Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

"Para a Minha Irmã", de Jodi Picoult

450.jpg

 

Esta deve ser uma das poucas histórias que, de certa forma, nos deixa de "pés e mãos atados", sem conseguir tomar partido, com absoluta convicção, de nenhum dos lados. 

Sabemos o que está errado. Sabemos o que é errado. Sabemos quem está mal. 

Mas...

Como podemos julgar? Como podemos condenar?

Quem não faria tudo o que pudesse para salvar um filho?

O problema é, a que preço?

 

O que implica, e como se repercute, em toda a família, toda a dinâmica estar centrada na filha doente. Tudo depender, e ocorrer, em função dela.

Enquanto isso, há um filho, claramente, negligenciado, "chutado para canto", como se fosse, nem digo uma personagem secundária, mas um mero figurante.

E há uma filha, na qual depositam todas as esperanças de cura, feita à medida, por encomenda, e da qual, ano após ano, desde o seu nascimento, vão "roubando" um pedacinho, como sanguessugas, até não haver mais o que retirar.

Ou até não ser mais preciso. 

 

Kate, a filha doente, é uma sobrevivente. 

Talvez, como dizem, esteja apenas à espera que os pais lhe permitam partir mas, como eles insistem tanto que ela se mantenha viva, ela faz o que pode, e o que não pode, para não os defraudar, e vai aguentando tudo, com resiliência.

Uma resiliência que Anna sempre demonstrou, também, porque, afinal, era a sua irmã, e estava nas mãos dela ou, literalmente, no corpo dela, salvá-la.

Mas chegou a um ponto em que, para ela, se calhar, chega. 

Se calhar chega, de nunca lhe perguntarem como ela se sente. De nunca lhe pedirem autorização. De a usarem. De não pensarem, por uma vez que seja, nela.

 

Compreendo o lado dos pais.

Viram naquela filha a única hipótese de salvarem a outra, à partida, sem grandes riscos para a dadora, e com o mínimo benefício que fosse, para a receptora, prolongando um bocadinho mais a sua vida.

Compreendo que uma mãe, perante uma filha com uma doença com esta gravidade, esqueça tudo o resto e apenas esteja focada em não deixar a filha morrer.

Mas ela tem outros filhos!

O pai, por outro lado, é uma pessoa mais sensata, mais razoável. Apoia a mulher, mas questiona-se sobre o que estão a fazer. Se será certo. Se deveriam fazê-lo.

É a pessoa que consegue agir com alguma lucidez, e discernimento, apesar do drama que também é dele.

 

Obviamente, nenhuns pais vão pedir permissão a um bebé, ou uma criança, para algo que ela própria não sabe bem o que é.

Mas a verdade é que a pessoa mais afectada, Anna, também tem direito ao seu corpo. A não ser invadida. A não ser usada sem o seu consentimento. A não pôr a sua saúde em risco, por menor que seja esse risco, sem estar devidamente informada, e querer, ainda assim, fazê-lo.

A não ver a sua pessoa, e a sua vida, anuladas, porque o que importa é, apenas e só, Kate. 

É disto que se trata.

E, chega um momento, em que é preciso parar.

 

Com um processo de emancipação em curso, interposto por Anna, e a pressão e culpabilização constante da mãe para que ela mude de ideias, toda a história se vai desenrolando, entre reuniões, tutora e advogados, sem sabermos qual será a decisão final do juiz.

E confesso que, depois de tudo, não gostei do final.

Para mim, não fez sentido.

Mas, afinal, também a vida é assim.

 

 

Sinopse:

"Luke Anna não está doente, mas até parece estar. Aos treze anos, já fez inúmeras cirurgias e transfusões para que Kate, a sua irmã mais velha, possa combater a leucemia que a afeta desde a infância. Anna foi concebida para ser dadora de medula compatível com Kate, uma vida e um papel que ela nunca questionou...até agora. À semelhança da maior parte dos adolescentes, Anna começa a questionar quem realmente é. Mas, ao contrário da maioria dos adolescentes, sempre foi definida em função da irmã. E é então que Anna toma uma decisão impensável para a maioria das pessoas, uma decisão que faz com que a sua família desmorone e que pode ter consequências fatais para a irmã que ela adora.

