Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Histórias Soltas #22: Mistura explosiva!

Sem Título.jpg 

 

Isto de deitar tarde, levantar várias vezes durante a madrugada, e acordar cedo, não dá bom resultado.

Mas, que fazer?

Era sábado.

O filme prometia. Ficaram a ver. E o tempo passou.

 

Depois, a gata, que já tinha passado o dia a dormir, lembrou-se de chamar às 2h, às 5h, às 9h.

Assim, era difícil dormir alguma coisa de jeito.

E acabou por se levantar.

Mais um dia do fim de semana a madrugar por conta das gatas. Como se não bastassem os dias de semana, para ir trabalhar.

 

Claro que a dor de cabeça tardou, mas não falhou.

Ao final da tarde, já não aguentava a dor.

Bebeu um café. Forte.

Como não era hábito, podia ser que fizesse efeito.

Deitou-se. 

Uma hora depois, continuava na mesma.

Qualquer movimento, mínimo que fosse, relembrava a dor intensa, as naúseas.

 

Normalmente, a enxaqueca passa no dia seguinte. 

Mas não seria o caso.

Porque o dia seguinte era dia de ida ao hospital. Dia de confusão, de espera, de máscara na cara e, por tudo isso, dia de dor de cabeça.

Com esse pensamento decidiu-se, pela primeira vez desde que começou a sofrer de enxaquecas, a tomar um comprimido que lhe aliviasse a dor. Um paracetamol 1000g que, não sabe bem a que propósito, tinha lá por casa.

 

Ao fim de algum tempo, notou uma melhoria.

Ainda lhe custava comer.

Ainda deambulava pela casa a fazer as coisas sem luz.

Mas sentia-se um pouco melhor.

 

Assim que se despachou, deitou-se.

Não que tivesse muito sono, mas sabia bem estar com o corpo deitado, e com a cabeça na almofada.

O que não sabia, era que lhe esperava "o inferno"!

Mesmo sem febre, sentia um calor fora do normal.

Mesmo de t-shirt, parecia ter os cobertores todos em cima.

E as náuseas não ajudavam.

 

No dia seguinte, bem melhor, e tendo conseguido, apesar de tudo, dormir bem, foi investigar a causa dos "calores".

Pois... É um dos efeitos secundários dos comprimidos.

E o café também é propício a aumentar a temperatura corporal.

É caso para dizer que foi uma mistura explosiva!

 

 

 

Histórias Soltas #21: A espera

20220612_123700.jpg 

 

Ali estava...

Era um dia quente. Quente demais.

Apesar de se manter ali na sombra, depressa o edifício deixaria de tapar o sol, que já espreitava.

E, depois, não teria como se proteger.

Já sentia os raios em cima de si. A escaldarem-lhe o corpo.

Mas não podia fugir.

 

Olhar para o edifício ajudava a dar a sensação de frescura, por ser escuro, ao contrário do céu, que parecia irradiar ainda mais calor.

No entanto, piorava a sua vertigem. 

Estar cá em baixo, a olhar para um edifício como aquele, alto e imponente, mesmo à sua frente, era uma sensação estranha. 

Claustrofóbica.

 

Como queria estar no meio de uma floresta, numa cascata, numa lagoa qualquer, no meio da natureza.

Mas da natureza, a única coisa que avistava era os pássaros que, indiferentes ao calor, faziam a sua dança, e as suas corridas pelo ar.

 

Olhava para o relógio.

Ainda nada.

A espera adivinhava-se longa.

Mas não havia nada que pudesse fazer.

A não ser, esperar...

 

 

 

 

 

Histórias Soltas #20: Estagnar, ou seguir em frente?

Descubre-el-sentido-de-tu-vida.jpg

 

- O que vai acontecer comigo?

- Vais seguir o teu caminho.

- Mas... E eles?

- Eles?

- A minha família. Posso vê-los?

- Porque queres vê-los?

- Porque sei que estão a sofrer. Quero olhar para eles, despedir-me, dizer que estou aqui.

- Isso de nada adiantaria. Não te podem ver. Não te ouvem. Não te sentem. Não lhes servirás de consolo. E será pior para ti.

- Mas... Não é possível abrir uma excepção? Uma única vez?

- Neste momento, não. Terás que seguir em frente para aperfeiçoar a tua aprendizagem. Só depois, então, saberás o que te é possível. Mas, se fizeres muita questão, podemos dar-te, temporariamente, acesso às imagens que tanto desejas, em tempo real.  Este acesso tem uma duração limitada. Depois, terás que deixar a tua vida passada, para iniciares a tua vida presente.

