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Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

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À Conversa com João Luzio

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Esta semana, o convidado da rubrica "À Conversa com..." é João Luzio que nos fala um pouco mais sobre si o o seu percurso musical na entrevista que aqui vos deixo! 

 

 

 

 

Quem é o João Luzio?

João Luzio... Nasci em França, onde passei alguns anos antes de vir para Portugal, onde estive em Chaves e, agora, Oeiras.

Dou neste momento aulas na Academia de Guitarra em Algés e tenho tido o privilégio de poder desenvolver a minha própria Música de Guitarra Eléctrica e Guitarra Portuguesa. Conto neste momento com 5 discos, de música quase exclusivamente instrumental, gravados.

 

 

A música esteve muito presente na sua família. Foi ela que o levou a descobrir este mundo, e despertar em si a paixão pela música?

Penso que sim, mesmo que de uma forma subconsciente, pois parecia relativamente natural haver bastante música em casa, ouvir alguém a cantar algum refrão de uma música.

E as memórias que se criam quando somos mais novos afectam sem dúvida o nosso estilo de vida ao longo do tempo. É muito provavelmente também fruto do reflexo do valor da música que me foi transmitido no sentido da importância que ela carrega para o bem estar.

Ainda hoje dou por mim a ouvir música que me marcou muito nessa época: a minha irmã partilha música comigo, e os meus pais têm música a dar em casa deles, mesmo que já bem conhecida de todos, faz parte do ambiente. Não tem a ver com a parte que racionaliza a música e tenta entendê-la e estudá-la mais obejctivamente, mas sim a parte que faz sonhar e leva para aquele lugar em que a música simplesmente toca e nos faz viajar.

 

 

O João cresceu em Paris. Foi uma cidade que, de alguma forma, o influenciou a nível musical?

Sim, de forma indirecta. Não era propriamente exposto a música ao vivo, concertos ou apresentações de uma forma assumida, mas ouvi por consequência muita música em casa, ou através de televisão ou filmes.

Essa música sim, era o reflexo de uma parte da cultura que os meus pais absorviam em França, mas também parte da cultura Portuguesa. Igual com a minha irmã. Mas penso que teria acontecido noutro lugar, mesmo se noutro contexto.

Depois com a idade ganha-se uma vontade e consciência que nos leva a querer investigar e conhecer mais por nossa própria conta, e sem dúvida que a cultura associada às nossas raízes nos atrai. Na verdade, tudo o que está à nossa volta consegue gerar algum tipo de influência musical, e não só.

 

 

A guitarra foi um instrumento que sempre o fascinou, ou acabou por ser uma escolha aleatória, sem nenhuma razão em particular?

A guitarra era o instrumento mais óbvio, pois era o que estava em casa "à mão" e era o que auditivamente me era destacado em temas que ouvisse. O meu pai tocava umas melodias e isso gerou a vontade de entender o que ele estava a fazer e querer replicar. Divertíamo-nos com outros instrumentos mas a guitarra puxava sempre de volta.

Penso que se gerou uma ligação emocional pessoal com o instrumento guitarra que remete para experiências sensorias ligadas à audição, à sensação de tocar nas cordas ou até o cheiro das "velhas" cordas que estavam postas na guitarra.

Depois evoluiu naturalmente e proporcionalmente ao meu interesse pessoal.

 

 

O que o levou a seguir a área da engenharia civil, e em que momento percebeu que nunca se dedicaria à mesma?

Desde que tenho memória, tenho a noção de ser muito atraído por números e gostar de matemática. Acho fascinante como a matemática desafia a parte cognitiva e nos leva, através de um raciocínio concreto, a chegar a uma solução. Tem um aspecto disciplinar (do ponto de vista de visualização e entendimento) muito interessante. E isso não se reflecte apenas no entendimento de problemas ligados a numeros mas sim no entendimento de outros raciocínios.

Penso que de certa forma estive à procura de algo que me ligasse à matemática e, depois de alguma análise e aconselhamento, acabei por enveredar pela engenharia.

Com o passar do tempo, apercebi-me que havia conceitos que não me atraíam tanto nessa área mas o verdadeiro apelo aconteceu quando, numa entrevista de trabalho, percebi a fatia de tempo do meu dia que iria ser entregue à engenharia.

Achei que se realmente queria fazer algo ligado à música esse seria o momento de mudar de direcção.

Mas sou muito grato por isso pois tive a ajuda das pessoas à minha volta que me incentivaram sempre incondicionalmente a seguir o que me faria sentir bem.

 

 

Enquanto músico, o João destaca-se como compositor e como guitarrista, tanto em guitarra elétrica, como na guitarra portuguesa. Como é a sua relação com cada uma destas guitarras?

O elo comum é que os dois intrumentos servem para isso, são instrumentos. Servem para descobrir qual o meu lugar, o que tenho a dizer e de que forma vou fazê-lo usando as ferramentas disponíveis. Essa é de certa forma o meu grande relacionamento com estas guitarras.

Ter a destreza de ser consciente da música e músicos que admiro mas também conhecer qual o meu lugar. Todos nós temos histórias para contar e formas diferentes de as contar. A honestidade é um elementos que liga estes factores para encontrar o nosso lugar. Mas é um processo constante que sinto que está diariamente em andamento.

