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Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Privacidade: um direito inviolável ou a chave para salvar alguém?

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A privacidade é um direito que nos assiste, e que ninguém tem permissão para invadir, ou violar.

Por norma, quando alguém o faz, é quase sempre para fins menos dignos, por motivos pouco altruístas, mas por puro egoísmo, curiosidade, desconfiança, lucro, ou outros igualmente condenáveis.

Mas, e se essa invasão for essencial, não para benefício próprio, mas para ajudar a salvar alguém? Justificar-se-ia invadir a privacidade, violar esse direito?

 

Quando uma mãe, após o suicídio do seu filho, lê o diário escrito por este, e percebe que estava ali a possível chave, que poderia ter, quem sabe, evitado o que veio a acontecer, o que pensa ela?

Que a resposta esteve sempre ali.

 

Mas ela não queria estar a invadir a privacidade do filho e, por isso, nunca leu o diário, nunca soube como ele se sentia, nem o que o atormentava e, como tal, não conseguiu ajudá-lo a ponto de evitar o pior.

Deveria ela ter quebrado a confiança?

Deveria ela ter invadido a privacidade?

Agradecer-lhe-ia, o filho, por tê-lo feito?

Seria garantido que essa invasão seria útil, e impediria o suicídio?

Não sabe... Mas sabe que, não o tendo feito, pode ter contribuído para o desfecho, pela inação.

 

Parece-me a mim que, nos dias que correm, a privacidade é muitas vezes violada sem motivos válidos e, poucas vezes, invadida por razões que o justifiquem.

O que levanta outra questão: existem razões ou motivos que justifiquem essa invasão?

Ou é, imperiosamente, um direito inviolável?

 

Um direito tem sempre, como contrapartida directa, um dever?

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A minha filha está a fazer, para a disciplina de Filosofia, um ensaio filosófico que, após escolha de algumas das ideias em cima da mesa, acabou por recair na defesa da Eutanásia, como um direito à dignidade.

Ela teria que expôr a sua tese, os seus argumentos a favor da mesma, as objecções e a respectiva resposta a estas, de forma a manter a sua defesa.

Confesso que é um tema que me interessa.

Tal como relativamente ao aborto, defendo a sua despenalização, e não condeno quem a peça, ou quem a pratique a pedido de alguém.

O facto de defender a eutanásia não significa, obrigatoriamente, que essa seja uma opção à qual recorreria. Penso que só quem está nas situações, saberá o que sente e o que quer para si.

Quanto mais leio sobre o assunto, sobre os argumentos a favor e contra, mais me apercebo da complexidade da questão.

Mas o que me abriu, de facto, uma nova visão para o tema, foi a perspectiva, vista do lado dos profissionais de saúde.

 

 

Podemos ter o direito a morrer dignamente, mas teremos o direito de pedir ao médico, que nos mate?

Assim de uma forma um pouco radical, o que era defendido era que, se o paciente tem o direito de morrer, então o médico tem o dever de matar.

Isto porque partem da premissa de que um direito implica sempre um dever. O direito de um, implica o dever de outro. 

 

 

Mas será que um direito tem sempre, como contrapartida directa, um dever? Em qualquer circunstância? 

Não me parece. Nem sempre.

E, pelo menos, não neste caso. O facto de se ter direito a morrer dignamente, não faz da morte, automaticamente, um dever do médico. A não ser que este seja a favor, e considere seu dever, apresentado o pedido do paciente e analisado o seu quadro e situação clínica, aceder ao mesmo e pôr fim à vida e ao sofrimento.

Mas nada o obriga a matar, se ele assim não o entender, ainda que não venha a ser penalizado por tal acto.

Talvez o ideal fosse a pessoa que quisesse morrer dignamente, pôr fim à sua própria vida. Aí, falaríamos de suicídio. Mas faltar-lhe-iam sempre os meios, que levassem ao fim. E, talvez, a coragem.

