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Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

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À Conversa com Francisco Cova

 

“Da Prisão para a Liberdade” é o livro escrito pelo autor F. Cova, editado e publicado pela Chiado Editora em Novembro do ano passado.

Um livro que, segundo o autor, tem como principal objectivo o ajudar o próximo, seja ele qual for, expondo o seu caso concreto como um exemplo de alguém que, apesar de ter chegado tão fundo, conseguiu encontrar forças para se reerguer e mudar a sua vida, transformando-se na pessoa que hoje é.

Durante cerca de 16 anos, foi consumidor de álcool, drogas e, principalmente, comprimidos, tendo passado por prisões e hospitais, dormido em casas velhas, roubado, enganado, mentido...

Mas chegou o momento em que reconheceu, após várias tentativas, que sozinho não seria capaz de mudar, e que precisava de ajuda para o conseguir.

Percebendo que a dor causada pela mudança não poderia ser maior que aquela que sentia, arriscou. E valeu a pena correr o risco.

Há 10 anos que não consome drogas, nem toca em tabaco ou álcool.

Francisco Cova está, actualmente, ligado a uma associação que, por sua vez, está ligada a uma IPSS de nome Desafio Jovem (Teen challenge - Portugal) onde se desenvolvem acções de apoio a toxicodependentes, sem abrigo e prostitutas, em Portimão, e também na prisão de Silves. Tem também um blog, The Book Binder, onde publica os trabalhos que faz a nível de encadernações, transformando livros velhos em novos.

E está hoje aqui neste cantinho como convidado da rubrica “À Conversa com…”, para falar deste livro que escreveu e deixar, mais uma vez, o seu testemunho.

 

 

 

 

Francisco, começo por perguntar como é que surgiu a ideia de escrever este livro, e qual era o seu principal objetivo ao escrevê-lo?

Na Comunidade Desafio Jovem um dia, Deus falou ao meu coração para escrever este livro que (segundo Ele) “iria levar a minha história mais além” para dessa forma poder ajudar outras pessoas e isso na verdade já se tem vindo a manifestar, porque já vendi 1.000 exemplares em Portugal (com edição de autor) e 2.000 exemplares em Secília / Itália, mesmo antes deste projecto entrar para as mãos de uma editora internacional.

  

O que o levou a enveredar pelo mundo das drogas e do álcool?

Na verdade não existe uma razão específica ou um “culpado” por assim dizer. Foram certamente um conjunto de factores, circunstâncias e decisões que me levaram a fazer as escolhas mais erradas da minha vida, devo, entretanto confessar que depois de “entrar” nesse mundo passei a amá-lo como se não existisse outro, por isso foi tão dificil sair.

 

A determinada altura, o Francisco abandonou a casa em que vivia e passou a dormir em casas velhas e abandonadas. Sentiu que era a única forma de não ter que dar satisfações a ninguém sobre os seus actos? Ou era, de alguma forma, uma fuga ao ambiente em que vivia?

Por um lado o viver só,implica não ter de dar explicações a ninguém, nem ter qualquer tipo de responsabilidades a não ser o de alimentar o vício, mas na verdade o abandonar a casa onde vivia (que era a casa da minha avó) não foi uma escolha ou opção que tivesse podido ter, eu fui “convidado” a sair… Drogar-me foi uma opção, no entanto viver mal nunca foi uma escolha, mas uma consequência.

 

Na sequência de actos originados por comportamentos aditivos chegou, inclusive, a ser preso. Considera que a reclusão pode ser benéfica para quem sofre de dependências, e que a prisão é um método eficaz de reabilitação e reinserção das pessoas na sociedade? Ou nem sempre é assim?

Nem sempre é assim. A ideia da prisão e da reinserção social foi muito bem feita, pena é que algures no tempo as pessoas responsáveis pelo processo de encaminhamento foram deixando de se interessar ou talvez as que lá colocaram nunca amaram verdadeiramente esse trabalho… é necessário amar, acreditar e apostar. No que diz respeito ao toxicodependente/recluso muito menos, alguns são esquecidos (como foi o meu caso) e entregues à “bicharada”, existem drogas na mesma e cada um se safa como pode, o tabaco, a medicação ou comida servem como moeda de troca para adquirir as drogas que existem.

 

Em que momento é que percebeu que não queria, ou não podia, mais continuar a destruir a sua vida, como o tinha vindo a fazer até aí?

Aos 36 anos fiquei esgotado de ter que dia-a-dia, roubar receitas no hospital ou nos centros de saúde, falsificar assinaturas, ir ás farmácias comprar os medicamentos que pretendia (algumas farmácias já nem me vendiam) e depois ter que vendê-los no mercado negro para assim poder ter dinheiro para conseguir as drogas. Isso esgota qualquer ser humano depois de uma caminhada de 16 anos…

Sozinho, com a saúde de rastos, cansado e vazio por dentro, um dia ouvi no café convívio (lugar de encaminhamento para o centro Desafio Jovem) “vinde a mim todos os que estão cansados e oprimidos e eu vos aliviarei” (palavras de Jesus) e ao ver testemunhos de pessoas que haviam passado pelo mesmo fez renascer a esperança no meu coração e sonhei com isso. (cheguei a ter um pesadelo / aviso, que relato no inicio do livro acerca do fim que a minha vida iria ter se não mudasse de rumo).