A guitarra eléctrica é o instrumento que aparece pela influência consequente da música que ouvi/ouço, dos amigos que tocavam e da envolvência musical. Faz sentir em casa. Ouvi muita música ligada a guitarristas que me incentivam ainda hoje a querer aprender mais. Aliás, a inspiração pode vir de qualquer lado ou pessoa à nossa volta. E no meio do processo, passei sem dúvida muitas horas a tocar e a absorver música.

A guitarra Portuguesa surge depois do meu primeiro disco e penso que por razões culturais e de raízes quis colocar música ligada a ela. É um instrumento que respeito muito e gostaria de desenvolver na sua técnica mais tradicional no futuro.

No meu caso fui adaptando o instrumento ao que me era mais natural (tecnicamente e musicalmente). É um processo que ainda está em desenvolvimento na minha cabeça, sem dúvida, e ainda vai levar o seu tempo.

 

 

Foram vários os álbuns que editou até ao momento, nomeadamente, “Moods & Colors” (2012), “Genuine & Odd Distractions” (2014), “Raízes & Instropecção” (2015), “Rêves d'un Duo Improbable” (2016) e “Quero Saber Mais de Ti” (2017). Quais são as principais diferenças entre cada um deles?

Objectivamente, cada um destes discos tem uma abordagem diferente, seja por influência da música e das alturas em que foram feitos, ou pelo desejo de experiênciação musical. Ou abordam mais o rock/fusão, ou a parte acústica, ou a fusão entre a guitarra eléctrica e Portuguesa.

Cada disco serviu um propósito musical no ponto de vista racional de composição e execução, mas também emocional no sentido que o que pretendia gravar representa alguma ideia ou experiência pela qual se passa.

Mas a verdade é que isto se torna secundário face ao resultado que deve ser servir a música.

Basicamente, a diferença é a mesma que olharmos para fotos nossas tiradas ao longo nos anos. Mudámos, mas éramos sempre a mesma pessoa. Seguimos um caminho, tentamos ser o mais fiéis possíveis e vamos atrás disso. Às vezes erramos, mas continuamos.

Vamos encontrar diferenças e, esperançosamente, evolução. E apesar de tudo, penso que se houver honestidade, poderá reconhecer-se a essência da pessoa ao longo do tempo e de forma transversal ao trabalho dela.

É algo que temos todos.

 

 

O João foi convidado para integrar as produções de Office Film Store, com o intuito de criar bandas sonoras de documentários. Foi mais um desafio a superar?

Na altura em que foi feito o convite e fui levado nessa produção com o Rafael Chiotti (pois foi um projecto em que me envolvi graças a ele e com ele).

A parte mais interessante nessa área é termos um contexto visual que nos é exterior, temos a visão de quem criou o documentário/vídeo e temos, de acordo com as ferramentas que conhecemos, de ir de encontro com o que nos é pedido, geralmente associado a um sentimento que quer ser transmitido. Acho isso muito interessante. Olhando para trás acho sempre que se teria feito algo diferente mas esse sentimento parece ser natural e transversal a muitas situações.

 

 

 

 

 

O seu percurso conta também com colaborações com outros músicos, como Yuri Daniel, John Fletcher, Yami Aloelela ou Vicky Marques. O que de melhor guarda desses momentos?

Provavelmente a ideia de pintar uma tela musical em conjunto. Desde que comecei a registar música em discos tem sido uma experiência de apredizagem constante com todos os envolvidos e tento guardar comigo os momentos que me levam a aprender.

E ao estar com pessoas como estas (e outras com quem já trabalhei) que servem a música, é muito interessante entender como cada pessoa desenvolve o seu processo criativo e encara a forma como vai ficar representada, neste caso, musicalmente. Consegue-se também conhecer mais as pessoas, que é algo que me fascina.

Pois servimos o mesmo propósito mas cada um com as suas próprias experiências e ferramentas, e isso é muito interessante.

 

 

Que objetivos gostaria de concretizar, a nível musical, em 2018

Tenho vários projectos em mente, confesso, mas existem elos comuns a eles. Escrever mais música e tocar estão na minha prioridade, sem dúvida, neste momento. Continuar a aprender, é algo em que invisto. Escrever a minha música e tentar tornar-me melhor no que faço.

Tenho estado envolvido na ideia de me encontrar e escrever música pontualmente com vários músicos de várias culturas/países e que toquem variados instrumentos (tal como surgiu o tema Kuwelela, que foi o primeiro tema neste conceito).

No fundo interessa-me muito entender como se pode juntar instrumentos que provenham de diversas culturas e resultem juntos. Ver de que forma a conversa pode funcionar. Há um pouco o sentimento de quebrar barreiras mas sem ter o sentimento de desrespeitar a Música em algum momento.

Tenho alguns trabalhos reservados concretos já em andamento para este ano nesses sentidos e irei dar o meu melhor para concretizá-los.

 

Muito obrigada!

Obrigado.

 

Nota: Esta conversa teve o apoio da editora Farol Música, a qual cedeu também a imagem e o video.

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