 

- O que acontece se eu não quiser avançar, deixar para trás?

- Ficarás, para sempre, presa neste limbo. Não voltarás à vida antiga, mas também não terás uma nova. Ficarás, eternamente, estagnada. E perdes qualquer possibilidade que seja, de um contacto futuro, com quem quer que seja. Tal como outros, que assim o quiseram. 

- Então, o que me estás a dizer é que, para eu ter a mínima hipótese de voltar a ver os que mais amo, de comunicar com eles e, quem sabe, ser vista por eles, ainda que sem qualquer garantia, terei que abdicar deles daqui em diante.

- De forma resumida, sim. É isso.

- Mas é tão injusto. Eles estão tristes. Eu estou triste. Eles precisam de mim. Eu preciso deles.

- De momento, sim. Mas depressa vão ultrapassar. E tu deves fazer o mesmo. Libertá-los. E libertares-te. Quanto mais depressa te libertares, mais cedo iniciarás o teu processo evolutivo. A decisão é tua. 

 

- E, aqui, há alguma hipótese de nos encontrarmos, um dia? Irei, pelo menos, encontrar quem veio antes de mim?

- Talvez sim... Talvez não... Aqui cada um tem o seu próprio caminho e aprendizagem. Pode, ou não, cruzar-se com quem gostaria.

- Ou seja, não há forma de saber o que me espera!

- Não. Só saberás à medida que avançares. Se assim o decidires. Quando estiveres pronta, virei para te acompanhar.

- E se eu não estiver pronta? Se nunca estiver pronta?

- Então, não voltarei. Ficarás entregue a ti própria.

 

E assim ficou, até ao último momento, sem saber o que fazer, demasiado agarrada ao que tinha perdido, para tentar pensar no que poderia vir a ganhar. Mas... 

Não perderia ainda mais, se ali permanecesse?

Não valeria a pena tentar? 

Então, rendida, como quem solta, e deixa voar, aquilo que, até então, tentava agarrar, ela soube o que tinha que fazer...

 

 

 

 

 

 

Histórias Soltas #19: Perdidos no espaço

Como funciona o lançamento de um foguete - Brasil Escola

 

Se há muita gente que gostaria de fazer parte de uma tripulação, enviada numa nave espacial, para descobrir mais sobre o universo, outras há que preferem ter os pés bem assentes na Terra!

Mas, claro, fica sempre aquela curiosidade...

Foi essa curiosidade que levou a que se criasse uma espécie de simulador avançado que recria, de forma muito aproximada à realidade, uma viagem espacial, desde o lançamento do foguetão, até à sua estabilização, para lá da Terra, em pleno espaço, e o respectivo regresso ao nosso planeta.

Era a mais recente atracção a nível de realidade virtual, e das mais procuradas, naquele momento.

E era para lá que se dirigia aquele grupo de amigos que, sem marcação, arriscou ir na mesma, esperando poder viver a experiência de que tanto ouvira falar.

 

A atracção situava-se junto à agência espacial, para imitar o mais possível um ambiente real.

À chegada, tiveram que esperar para ver se haveria alguma hipótese de entrar, uma vez que tinham decidido em cima da hora.

 

Enquanto isso, numa outra sala...

- O que te parece?

- Agora? 

- Porque não? Temos tudo preparado. Eles querem. E nós podemos fazê-lo.

- Sim... Parece um bom grupo. Ok. Avança, então. Mas dá-lhes o treino prévio. 

 

De volta à recepção...

- Podem entrar. Como não têm marcação, vão fazer a experiência no nosso simulador extra, que fica do outro lado. O meu colega já vos vem trazer os fatos, e dar todas as indicações.

 

E, assim, devidamente equipados, dali a meia hora, lá estavam eles, animados e ansiosos, a bordo da nave espacial, prestes a viver uma experiência inesquecível.

A adrenalina começou assim que ouviram a contagem decrescente, e sentiram o impacto dos propulsores a impelir o foguetão.

De repente, já não estremeciam. Já não sentiam a velocidade. Estavam em órbita. A vista, quando se atreveram a olhar para fora, provocava-lhes uma certa claustrofobia mas, ao mesmo tempo, era de cortar a respiração.

O técnico que lhes deu o treino tinha dito que iriam andar por ali cerca de uma hora, antes de regressarem, pelo que aproveitaram ao máximo para apreciar o que iam vendo.

