. Há um rapto, agressões físicas, psicológicas e sexuais, prostituição, uso descontrolado das redes sociais, tentativa de fuga do cativeiro, homicídios, tentativa de fazer justiça pelas próprias mãos, investigações policiais e forenses…enfim, uma série de situações que não deixam o leitor indiferente.

Note que este livro já foi utilizado por vários alunos no final do ensino secundário para a realização de vários trabalhos acerca destes temas. É muito gratificante vermos o nosso trabalho como uma «referência» para estes jovens e adultos e as solicitações para a minha presença nas escolas para falar aos alunos e professores acerca deste livro.

 

Como mãe que sou, pergunto-lhe se não existirão neste livro cenas demasiado chocantes para um pai ou uma mãe lerem?

Sim, existem. Sou daquelas pessoas que entende que as coisas têm de ser ditas e escritas com o maior realismo possível, sabendo de antemão que podem provocar algum desconforto em algumas pessoas mais sensíveis. Mas se não o fizesse, estava a ir contra os meus princípios e ao escrever apenas como algumas pessoas querem ou gostam, deixava de ser eu: dessa forma, estava a prostituir a minha escrita. No entanto, a crítica dos meus leitores refere que é um livro que se lê bastante bem, tem uma escrita simples e fluida, de fácil entendimento, que se lê num abrir e fechar de olhos, que prende o leitor do início ao fim (sempre na expetativa para ver o que se vai passar mais à frente – os capítulos curtos acabam por ajudar nesse sentido) e, o melhor de tudo: os leitores dizem que sentem tanto realismo nas descrições que faço, que se sentem personagens daquela história.

 

A justiça pode, por vezes, ser mesmo cega?

Pode e é, muitas vezes. Terão oportunidade de verificar isso neste livro. É ficção, mas podia ser bem a realidade, infelizmente.

 

Sendo o Hugo um fã do género policial, que romance policial mais gostou de ler, de outro autor?

Gosto de tudo o que é policial ou romance policial. Logicamente, gosto mais de uns do que de outros. É difícil escolher um entre vários, mas talvez a minha escolha recaia sobre: “O Código Da Vinci”, de Dan Brown, “O Boneco de Neve”, de Jo Nesbo e “A Ameaça”, de Ken Follett. Mas atenção, gostei muito de outros dos mesmos autores e de outros que não referi e, não sendo o género totalmente policial, gosto muito da escrita de José Rodrigues dos Santos.

 

Vamos poder contar com uma nova obra brevemente?

Acho que sim. Atualmente estou a escrever outra história – também ela aborda um flagelo social – e julgo ter os ingredientes necessários para, tal como “Justiça Cega”, agarrar o leitor do princípio ao fim, tirando-lhe algum fôlego no momento de desfolhar

página a página. Ainda está muito no início, por isso não consigo fazer ideia de quando estará cá fora.

 

Hugo, agradeço-lhe mais uma vez por ter aceitado este convite e pela sua disponibilidade. Foi um prazer!

 

O prazer foi todo meu, e aproveito para convidar as pessoas a visitarem as minhas páginas no Facebook: https://www.facebook.com/profile.php?id=100001915303678

https://www.facebook.com/Justi%C3%A7a-Cega-Romance-907157672657958/?ref=hl

 

E também para informar que terei todo o prazer em enviar as minha obras, com dedicatória personalizada, por correio. Podem fazer o pedido para o meu email: hugopena7@gmail.com

 

*Esta conversa teve o apoio da Chiado Editora, que estabeleceu a ponte entre o autor e este cantinho.

 

  • Blogs Portugal

  • BP