Algo que também não se pode exigir do profissional de saúde. Eu quero morrer mas não tenho coragem de me matar, por isso, preciso de si. Não seria justo.

Mas acredito que um qualquer médico que pratica o aborto que, no fundo, não deixa de ser matar um ser humano, que teria toda uma vida pela frente, que desliga uma máquina, por não ser útil na reversão de um determinado quadro clínico, ou até mesmo eutanasia um animal para lhe acabar com o sofrimento, não terá problemas em o fazer, aos humanos que querem partir.

 

Sobre os argumentos contra e a favor, sobre eutanásia activa e passiva, voluntária ou não voluntária, o matar e o deixar morrer, muito haveria para falar, quer em termos éticos ou religiosos, e não chegaríamos a lado nenhum.

Até que ponto estão os médicos dispostos a ir, na defesa da vida humana, e daquilo que consideram que é melhor para o paciente, ainda que esse não o veja dessa forma?

Até que ponto estão os pacientes dispostos a ir para ver satisfeito esse seu desejo e direito que lhes assiste, a uma morte digna?

E o que é, para cada um de nós, uma morte digna?

 

 

 

 

Da abstenção nas eleições do passado domingo

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Eu diria que a abstenção se traduz numa única palavra: desesperança!

 

Muito se tem falado sobre a enorme taxa de abstenção que caracterizou as eleições do passado domingo.

Muitas têm sido as críticas a quem não foi às urnas, a quem não exerceu o seu direito de voto, a quem se esteve a marimbar para o que estava ali em causa, e preferiu ficar em casa, ou ir para qualquer outro lado passear.

 

 

Ah e tal "Abster-se de votar não é uma forma de protesto. Existem outras formas de mostrar descontentamento."

Ah e tal "Quem não vota não tem depois o direito de reclamar ou exigir nada, porque não fez nada para mudar o que considera que está mal."

Talvez.

 

 

Mas uma coisa é certa: 

Não chega apenas apelar ao voto.

Não chega a possibilidade de votar em branco.

Não chega ir lá e entregar um voto nulo.

 

 

 

Mais do que isso, é preciso que surja um candidato/ partido, que nos faça acreditar na causa que defende, que nos convença de tal forma, que nos leve a levantar o rabo do sofá para dar esse voto de cidadania (e de confiança) com vontade, e gosto por exercer o nosso direito. Com esperança numa mudança.

E não é o que acontece hoje em dia, à excepção, talvez, do PAN, que tem vindo a marcar pontos e a revolucionar aos poucos. O PAN é aquele que, à falta de outro melhor, acaba por se mostrar diferente, e mais convincente. Mas não ainda o suficiente.

 

 

Os portugueses vivem em desesperança pelas propostas que são apresentadas. São mais do mesmo. E do mesmo que ninguém quer.

Os portugueses acreditam que, qualquer um que seja escolhido, fará o mesmo que os outros, mesmo que tenha prometido o contrário.

 

 

Só no momento em que surgir alguém capaz de revolucionar o actual panorama político, capaz de nos fazer juntar à causa, e lutar por ela, como fazemos, hoje em dia, em tantas outras áreas, se poderá reverter este quadro de abstenção.

Isso, ou então acenar aos portugueses com uma "cenoura", a que terão direito se cumprirem a sua parte (votando). Por norma, costuma ser ainda mais eficaz!

É legítimo ocultar um erro médico?

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Para salvar a reputação de um membro da equipa médica, quando esse erro, ainda que, de certa forma, desculpável, dadas as condições em que a vítima se encontrava e a grande probabilidade de aquele pormenor escapar aos olhos da maioria, resultou na morte da vítima?

 

Como se sente um médico que tentou tudo para salvar um paciente e fez uma manobra perfeita e complicada de emergência que lhe salvou a vida temporariamente, para depois saber que essa mesma pessoa faleceu porque, embora aquele procedimento tenham sido essencial, houve outro que falhou, por sua culpa? 