Para a Minha Irmã questiona o que significa ser um bom pai ou mãe, uma boa irmã, uma boa pessoa. Será moralmente defensável fazer qualquer coisa para salvar a vida de uma criança, mesmo que isso implique desrespeitar os direitos de outra? Valerá a pena tentar descobrir quem se é de facto, quando essa pergunta nos faz gostarmos menos de nós próprios? Deveremos seguir o nosso coração, ou deixar-nos conduzir por outros?"

"A Lei de Lidia Poët" - segunda temporada

465124901_8621306174651278_2506824903450325466_n.j

 

Acompanhei a primeira temporada, em 2023, na Netflix, e fiquei surpreendida por saber que ia estrear, em Outubro deste ano, a segunda temporada.

Como não poderia deixar de ser, já a devorei!

 

Nestes seis novos episódios, há um seguimento da história das personagens principais, com novos desafios, novos mistérios para resolver, e um novo triângulo amoroso na vida de Lidia Poët.

 

Tal como na primeira temporada, reitero, Lidia e Enrico, o seu irmão, são as minhas personagens favoritas.

Lidia, pelo seu papel determinante na luta pelos direitos das mulheres, pelo seu humor, pela sua faceta destemida e aventureira.

E Enrico, pelo seu enorme coração, pelo seu amor incondicional pela irmã, e pela família. Pela sua figura caricata, que nos faz torcer por ele. 

 

A temporada começa com a morte de um jornalista, amigo de Lidia e Jacopo, que deixa a ambos um bilhete, que nenhum deles consegue decifrar.

No entanto, decididos a descobrir quem o matou, e porquê, acabam por perceber que há muito mais por detrás dessa morte. Segredos que certas pessoas não querem que sejam descobertos. Quem sabe, uma conspiração, que pode colocar em risco as vidas de todos aqueles que teimarem em investigar.

 

Enquanto isso, outros crimes vão ocorrendo, com Lidia a dar uma mãozinha, e a sua sabedoria e perspicácia, ao novo procurador geral, na resolução dos casos, sendo o seu irmão o advogado de serviço dos acusados, uma vez que Lidia não o pode ser.

 

No que respeita ao amor, e depois de ter deixado partir Andrea, preferindo ficar, percebemos que o seu caso com Jacopo também não resultou. Embora pareçam não se ter esquecido um ao outro.

Mas, agora, chega Pier, para baralhar ainda mais os sentimentos de Lidia.

 

É uma série viciante, a não perder!

 

 

 

Afinal, há pobreza em Portugal?

1024.jpg

 

Vem esta questão a propósito de uma imagem humorística publicada numa rede social, comentada por alguém que afirma que, em Portugal, não há pobreza.

Há, sim, quem quer passar a vida a viver de ajudas, à custa de subsídios do governo, quem não quer trabalhar, quem prefere viver nas ruas em vez de num abrigo, e por aí fora.

Mais, quando comparado com outros países do chamado "terceiro mundo", não se poderá afirmar que exista pobreza em Portugal. Pelo contrário, estamos muito melhores.

 

Obviamente, há verdade em tudo isto.

Mas não podemos só olhar para um lado.

Para o lado de estarmos muito melhor que outros países. 

Quando oiço falar de pobreza em Portugal, penso também em tantas outras coisas:

- nos mais idosos, que vivem com reformas parcas, que mal lhes chega para comprar a medicação e alimentar-se, e muitas vezes têm que escolher entre uma coisa ou outra

- nos reformados que, em vez de estarem a descansar depois de uma vida de trabalho, são "obrigados" a continuar a trabalhar para poder pagar as suas contas

- nos idosos que vivem sozinhos, abandonados, em "casas" sem quaisquer condições habitacionais, e de higiene

- nas pessoas que trabalham para sobreviver, porque o ordenado que ganham mal chega para pagar a renda de uma casa, quando qualquer pessoa deveria ter direito ao mínimo - uma habitação, um tecto para morar

- nas pessoas que, por não terem como recorrer a hospitais, clínicas e médicos privados, e por não conseguir um atendimento e cuidados médicos mínimos a que deveria ter direito, através do Serviço Nacional de Saúde, acabam por abdicar da sua saúde, entregando-se à sorte, ou à morte

- nas pessoas que, para pagar as contas, se sujeitam a trabalhos onde são explorados ao máximo, em termos de horas de trabalho, salários baixos, mais deveres do que direitos, e sempre com a ameaça de que "se não quiser, há mais quem queira"

 

A pobreza em Portugal, para mim, não pode ser vista como a pobreza da fome, da miséria, das guerras, exploração.

