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Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Sobre a arrogância de uns...

 

...e a persuasão de outros!

 

Como já aqui disse, não tenho por hábito dar dinheiro a ninguém que me venha pedi-lo, seja para que causa for. A minha resposta é sempre "não estou interessada". Ou, quase sempre!

 

No outro dia veio cá uma senhora que começou por afirmar estar a fazer um serviço social na zona. O serviço social revelou-se uma angariação de fundos para uma instituição de crianças e jovens em risco. Nesse sentido, começou por me dar uma caixa para a mão, que eu pensei que fosse algum perfume mas que, afinal, era um relógio para homem, que estavam a vender por € 10,00, com oferta de outro igual. Respondi-lhe que não estava interessada. Mas, como se costuma dizer, mulher prevenida vale por duas e esta, já a pensar naqueles que provavelmente rejeitariam o relógio, trazia outra alternativa na "manga", que é como quem diz, na pasta - livros infantis!

Na compra de um, por € 5,00, oferta de outro. E assim me conseguiu convencer! Comprei um livro com jogos e receitas, e ofereceram o do Shrek 2. Ficou a minha filha a ganhar, e eu fiz a boa acção do dia, ao contribuir para uma instituição.

 

Uns dias mais tarde, apareceu um senhor, com um ar convencido, que logo me desagradou. Em primeiro lugar, parecia que a última coisa que lhe apetecia era estar a fazer esse "serviço". Depois, partiu do princípio que nós, só de olharmos, adivinhamos o que quer. Como isso não aconteceu, lá deu, com muito custo, uma explicação do que fazia - pedir dinheiro para ajudar uma instituição que acolhe "sem abrigo". Como lhe respondi que não estava interessada em ajudar, começou a reclamar, embora em tom irónico mas, ainda assim, a reclamar, como se fosse nossa obrigação ajudar todos aqueles que nos pedem.

 

Pois eu até posso ter muita vontade de ajudar, mas se vierem todos com a mesma atitude deste senhor, comigo não se safam! Porque a arrogância não é, sem dúvida, o melhor caminho para o conseguirem!

Por vezes tenho vontade...

 

...de meter o nariz onde não sou chamada!

 

Porque, apesar de ser muito mais prático não me preocupar com algo que não me diz directamente respeito, e seguir sem olhar para o lado, que na minha vida já tenho preocupações que cheguem, não consigo ignorar o que se passa com aqueles que, de certa forma, me estão ligados.

Talvez seja o instinto maternal (que por acaso nunca tive), o dever de protecção, o não querer que alguém passe por situações que outros já passaram, e que deixaram sequelas.

Assim, dou por mim armada em boa samaritana, em princesa justiceira, em missionária da paz, a querer falar com cada uma das pessoas intervenientes para que, juntas, possamos encontrar a melhor solução para o bem de alguém que depende de nós.

Mas, ao mesmo tempo que esse "dever" e "querer" se apodera de mim e ganha força, apercebo-me que, provavelmente, tudo isso será inútil, porque ninguém está disposto a alterar o estado das coisas. Embora muitas vezes se mostrem preocupados, logo se conformam com a situação. Precisamente aqueles que deveriam estar mais empenhados!

E se quem pode fazer alguma coisa não o faz, que direito tenho eu de me intrometer? De qualquer forma, sozinha não posso muito...

Ainda assim, obrigo-me a investir numa última tentativa que, espero, me conduza ao caminho certo para o sucesso de uma missão, para a qual me auto destaquei!

 

 

 

Abstenção ou voto em branco

 

No outro dia, ao almoço, estava o meu pai a conversar com o meu marido sobre política, partidos, eleições e a importância do voto.

Na opinião do meu marido, e provavelmente outras tantas pessoas, existe uma grande diferença entre a abstenção e o voto em branco. Para ele, a abstenção é sinónimo de desinteresse, alheamento e indiferença para com o futuro do nosso país. Pelo contrário, o voto em branco, é uma participação activa, o cumprimento do nosso dever de cidadãos e, simultaneamente, a manifestação dos nossos desejos.

Até pode ser...em teoria! Na prática, os efeitos são exactamente os mesmos.

Em Portugal este voto não é relevante para a contagem dos votos expressos na eleição presidencial, não tendo influência no apuramento do resultado das eleições. Na verdade, abstenção, votos nulos ou votos em branco acabam por ser formas diferentes de transmitir a mesma mensagem - a rejeição dos candidatos, mas sem qualquer efeito prático.

Eu não voto, pertenço à categoria das abstenções. Deixei de exercer um dever e um direito que me assiste, de escolher um governante para o meu país. Porquê? Porque nenhum deles merece o meu voto. Estou, portanto, a deixar em mãos alheias uma decisão para a qual eu deveria contribuir. Como tal, não me posso depois queixar dos resultados.