 

Como se sentem os familiares da vítima mortal, ao tomar conhecimento de que a mesma faleceu, sem sequer imaginar que, talvez, pudesse ter resistido se não fosse um erro médico? Não terão eles o direito de saber? Ainda que isso não devolva a vida de quem partiu?

 

E quem pode julgar se o médico que cometeu o erro tem desculpa ou não? Terão os responsáveis pelo hospital o direito de esconder/ omitir os erros, para savar a pele e a reputação? Ou o dever de denunciar e apurar responsabilidades, quando existam, para manter a credibilidade e confiança?

Os médicos podem/ devem mentir aos pacientes?

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Deve um paciente saber a verdade sobre a sua situação clínica, ainda que esse paciente seja apenas uma criança?

É legítimo os familiares de um paciente, pedirem a um médico que omita/ minta a esse mesmo paciente?

Quanto de altruísmo ou de egoísmo está presente nesse pedido?

 

Por vezes, tentamos proteger tanto, que não percebemos que aqueles que queremos proteger não vivem dentro de uma bolha, que não são parvos e sabem pensar por si, e perceber quando nos dizem a verdade ou nos mentem.

Por vezes, as nossas acções visam aquilo que achamos que é o melhor para os outros mas, no fundo, é aquilo que é o melhor para nós próprios.

 

"Ah e tal, não vai aguentar!", "Vai ser pior saber", "Se não souber, não sofre.".

 

Mas, quem somos nós para dizer o que os outros querem, o que vão pensar ou como vão reagir, decidindo por eles em algo que diz, acima de tudo, respeito a eles?

 

Coloco-me no lugar do paciente e, por mais que me custasse, iria querer sempre que me dissessem a verdade, nua e crua, do que fingirem que estava tudo bem, quando tudo e todos à minha volta agiam em sentido contrário às palavras, denunciando-os. 

Até porque o facto de omitirem só leva a que seja mais fácil, para eles próprios, lidar com o sofrimento deles. Se não virem o sofrimento dos outros, não sofrem ainda mais.

Estando eu doente, não tenho o direito de saber? Correndo riscos, não tenho o direito de ser informada? Estando com os dias contados, e a vida por um fio, não tenho direito a fazer a minha própria despedida, à minha maneira?

É eticamente correcto os médicos, a pedido de alguém ou por sua própria autoria, ocultarem a real situação clínica do paciente?

E quando transpomos isto para uma criança? Mudará alguma coisa? Ou continuará a ter os mesmos direitos?

 

Colocando-me no lugar de familiar, nomeadamente, mãe, quereria eu que a minha filha soubesse a verdade? Estaria ela preparada para isso? Saberia eu própria lidar com essa verdade, e com os eventuais estragos que ela pudesse fazer à minha filha? Ou pediria ao médico que lhe mentisse, tal como eu, para que ela continue a ter uma vida normal, sendo que nunca o será?

Lá está, mais uma vez, percebo que, não querendo que a verdade seja dita, estaria a aliviar-lhe os últimos momentos da sua vida mas, sobretudo, a aliviar-me a mim, enquanto mãe, de lidar com as frustrações, negações, conformismo, depressão da minha filha, a somar às minhas. Nesse sentido, é altruísmo para com a minha filha, ou egoísmo da minha parte?

 

Conseguiria eu levar a farsa até ao fim, sem me denunciar? É pouco provável e, como já referi, as crianças não são parvas. Acho que, em qualquer caso optaria, por mais difícil que fosse, pela verdade.

 

E enquanto médica? Posso eu mentir a um paciente, seja ele qual for, sobre o seu estado de saúde? Que os pais não tenham coragem, ou queiram esconder/ proteger, é com eles. Mas como profissional de saúde, como devo agir?

Com uma verdade esmagadora, ou com uma mentira piedosa?