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Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta - O meu canto

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Histórias Soltas #16: Por detrás da lente

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Tal como no fim-de-semana, que ela não conseguiu aproveitar, o sol tinha vindo dar um ar da sua graça naquela segunda-feira.

E como ela gostava destes dias de primavera, logo após a tradicional mudança da hora, em que ainda era dia, quando saía do trabalho, e podia aproveitar para tirar algumas fotografias.

Apesar de trabalhar, há vários anos, como administrativa, Mariana tinha vindo a descobrir, ao longo desse tempo, algumas actividades que lhe davam prazer, e a fotografia era uma delas.

Nada de profissional, ou muito aprimorado. Até porque nunca tinha, sequer, tirado um curso para aprender essa arte. Para saber como captar o melhor ângulo, como obter a melhor imagem, o que evitar ou coisas do género.

E tão pouco tinha equipamento à altura para tal. Por norma, servia-se da velhinha máquina fotográfica digital, ou do smartphone, que lhe tinham oferecido no seu aniversário.

O que ela gostava de captar as imagens, e os momentos, na hora, fazendo-o normalmente, nas suas deslocações para o trabalho, ou de volta a casa.

Ou, mais esporadicamente, nos seus passeios ou caminhadas ao fim de semana, em locais onde predominasse a natureza, que era o que mais gostava de fotografar.

Ela gostava da espontaneidade, da simplicidade das fotos. Não queria que algo que fosse demasiado editado ou modificado, de forma a parecer mais perfeito.

Se saísse bem e gostasse do resultado, melhor. Senão, apagava, sem stress.

Naquele dia, Mariana lembrou-se de ir espreitar um sítio, do qual já lhe tinham falado, não muito longe de casa. Como foi uma decisão do momento, só tinha o smartphone consigo. Teria que servir.

E lá estava o portão de acesso ao parque, e o caminho de terra que descia até à parte mais isolada do mesmo, junto ao rio. 

Fotografou as flores que foi encontrando, as árvores imponentes que a rodeavam, os arbustos que iam aparecendo pelo caminho.

Continuou pela margem do rio, captando a água límpida, as pedras que emergiam do leito, algumas folhas caídas que nele viajavam, levadas por uma leve corrente.

Atravessando algumas dessas pedras, que quase faziam de ponte, conseguiu chegar a um ponto mais alto, de onde podia avistar uma parte mais escondida do parque, quase selvagem.

Noutro dia, com mais tempo, teria que ir até lá. Mas estava a ficar tarde, e teria que se contentar em tentar tirar algumas fotos dali mesmo. 

Tirou algumas. Tentou ver como tinham ficado, mas o sol a reflectir no ecrã não a deixou ver bem. Tentou mais algumas. Acabou por perceber que, sem querer, tinha ligado o flash. Maldito telemóvel.

Há mais de um ano que o tinha, e ainda não tinha atinado completamente com ele.

Estava tão focada no seu trabalho, que nem deu por uma outra mulher se aproximar, cumprimentando-a.

- Boa tarde! - disse a mulher

- Boa tarde! - respondeu Mariana, reparando que a mesma também andava por ali a fotografar.

A mulher, vendo Mariana às voltas com o telemóvel, perguntou-lhe se precisava de ajuda.

- Agradeço-lhe, mas acho que já consegui desligar o flash.

- Conseguiu tirar boas fotos?

- Se quer que lhe diga, em relação às últimas, não faço ideia. Espero que sim. Mas em casa vejo melhor. Estava só a tentar apanhar aquela zona lá mais ao fundo, mas está difícil. - disse Mariana.

- Posso tentar, se quiser.

Talvez aquela mulher tivesse mais experiência, pensou Mariana.

- Por que não? Aqui tem. - disse, passando-lhe o telemóvel para a mão.

Segundos depois, a mulher caiu inanimada no chão.

E Mariana, nem teve tempo para perceber o que tinha acontecido, porque, de repente, começou a ver tudo escuro e, também ela, apagou.