 

Considera que o reconhecimento de que têm um problema, e a coragem para pedir ajuda, são duas das principais dificuldades que os toxicodependentes ou alcoólicos enfrentam?

Sem dúvida alguma, são duas barreiras muito importantes e poderosas que impedem muitos de serem ajudados, tudo que vem depois disso são apenas desculpas que se usam para não se reconhecer a falta de coragem e reconhecimento.

 

O Francisco afirma que a dor causada pela mudança não poderia ser maior que aquela que já sentia. No entanto, a verdade é que, no caso das drogas por exemplo, os sintomas provocados pela abstinência, durante a fase do “desmame gradual” podem ser bastante dolorosos. Considera que será esse um dos motivos que leva a que muitas pessoas desistam a meio do processo?

Não creio, porque hoje em dia já ninguém faz curas “a frio” (excepto aqueles que querem), se por um lado é considerado bárbaro por outro é masoquismo.

Quando eu relatei essa frase no meu livro refere-se mais à dor da minha alma e não a uma dor física que pode ser superada fácilmente com fármacos. A dor da alma é algo mais profundo e dificil de sentir, principalmente para quem tem falta de coragem e admitir a necessidade de mudança o ser demasiado orgulhoso para dar um passo em frente etc… A minha alma sofria por ver a minha vida andar em círculos e de nada me valer a minha inteligência ou conhecimentos.

 

Por norma, a família costuma ter um papel fundamental no apoio a pessoas que passam por situações semelhantes à do Francisco. Foi esse o seu caso? Quem o acompanhou ao longo de todo o processo de mudança?

Muitas pessoas chegam a esse estado de ajuda já com a vida tão degradada, e a vida familiar tão destruturada que vai ser necessário criar uma nova estrutura, e restaurar uma confiança nova… Muitas familias foram enganadas, roubadas, etc e isso requer tempo e paciência (diria que é um processo lento e doloroso), mas no fim vai valer a pena, porque se aprende a valorizar (foi o que se passou comigo).

 

 Qual foi a maior dificuldade que teve de enfrentar ao longo dessa luta?

A parte espiritual sem dúvida. Tirar a ideia de um Jesus que nasceu numa manjedoura e “coitadinho” está lá pregado na cruz por causa de mim e substituir isso por um Deus que nos ama tanto ao ponto de se fazer homem, morrer e ressuscitar para que com isso eu possa ter a oportunidade de me reconciliar com Ele foi algo que até sentir isso na pele foi dificil interiorizar… Todo o sucesso desta recuperação sem ter que viver o tal “um dia de cada vez” e ao longo destes 10 anos não voltar a consumir nem tão pouco a pensar no assunto, tem a ver com este Jesus que não conhecia e que me curou. Eu fui alguém com esse problema, depois de curado esse deixou de ser um problema, não tenho que lidar com ele diariamente porque ele já não existe.

 

Está há quase 10 anos sem tocar em álcool, tabaco ou drogas. Para si, é uma vitória? Uma luta deste género, é uma luta para a vida?

Sim, é de facto uma vitória, porque desde o dia 18 de maio de 2006 que nunca mais peguei num cigarro ou consumi drogas. Em ocasiões especiais e em familia ás vezes bebo um copo de vinho, ou numa caracolada uma cerveja, mas o sentimento de dominio sobre algo que já dominou parte da minha vida, sem sentir o desejo de continuar a beber ou o medo de não conseguir parar é uma vitória muito maior. Para mim não é uma luta para a vida, é uma luta do passsado que eu venci. No entanto vou estar atento (claro) temos de ser prudentes (a prudência é uma virtude que adquiri juntamente com a luta pela “cura”).

 

Sente na pele algum tipo de discriminação por parte da sociedade, devido ao seu passado?

Não, muito pelo contrário. De todas as pessoas que trabalhei e que me conhecem valorizam muito a minha vitória neste processo, acham que sou alguém corajoso e valorizam o meu trabalho de voluntariado na ajuda a outras pessoas com este problema (toxicodependentes, reclusos, sem-abrigo etc).

 

Como descreveria a sua vida neste momento? É, hoje, um homem mais feliz?

Por dentro sinto-me uma pessoa realizada, embora hajam muitos projectos e com isso processos para trabalhar até atingir os objectivos, mas em vez de me esconder atrás de drogas enfrento com desafio cada um deles com a mesma determinação que tinha quando queria arranjar drogas.

 

Muito obrigada pela sua disponibilidade!

 

*Esta conversa teve o apoio da Chiado Editora, que estabeleceu a ponte entre o autor e este cantinho.

 

 

 

 

 

 

 

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