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Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

A porta

 

Há portas que permanecem apenas entreabertas, permitindo a passagem, a entrada e a saída, mas sem espaço para o fazer à vontade.

Algumas, eventualmente, podem abrir-se mais, em determinados momentos, e assim deixar-se ficar.

No entanto, quando algo as desestabiliza, seja uma corrente de ar, seja algo (alguém) que não consegue usufruir, sem causar estrago, do espaço que lhe foi aberto, as portas não só tendem a voltar ao ponto inicial, de abertura mínima, como até mesmo a fechar-se, impedindo a passagem. Impedindo o que (quem) quer que seja de voltar a entrar.

Neste momento, sinto-me a porta que está fechada, e com muita relutância em voltar a abrir, nem que seja uma fresta.

 

Texto publicado também em https://marta-omeucanto.blogspot.com/2026/01/a-porta_0376536411.html

 

Gostar de alguém à distância

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Poderá, a distância, invocar sentimentos que, depois, na presença do outro, se desvanecem?

Pode, a distância, levar-nos a sentir coisas que a proximidade aniquila?

É possível gostar-se mais de alguém, quando esse alguém está longe, do que quando está perto de nós?

Será possível duas pessoas darem-se melhor, ou serem mais compatíveis, quando afastadas uma da outra?

Talvez sim.

 

Porque, quando há distância entre duas pessoas, há conversas, há diálogo, há expectativas, há planos que se imaginam. 

Há uma maior comunicação, um maior "à vontade" para exprimir aquilo que se sente.

Há um romantismo e uma idealização de como será quando ambos estiverem juntos. De como as coisas vão acontecer. De como vai ser bom matar saudades. O que vão fazer. Como vão aproveitar os momentos.

 

No entanto, mal a distância dá lugar à proximidade, tudo muda.

Fica-se com a sensação que, afinal, não se gosta assim tanto.

Seja porque as coisas não aconteceram, exactamente, como seria de esperar.

Ou porque, com a proximidade, vem tudo aquilo que mina um relacionamento - a perda de autonomia e de espaço pessoal, os atritos da convivência, a rotina, a saturação, o assumir que tudo é garantido.

De certa forma, é como se a presença física repelisse, em vez de atrair.

 

A propósito desta questão li, no outro dia, uma frase:

"A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, assim como o vento apaga velas e alimenta fogos." - François de La Rochefoucauld.

 

Talvez.

Mas também é certo que a paixão, qualquer que seja a sua intensidade, é um estado que não dura para sempre. Pelo contrário, é apenas uma fase breve, de transição. 

Assim, o que acontece quando ela chega ao fim?

 

Creio que gostar à distância é sempre gostar pela metade. É sempre uma relação incompleta.

E, como tal, como pode ela satisfazer, ou resultar a longo prazo?

Fica sempre a dúvida se se gosta mesmo da pessoa, ou daquilo que idealizamos dela.

Se se quer uma relação verdadeira, ou a relação que imaginamos na nossa mente e que, depois, na prática, nem sempre corresponde à realidade.

 

 

A linha que separa a rotina que conforta, da que sufoca

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Aquilo que, para determinadas pessoas é visto como uma forma de manter a chama acesa, para outras, é visto como água que, quanto mais se deita, mais o fogo corre o risco de se apagar de vez.

O problema é quando essas visões diferentes pertencem a duas pessoas que estão a tentar levar a bom porto uma relação, já ela, assente em bases muito frágeis.

Como conjugar estes dois entendimentos, totalmente opostos, num propósito comum?

Como agir, sem se estar limitado ou condicionado nos movimentos, pela outra parte?

Como equilibrar, de forma a que a outra parte não tenha o sentimento de que o seu espaço individual não está a ser respeitado?

Como distinguir a linha que separa a rotina que conforta e aconchega, da que sufoca e desgasta? 

Tentar encher um copo que já está cheio

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Quando um copo está vazio, pode ir ser enchido com o que se quiser, e na quantidade que se entender.

Ainda que ele fique cheio se, volta e meia, for esvaziado, ou for perdendo algum do seu conteúdo, há sempre espaço para levar mais qualquer coisa.

O problema, é tentar encher um copo que já está cheio. Aí, não adianta porque, o que quer que se lá queira colocar, não vai ficar.

O copo não leva mais, e começa a deitar para fora.

Por menor que seja a quantidade do que se lá quer pôr, ou por melhor que seja a qualidade, comparativamente ao que lá estava antes, primeiro há que esvaziar, arranjar espaço, ou não servirá de nada.

Vai-se continuar, inutilmente, a tentar deitar lá para dentro, e vai tudo transbordar, sem que nada fique.

Quando "a folha" está demasiado riscada...

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Por vezes, a folha está riscada demais para que consigamos escrever o que quer que seja nela.

Já tantas vezes foi escrita, riscada, reescrita, aproveitando-se o que ainda ia sobrando em branco, que chega a um ponto em que já não dá para muito mais.

Já tantas vezes foi usada, dobrada, amachucada, desdobrada, alisada, que está demasiado marcada, e velha, para que a escrita ainda saia como se desejaria.

Deixa-se de perceber o que quer que nela estivesse.

Deixa-se de ter vontade de ainda aproveitar qualquer espaço, por mais pequeno que seja, porque se sabe que não dará para escrever muito.

Já serviu, um dia. Foi desenrascando. Mas, agora, não tem salvação.

 

Escrever numa folha nova?

Em branco?

Começar do início?

Seria o ideal.

Mas já não há força, nem vontade, para escrever uma nova história.

Até porque, o mais certo, seria acontecer o mesmo à nova folha.

 

Por isso, vai-se mantendo a velha.

Aquela que já conhecemos. A que já estamos habituados.

Mesmo que já só se guarde de recordação.

Que já não dê para acrescentar nada de novo.

Que já não tenha solução...