É mais uma pobreza em termos de carência, das necessidades básicas, de bens e serviços básicos, como  alimentação, vestuário, alojamento e cuidados de saúde. 

 

É verdade que Portugal é um país desenvolvido.

Mas, e nessa mesma linha de comparação com outros países, podemos perceber que, neste momento, relativamente a outros países muito mais desenvolvidos, e com outras condições que aqui não existem, Portugal ainda tem muito a desenvolver.

 

É um país pacífico? É. Por enquanto...

Se desejaria sair de Portugal e morar noutro país? Não!

Para mim, continua a ser um bom país para viver.

Mas gostaria que algumas coisas mudassem.

 

E sei que, muito para além daquilo que se vê, existe muita carência em Portugal.

Não daquela que só existe porque os portugueses querem, ou fazem por isso.

Mas daquela em que estão a sofrer as consequências de desigualdades, de políticas, e de interesses, às quais não se lhes pode imputar qualquer culpa.

Agradecer por isso, não é mais do que mostrar uma satisfação que não se sente, e uma aceitação de que não se merece mais, conformando-se com o que é dado.

Quando se tem (ou deveria ter) direito a muito mais.

 

E por aí, qual a vossa opinião?

Há, ou não, pobreza em Portugal?

 

 

Imagem: cnnportugal

 

Cinema de fim de semana

christmas_with_you.jpeg

 

"Um Natal Contigo"

Um filme que mostra como os artistas são descartáveis, substituíveis, apenas usados como fonte de lucro.

E como estão cada vez mais dependentes das redes sociais, dos likes, do aceitação do público, não só a nível profissional, como até a nível pessoal.

Tudo para manter a fama, os fãs, e uma imagem que, na maior parte das vezes, é fabricada e totalmente falsa.

Porque a verdade, e a realidade, não vendem. Ou assim o pensam as agências que gerenciam as carreiras dos artistas.

A exigência, a competição, a obrigação, são as palavras de ordem. 

E quem não aguentar, quem não satisfizer, quem não apresentar o que lhes é ordenado, está fora. 

Ah, sim, o filme é uma comédia romântica! Com música à mistura. E algum sentimentalismo. Mas não foi isso que me captou a atenção.

 

 

AAAABZgM1M5txVqrkP0-yVkFFZfPnuPhDUNei-yNiX9JXPFjEC

 

"Caidinha pelo Natal" 

Em comum com o filme anterior, o facto de as protagonistas se apaixonarem por um homem viúvo, e pai de uma filha, que cria com a ajuda da mãe/ sogra.

Mera coincidência.

Também o facto de, no primeiro filme, a protagonista se focar mais na música, e no que ela lhe possa trazer, do que em aproveitar as coisas simples, e mais verdadeiras, de deixar-se levar pelo momento, e pelos sentimentos, enquanto no segundo a protagonista ser uma mulher rica e mimada que, de repente, perde a memória e vive momentos diferentes, numa vida que não é a sua, mas da qual começa a gostar.

Outra coincidência.

A mensagem:

É preciso seguir em frente, e arriscar. Lutar por aquilo/ aqueles que queremos. Dizer aquilo que teimamos em guardar para nós.

 

 

enolaholmes2-poster.jpg 

 

"Enola Holmes 2"

Num mundo dominado pelos homens, as mulheres têm que lutar para conquistar o seu lugar, lutar pelos seus direitos, e concretizar os seus objectivos.

Entre elas, há as que lideram, as que dão a cara, as que se manifestam, as que põem as mãos na massa, por elas, e por todas.

E há as que vão mais além, e desafiam, criando o seu próprio jogo, na invisibilidade e inferioridade do seu estatuto, sem que ninguém lhes dê atenção, criando o disfarce perfeito.

No entanto, convém ter em conta que, em qualquer luta, e na vida em geral, tudo fica mais fácil, seja para os homens, seja para as mulheres, quando se tem aliados.

Quando se tem amigos, em quem confiar, e com quem contar.

Quando não se tornam almas solitárias, que querem fazer, e viver, tudo sozinhas.

 

A "polémica" disciplina de Cidadania

0_w2VU4axqVs6JDyk9.png

 

Ainda me lembro quando, há alguns anos, vi umas letras estranhas "ETC" no horário da minha filha, e não fazia a mínima ideia do que aquilo significava.