 

Histórias Soltas #15: Dias bons, dias maus

Autocolantes de ciência sol e nuvens - TenStickers

 

O despertador tocou.

Uma vez. Outra vez.

Mecanicamente, Sara desligou o alarme de cada vez que ele soou.

Agora, já não tocaria mais.

Sabia que tinha que se levantar, mas não queria arriscar sair da cama, e enfrentar outro dia como o anterior.

Sara tinha dias bons, e dias maus.

O dia anterior tinha sido um desses dias maus, em que a dor de cabeça a tinha atirado para a cama, para um quarto escuro, e para o silêncio.

Silêncio relativo, já que se ouvia os filhos dos vizinhos na rua a gritar enquanto brincavam e, só mais ao final do dia, o som lá de fora se limitou ao canto dos pássaros.

Ainda tinha tentado levantar-se, e fazer alguma coisa em casa mas, poucos minutos depois de estar de pé, as dores voltavam com o dobro da intensidade, e a indisposição não lhe permitia continuar a insistir.

Nestes dias, em que Sara resistia, heroica ou estupidamente, a tomar um comprimido que fosse para aliviar as malditas enxaquecas, a solução era mesmo deitar-se, e esperar que no dia seguinte as dores tivessem passado, e ela pudesse voltar aos dias bons.

No entanto, as crises tinham começado a tornar-se mais prolongadas, mais fortes, e ultimamente, o dia seguinte era apenas sinónimo de uma melhoria, não de restabelecimento total.

A culpa era sua, bem sabia.

Sara já conhecia bem os gatilhos que despoletavam as crises e, por isso, sabia bem que deveria evitá-los o mais possível.

Sabia que deveria evitar locais demasiado movimentados, abafados e barulhentos, como os centros comerciais, por exemplo.

Que não deveria deitar-se muito tarde, ou dormir até tarde.

Que não deveria ver televisão durante várias horas.

Que o sol intenso, a luminosidade excessiva ou odores fortes poderiam ser o suficiente para a deixar mal.

Ela sabia tudo isso. Mas há coisas que nem sempre dá para evitar.

E que nem sempre ela queria evitar.

Depois, restava-lhe aceitar o “castigo”, que se vinha a tornar mais penoso.

Ela, que nunca tinha sido mulher de beber cafés, até esse truque tentava, sem efeito.

Desta vez, ponderou mesmo tomar um comprimido para atenuar as dores.

Mas a noite chegou, conseguiu dormir e, agora, era um novo dia.

Com pouca vontade, levantou-se.

Aparentemente, estava bem. As dores tinham passado. A indisposição também.

Parece que, afinal, seria um bom dia.

Ou assim o esperava Sara…

Histórias Soltas #14: Desaparecida

O VAZIO¨ ¨¨

 

Desapareceu…

Naquele final de dia, que já era início de noite…

Ninguém viu.

Ninguém a viu. Ninguém a ouviu.

Era só mais um final de dia, igual a todos os outros. A caminhar pelas mesmas ruas de sempre.

E lá estavam eles, os gatinhos, como sempre.

À espera de compaixão. À espera de uma refeição.

Estava escuro, e não queria ter que lá voltar mas… Eles chamavam por ela. Eles precisavam dela.

 

Foi a casa, pegou na ração, e saiu.

Deveria ter levado o telemóvel, mas… Eram só alguns metros, no mesmo caminho de sempre.

Por vezes, pensava que, ao fazer aquilo todos os dias, já lhe conheceriam a rotina, e saberiam os seus passos mas, quem lhe quereria fazer mal?

Chegou lá, e não havia gatinhos. Mas, muitas vezes, acontecia isso. Eles iam embora, e voltavam depois.

Hesitou em entrar naquele pátio. Mas era onde estavam as caixinhas para colocar a comida, e a água para lhes colocar nos recipientes.

Tratou de tudo.

 

Estava escuro.

Era um edifício abandonado. Onde, por vezes, se abrigavam drogados, delinquentes.

Numa rua onde poucos carros passavam. E, menos ainda, pessoas.