Mas, quem vota em branco, estará a contribuir para alguma coisa? Se entre 4 ou 5 candidatos, não escolhermos nenhum, estaremos a decidir alguma coisa? Não. Estaríamos sim, se votássemos num qualquer deles, em detrimento de outro. Não é o caso do voto em branco. Este, por enquanto, ainda não serve para eleger lugares vazios, nem tão pouco tira poder ou força a quem for eleito.

 

 

Entre o dever e a intromissão...

Um vizinho ouve, na casa em frente, uma mulher ralhar com uma criança. A criança está a fazer uma enorme birra, começa a gritar com a mulher e esta, enervada, ralha mais alto. E é apenas isso que o vizinho ouve. Não sabe o que se passa dentro daquela casa. Mas não acha normal e pretende ligar para a polícia...

Não se tratava de uma criança em risco, pelo contrário, era muito bem tratada. Simplesmente naquele dia decidiu desafiar a avó, e a avó gritou com ela. Felizmente, o vizinho acabou por não chamar ninguém, senão teria sido uma situação embaraçosa.

 

Agora, imaginemos que um outro qualquer vizinho ouve uma cena semelhante. Pode, ao contrário do anterior, pensar que se trata de uma situação normal entre avó e neta, ou mãe e filha, e não dar muita importância ao caso. Afinal, não tem que se intrometer num assunto que não lhe diz respeito. No entanto, ao agir dessa forma, poderá estar a ignorar uma situação de maus tratos que, se não for ele, mais ninguém poderá denunciar...

 

Um pai vê a filha com duas nódoas negras na perna. Sem mais, insinua à ex-mulher que a filha anda a aparecer toda negra e que só pode ser em casa desta que ela fica assim. Na verdade, como a filha poderia confirmar, tratou-se de uma queda na escola...

 

Por outro lado, um outro pai, perante uma situação destas, poderia, naturalmente, pensar que as crianças não param quietas e é normal que caiam e fiquem com marcas. E, contudo, poderia estar perante um caso de violência...

 

Então, como devemos agir todos nós, enquanto cidadãos, perante situações como estas? Quando saber se estamos perante algo normal ou maus tratos? Como saber se devemos agir porque temos esse dever, ou se não devemos fazer nada, porque nos estamos a intrometer na vida alheia? Onde termina a intromissão, e começa o dever?...

 

Adaptação - Parte II

 

Se para ele não é fácil, para ela também não.

Ao fim de umas semanas de vida a dois, alguns dos medos e receios que tanto a faziam hesitar, começam agora a confirmar-se.

O romance da primeira semana, em que ambos estavam de férias, deu lugar à vida rotineira de casa para o trabalho, e do trabalho para casa.

A calma foi substituída pela correria, a disponibilidade pelo cansaço.

Aquilo que antes acontecia espontaneamente, parece agora soar a obrigação.

E a sensação de que o passado, mais cedo ou mais tarde, se vai repetir começa a ganhar força.

Talvez ela seja uma mulher de outro planeta, estranha, invulgar, diferente...Talvez nenhum homem seja capaz de compreender e aceitar a forma como ela encara a vida e as relações, mas é a sua maneira de ser.

Não pede muito.

Não quer estar com uma pessoa pelas vantagens que isso lhe possa trazer. A única coisa que considera lógica é uma ajuda para as despesas comuns. O resto, fica por conta de cada um gerir e gastar onde bem entende, como já faziam antes.

Sabe que é normal, sempre que o possa fazer, ajudar o companheiro quando estiver em dificuldades, como gostaria que a ajudassem, na mesma situação. Mas não concorda que isso seja uma obrigação adquirida só porque agora estão juntos. E que lhe seja cobrada ajuda, mesmo sabendo que ela não pode, ou que a acusem de todos os males daí resultantes. Ela não tem culpa que as coisas não tenham corrido como estava previsto.

Também não lhe cabe a ela afirmar se ele tem ou não condições para ali estar a viver. É algo que só ele pode saber. Talvez tenha sido precipitado, talvez não tenha contado com tantos contratempos, mas isso agora não importa.  

E se, agora que estão a trabalhar e com horários opostos, sobra pouco tempo para estarem juntos, ela não tem culpa.

Se têm disposições diferentes, nenhum deles tem culpa. Ou conseguem viver assim, ou não conseguem. Podem conversar, tentar aproveitar quando a vontade coincide, chegar a um consenso. Mas não é justo fazer, também disso, uma obrigação a cumprir, e reclamar quando não o é. 

É tudo o que ela não quer - estar numa relação em que, de repente, tudo o que antes acontecia naturalmente se transforma, pelo simples facto de morarem juntos, em deveres a cumprir. Em que a compreensão, amizade e companheirismo de antes, dão agora lugar a um livro de reclamações por deveres não cumpridos.

Talvez não seja mesmo deste mundo...Talvez esteja enganada...Talvez seja, simplesmente, uma questão de afinação de ponteiros, de limar de arestas, e não um mau presságio...

O tempo o dirá...