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Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Isto não é sobre escrita...

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Pode parecer mais fácil pegar em algo que já está escrito, e fazer apenas ajustes, do que criar algo novo.

 

No entanto, o problema de querermos corrigir algo que já está escrito é que, de tanto escrevermos por cima, anotarmos, riscarmos, acrescentarmos ou mudarmos as palavras, frases ou excertos, chegamos a um ponto em que perdemos o fio à meada.

Em que olhamos para aquele emaranhado, e não percebemos nada do que está escrito.

Porque é demasiado confuso. Ou parece não fazer sentido nenhum.

 

Por outro lado, pegando numa folha em branco, para criar uma nova história, podemos escrever aquilo que queremos, do início ao fim, da forma como queremos.

Só que também, perante ela, muitas vezes, nos perdemos.

Porque não fazemos a mínima ideia do que escrever. De como começar. 

Que história contar.

Bloqueamos.

Limitamo-nos a olhar, e deixamo-la ali, sem saber o que fazer com ela. 

 

A dificuldade de receber uma encomenda

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Quando o meu pai era vivo, era sempre para casa dele que iam as nossas encomendas.

Ele estava sempre em casa. Raramente havia falhas.

 

Agora que não existe mais essa opção, começou o "drama".

Para onde indicamos a recepção das mesmas, se nunca ninguém está em casa?

 

A minha filha fez uma encomenda e experimentou, pela primeira vez, um ponto de entrega.

Recebeu um código para ir ao local, e abrir o cacifo, onde estaria a sua encomenda. O código abriu dois cacifos: o dela, e o de outra pessoa!

E a confusão que foi, depois, por causa da outra encomenda que não era dela. Foi a primeira e última vez, até porque outra pessoa qualquer poderia abrir, da mesma forma, o cacifo que não lhe pertencia e, depois, nada de encomenda.

 

Já eu, encomendei a ração das gatas para um sábado.

Pensei que, como habitualmente, viriam a partir das 10h/ 10.30h, pelo que daria tempo de ir às compras.

Pus som no telemóvel. Volta e meia, olhava para o ecrã. Nada.

Fiquei descansada.

Mas não serviu de nada porque não ouvi o telemóvel a tocar e, quando percebi e tentei devolver a chamada, ninguém atendeu.

Ao fim de várias tentativas, lá o transportador respondeu, informando que, naquele dia, já não entregava. Que já não estava no local, e teria que ficar para segunda-feira.

 

E assim foi: segunda-feira, com o telemóvel na mão a passear, para não perder a dita chamada, e a encomenda não voltar para trás, definitivamente.

É isto!

 

 

 

 

 

 

Porque é, o ser humano, tão complicado?

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Porque é que diz que quer uma coisa se, depois, na verdade, não é nada disso que quer?

Porque ergue barreiras que, no minuto seguinte, só queria derrubar?

Depois, se aquilo que não queria, mas afinal queria, de facto, acontece, volta a não querer. Volta a rejeitar.

E torna a erguer a mesma barreira que, pouco antes, tinha acabado de derrubar.

 

Porque é que quando toma uma decisão se sente bem e seguro e, quando se vê na iminência de que venha a ser concretizada, se arrepende, e se sente triste?

Se, na verdade, também não consegue ser feliz com a não tomada dessa decisão, mas tem medo de tomar outra, de que se venha a arrepender e, por isso, mais vale não decidir nada.

Confuso?

Pois...

 

Porque é que o corpo e o coração do ser humano anda sempre em sentido contrário ao seu cérebro?

Porque é que, quando o cérebro toma uma decisão, o coração teima em contrariá-la?

E se o coração vence a primeira batalha, vem logo o cérebro, preparado para ganhar a próxima.

E assim anda, o ser humano, numa eterna guerra consigo mesmo.

 

Enquanto isso, vai a vida passando.

Vão os momentos sendo desperdiçados.

Vai a felicidade escapulindo.

E, um dia, acabam-se as complicações, as confusões, as decisões.

Porque não haverá mais nada para decidir.

Porque o tempo se esgotou.

E de repente, passei a ser "a outra"!

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Chega uma pessoa aos 45 anos, para isto!

Perguntava o meu pai, ao meu irmão, onde é que eu trabalhava.

Como ele está com alguma confusão, o meu irmão pergunta se se estava a referir à Inês (neta).

Responde o meu pai: "Não, a Inês trabalha nos computadores. Estou a falar da outra." 

E é isto. Nem Marta, nem filha. Passei a ser "a outra"!

 

Isto até seria engraçado, se não fosse mau.