E dizia-se que o edifício estaria assombrado. Ou que vivia lá um velho, que matava toda a gente que lá entrasse. Mas eram só lendas… Mitos…

 

Em casa, esperavam por ela.

Mas nunca chegou.

Nem nesse dia, nem nos seguintes.

Desde aquele final de dia, que já era início de noite, tinha sido dada como desaparecida…

Histórias soltas #12

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"Já todos partiram.
Estamos sós, tu e eu.
Não me quis aproximar quando estavam aqui todos, porque não saberia que lugar ocupar, o que dizer, explicar quem sou, ou como nos conhecemos.
Por isso, mantive-me à distância.
Não o suficiente para me impedir de ver o teu corpo ser baixado, e de correrem lágrimas sem fim pela minha face, nesta despedida que nunca esperei que acontecesse novamente sem termos, pelo menos desta vez, esclarecido tudo entre nós, e te ter revelado os meus verdadeiros sentimentos.
Se ao menos uma destas lágrimas te trouxesse de volta à vida… Mas não… Tu estás cada vez mais longe, não podes voltar. Ou não queres voltar… Não te condeno…
Quem me dera que tudo isto não passasse de um pesadelo. Como nos filmes, em que nos levam a ver como será o nosso futuro, se não mudarmos as nossas ações no presente, e nos dão uma nova oportunidade para mudar o curso da história, e sermos felizes.
Mas isto não é uma história, não é um filme. É a vida real. E nada poderá fazer-me voltar atrás no tempo, e dizer-te tudo o que queria ter dito há muitos anos atrás, e até mesmo agora, que te tinha reencontrado.
Posso dizer-te, mas já não estarás cá para me ouvir. E de nada adiantará, para nenhum de nós. A não ser para tentar aliviar a dor que sinto dentro do peito, por ter perdido a única pessoa que amei em toda a minha vida, sem que ela nunca tivesse sabido disso.
O que será de mim agora? O que ainda sobra de mim? São tantos os pedaços quebrados em que me transformei, que não sei se algum dia poderão voltar a ser colados.
Deixei que tudo aquilo que tínhamos construído fosse morrendo dia após dia, mês após mês, ano após ano, sem nunca fazer o que quer que fosse para o salvar. Agora é tarde demais…
Hoje é véspera de Natal… E este, o presente que me foi destinado…"
 
 
Mais um excerto que será incluído no livro "Nas Tuas Mãos"

Histórias soltas #11

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- Deve o passado ficar no passado?

- Eu diria que sim. Se é passado, para quê pensar nele?

- E se esse passado não for assim tão passado, e se repetir no presente?

- É isso que está a acontecer?

- Não sei…

- Então porque colocas essa hipótese?

- Sinais. Por vezes, recebo sinais.

- Sinais?

- Sim. Sabes quando duas coisas não fazem sentido, isoladamente, mas começam a fazer quando as juntamos?

- Como se fosse um puzzle?

- Sim. O problema é que só tenho duas peças, uma do passado, outra do presente. Não são suficientes para chegar a uma conclusão.

- Existe alguma forma de saberes a verdade?

- Duvido. Mesmo que confrontasse a pessoa em causa, ela poderia mentir-me, e eu continuaria na dúvida.

- Mas gostavas de saber a verdade?

- Gostar, gostava. Mas, ao mesmo tempo, tenho receio do que ela possa revelar, e de como possa afectar o presente.

- Achas que iria afectar o teu presente?

- Da minha parte, penso que não. A não ser que o que julgo ser passado seja, afinal, presente.

- Mas não tens forma de o saber.

- Não…

 - Se é assim tão importante para ti, o que tens a fazer é confrontar a pessoa, e ouvir o que ela tem a dizer.

- E se isso destruir o que temos?

- É um risco que terás que correr. O preço da verdade, da desconfiança, da dúvida e da certeza. Mas podes, em alternativa, empurrar tudo de volta para o passado.

- E conseguirei viver nesta eterna dúvida?

- Se for essa a tua decisão, terás que pôr as dúvidas para trás das costas, e seguir em frente, ou não conseguirás viver plenamente a tua vida.