Depois, lá explicaram que era uma nova disciplina "Ética e Cidadania". Não contava para nota, mas era de frequência obrigatória.

Como era leccionada pela directora de turma, o que acontecia muitas vezes era tratar-se, nessa aula, de assuntos relacionados com a turma.

Fora isso, o que foi abordado passou muito pelo respeito pelos outros, igualdade, bullying, preservação do ambiente, e por aí fora.

 

É por isso que me faz alguma confusão toda esta polémica que se está a gerar à volta de disciplina, agora apelidada de Cidadania e Desenvolvimento, que teve início quando uns pais decidiram proibir os filhos de frequentá-la, com o argumento do direito de objecção de consciência.

Apesar de, na minha opinião, a disciplina abordar diversos temas pertinentes e úteis, e poder ser um complemento à educação parental, estes pais consideram que a educação para a cidadania é uma competência deles, e mostram preocupação com dois módulos em específico - "Educação para a igualdade de género" e "Educação para a saúde e sexualidade" - que fazem parte da disciplina em questão, entendendo que a educação sexual e de género têm cariz moral, e não competem à escola. Como tal, defendem que ela deveria ser facultativa, tal como a Educação Moral e Religiosa.

 

O caso tem tomado tais proporções, que já existe um processo de promoção e protecção para estes jovens e, neste momento, o Ministério Público pretende mesmo que estes alunos fiquem à guarda da escola durante o ano lectivo.

A discussão faz-se no Tribunal, e fora dele, com vozes a favor e contra.

 

Para mim, a disciplina deveria ser facultativa. É o mais lógico.

Não sendo, não vejo qualquer problema nos conteúdos que aborda, embora admita que nem todos os pais o vejam dessa forma, e se sintam confortáveis com os mesmos, e com a forma como é ministrada a disciplina.

No entanto, o que vejo aqui, são dois polos extremistas.

Os pais querem proibir os filhos de frequentar a disciplina. A escola quer obrigar os alunos a frequentar.

Nenhum dos dois está bem.

Nenhum dos dois está a considerar a liberdade, a vontade e o futuro de quem acaba por ser mais prejudicado, no meio desta "guerra".

Já alguém perguntou, a esses mesmo alunos, se querem frequentar a disciplina? 

Já alguém pensou em chegar a um consenso?

Parece aqueles casais que usam os filhos como arma de arremesso e chantagem, um contra ao outro, em vez de, juntos, zelarem pelo interesse dos filhos, que é o que realmente importa.

 

Não podemos pensar que os jovens serão, automaticamente, influenciados apenas pelo que ouvem na escola, ignorando tudo o que lhes foi incutido e passado pela educação dos pais. 

Por outro lado, acho saudável que os filhos tenham várias visões distintas, que questionem, que debatam, que decidam por si, que lhes seja dada essa liberdade.

E se, agora, os pais começarem a achar que determinadas matérias vão contra os seus princípios, e educação que querem dar aos filhos, vão proibi-los de frequentar essas disciplinas também?

Isso iria tornar-se uma rebaldaria sem sentido. 

 

Agora, não me parece que a escola seja um espaço onde uma seita tenta fazer uma lavagem cerebral aos alunos, levando-os a situações de surtos de ansiedade, pânico,  ou crises de identidade.

Da mesma forma, não me parece que o facto de os alunos não frequentarem a disciplina consituia um perigo e prejudique os alunos, a ponto de considerar que é do "superior interesse dos jovens e com potencial a, definitivamente, afastar situação de perigo existencial dos mesmos" obrigá-los a tal.

Considerar que os pais põem em perigo a formação, educação e desenvolvimento dos filhos, e afirmar que há perigo de os jovens sofrerem maus-tratos psíquicos, só pelo facto de não frequentarem a dita disciplina, é esticar muito a corda. Parece-me um exagero, que não entra na cabeça de ninguém.

Preocupassem-se antes com quem está, realmente, em risco e precisa de olhos mais abertos e atentos, e não ocorreriam metade das situações que, infelizmente, acontecem, porque foram ignoradas ou desvalorizadas.

 

Vamos ver qual será o desfecho desta "novela", sem pés nem cabeça.

No entanto, gostaria de ouvir mais opiniões, não só de pais, cujos filhos frequentaram ou frequentam a disciplina, mas também de professores, quer leccionem ou não a mesma, para ver se conseguia perceber o que levou uma simples disciplina a esta discussão dantesca e que, para mim, não faz sentido.