Não tinham, propriamente, uma noção do tempo. Todos os seus pertences, incluindo relógios e telemóveis, tinham ficado guardados num cacifo.

Mas, a determinada altura, começou-lhes a parecer que já estaria na hora de voltar. Só que não havia sinais de que isso fosse acontecer.

Um dos amigos lembrou-se de accionar os comandos de comunicações, que lhes tinham sido indicados, e tentar perceber o que se passava.

 

Foi, então, que ouviram a voz daquilo que lhes parecia um assistente virtual:

"Bem vindos a bordo da Futurex! Daqui a 260 dias chegaremos a Marte, completando a missão que teve início hoje! Em que vos posso ser útil?"

- Estão a brincar, certo?

- Isto ainda faz parte da experiência, de certeza!

- Podes levar-nos de volta? - perguntou, um deles, ao assistente.

- A programação só permite o retorno daqui a 300 dias.

- E como se reprograma? - voltou a perguntar.

- Não é possível reprogramar sem os códigos de acesso.

- E quem tem esses códigos?

- O centro operacional, de onde acabámos de partir.

- Como podemos comunicar com o centro de controlo?

- A nave só permite recepção de comunicações, não o envio. 

- E não há outra forma de contornar a questão dos códigos?

- Sim, pode-se fazer reprogramação manual. Mas, aí, o centro operacional deixa de ter controlo, e estão por vossa conta.

E a comunicação desligou automaticamente. Estavam entregues a si próprios. Se o arrependimento matasse...

 

Uma semana depois, na Terra, passava na televisão:

"Continuam desaparecidos quatro jovens, entre os 20 e os 25 anos, sem ter deixado qualquer rasto. Foram vistos, pela última vez, nesta estrada, mas até agora não foi possível encontrar o veículo, nem qualquer outra pista...." 

 

 

E agora, que final decidiriam para esta história?

1 - Seria mesmo uma experiência da agência espacial, que utilizou os jovens como cobaias, tal como já tinha feito outras vezes.

2 - Tudo aquilo faria ainda parte da experiência virtual, e acabaram por perceber isso dali a poucos minutos.

3 - Não passou tudo de um pesadelo!

Histórias Soltas #18: Prenúncio...

IMG_20210513_131732cópia.jpg

 

Precisava de sair.

Apanhar ar. 

Dentro de casa, sentia-se a sufocar. Sabia que não podia continuar ali.

Não estava frio. Nem calor.

Ainda não chovia.

 

Saiu sem pressa.

Estar na rua sabia-lhe bem.

O vento no rosto sabia-lhe, ao contrário de outras vezes, muito bem.

Por companhia, o campo.

Arbustos que se unem no topo e formam uma espécie de gruta.

Troncos vestidos de verde.

Muros coloridos das flores que nascem por entre eles, ou que caem sobre eles.

E flores... Muitas flores... Brancas, amarelas, roxas, cor de rosa, e tantas outras. Ora misturadas. Ora separadas.

À medida que ia seguindo o seu caminho, melhor se sentia, por entre os campos verdes e castanhos, num dia que não se sabia bem se era de outono, ou de primavera, tais os contrastes com os quais se deparava na natureza.

 

Então, começou a chover.

Uma chuva miudinha.

Mas não se importou. Nem apressou o passo.

Até a chuva, nesse dia, lhe estava a saber bem. Como se aquelas gotas fossem, de certa forma, terapêuticas. E tivessem o poder de lavar o corpo e a mente.

Seria o céu a chorar, pelos que estavam em terra?

Para os aliviar? Para se solidarizar com estes?

Certo era que as "lágrimas" que caíam ficavam marcadas nas folhas verdes, como o orvalho que costuma cair de madrugada.

 

Colocou o gorro, e continuou.

Não havia quase ninguém na rua. 

Apenas um atleta passou por si.

Nem sequer os cães andavam a passear os donos. Nem estes, os cães.

Era perto da hora de almoço. Mas parecia manhã cedo. Quando ainda todos estavam a dormir. Ou com preguiça de sair.

Afinal, era feriado.

 

Duas horas se passaram.

Estava na hora de voltar. 

Abriu a porta, e entrou.

Lá dentro, os semblantes carregados prenunciavam aquilo que mais temia.

Bastou um olhar para perceber, naquele momento em que acabava de chegar, que alguém tinha partido, para não mais voltar...