Ele já fazia alguma confusão antes, mas desde que teve covid e foi internado, para além de ter voltado fisicamente fraco, veio ainda pior a nível mental.

Claro que tem os seus momentos de normalidade, conversa, sabe o que diz mas, depois, tem momentos em que não sei o que se passa na cabeça dele.

 

Depois, como sou a única que mora ali quase ao lado, sou eu (ou marido, ou filha) que vamos lá ver se ele come.

E não gosto desse papel porque parece que só vou lá para lhe "enfiar comida na boca".

Porque ele precisa mesmo de comer e, se não andarmos em cima, petisca mas não se alimenta em condições. Mas não quero ser a "fiscal" de serviço.

Antes tomava a medicação habitual para o coração e rins.

Agora, reclama sempre que lhe dou os medicamentos.

Tem momentos em que não percebo se ele acha que eu vivo com ele, porque se eu saio, pergunta-me onde vou ou, quando chego, o que andei a fazer.

 

Por isso, nós vamos rindo, vamos relativizando, mas custa ver a pessoa que ele foi, e como está a ficar.

Ainda tem aquela garra de se levantar da cama. De ir até ao quintal apanhar sol. De, por exemplo, querer fazer a barba.

Mas passa o tempo entre cozinha, quintal e cama. Muito mais tempo na cama. 

Desde que veio do hospital, nunca mais quis ver televisão.

Acredito que ele já nem saiba como ligá-la. Mas mesmo quando pergunto se quer que ligue, responde que não.

Tenho a ideia de que ele também já não sabe atender o telefone, nem ligar para ninguém.

O que também não ajuda. 

 

E é isto. Chega aos 82 anos, e acho que alterna ali entre a vontade de viver mais uns tempos (ou não tinha pedido para ir ao hospital), e o deixar-se levar pelo cansaço.

Entre os momentos lúcidos, em que acreditamos que está a melhorar e que, com tempo, vai voltar ao estado anterior, e os momentos em que parece que essas melhoras não se estão a verificar, e que é uma questão de tempo, até se deixar ir.

 

Mas isto sou eu, que sou pessimista...

 

 

 

Lucidez

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Pensar que, há muitos anos, era eu que a rejeitava.

Era eu que não queria nada com ela.

Porque ela me fazia lembrar aquilo que eu deveria fazer. O homem que eu deveria ser.

E eu ainda não queria assumir esse compromisso. 

Ainda queria viver muitas aventuras e sabia que, a partir do momento em que ela passasse a fazer parte da minha vida, isso chegaria ao fim.

 

Sabia que precisava dela. Sabia que ela faria parte do meu futuro.

Mas ainda não estava preparado para tê-la comigo.

Por isso, ia alternando, entre uma e outra.

No fundo, ela esteve sempre lá. 

Mas eram mais as vezes que a deixava de parte, a um canto, do que as que me permitia estar com ela.

 

Claro que, um dia, isso mudou.

Estava na hora. 

Já tinha idade para ter juízo. E assumi.

Desde então, caminhamos juntos, lado a lado.

Nunca me abandonou.

Nunca me deixou ficar mal.

Tem sido uma grande companheira, e decisiva, nos momentos mais importantes.

 

Agora, parece-me que isso está prestes a mudar.

Sinto que, de vez em quando, é ela que se afasta de mim. É ela que se ausenta, ainda que por breves instantes.

Como se estivesse a estudar a melhor forma de me abandonar de vez, fazendo-o um pouco de cada vez.

 

Sinto que, em determinados momentos, ela me falha.

Como se já não quisesse saber de mim.

Como se já não me fizesse falta. 

 

Nesses momentos, sinto-me confuso.

As coisas não parecem as mesmas.

A minha vida não parece a mesma.

 

Mas, depois, como se nunca tivesse deixado de ali estar, ela volta.

Volta, e faz-me perceber a figura ridícula que fiz, enquanto me deixou.

E sinto-me mal, por estar tão dependente dela.

E por ela me pregar estas partidas.

Ela, que nunca me deixou ficar mal age, agora, como se fosse esse o seu objectivo.

 

Oh, lucidez...

Porque é que me deixas sozinho, sem rumo, quando mais preciso que me guies?

Porque é que, agora, és tu que me rejeitas? 

Logo agora, quando mais preciso de ti.

 

Porque é que vais, e voltas, em vez de permanecer comigo?

Estarás, tu, a testar-me?

A vingar-te de mim?

 

Quando estás comigo, não consigo parar de pensar que, quando eu menos esperar, não voltarás mais, e me deixarás para sempre.

E se isso acontecer, o que restará de mim?...