Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Esta noite o céu brilhará um pouco mais

1000023612.jpg 

 

"Perder um pilar abana um pouco a estrutura. Mas mantém-se de pé.

Quando se perde os dois, a estrutura desmorona por completo."

 

O meu pai conseguiu, por duas vezes, surpreender-me.

Recuperar, quando eu acreditava que se estava a deixar ir.

Não sei se lutava por ele, se por nós.

Se se mantinha vivo porque ainda queria viver. Ou se por saber que estávamos a fazer de tudo para que vivesse.

 

Mas a vida é efémera.

Já sabemos disso.

E, quando o que separa a vida, da morte, é o sofrimento, e a dor; quando se passa a viver numa realidade à parte; quando apenas se existe; então, desistir é o melhor a fazer.

 

O meu pai já viveu tudo o que tinha a viver.

Já só queria que a morte o levasse. 

Quem sabe, para junto da mulher.

 

Em duas semanas, tudo mudou.

De repente, o meu pai deu lugar a um "vegetal", alguém que já não conseguia falar o que quer que fosse, alimentado por uma sonda, drogado e preso a uma cama de hospital.

Aí, percebemos... 

E, embora já estivessemos mentalizados, nunca pensámos que a notícia chegaria tão cedo.

 

Não me cheguei a despedir.

Mas recordo o último momento que passei com ele. Escassos minutos em que comeu aquilo que mais gostava: uma fatia de bolo!

Um último esforço, por mim.

Antes de ser levado para o hospital.

Ainda consciente. E ciente.

 

O meu irmão, não teve a mesma sorte.

Foi visitá-lo ontem, e viu um outro pai.

Um pai que estava a horas da morte. Ainda que não o soubesse.

 

O meu pai acreditava em Deus.

Então, quero acreditar que Deus lhe fez a vontade, e o levou, na hora certa.

Evitando passar por tudo aquilo que ele não queria, e dar trabalho e preocupações a quem ele não queria.

 

O meu pai era um ser humano extraordinário (mas eu sou suspeita)!

Um pai sempre presente.

Com quem aprendi muito do que hoje sei. E me fez o que hoje sou.

Com quem vivi imensas aventuras.

Generoso. Desprendido do que não tinha valor.

 

Influenciou-me de várias formas, e uma delas foi a escrita.

Então, não poderia homenageá-lo de outra forma.

E porque ele adorava fazer as suas reflexões, a observar o mar, esta será, talvez, a imagem que mais espelha a sua despedida deste mundo, antes de ascender a um qualquer outro plano, que lhe esteja reservado.

 

Até sempre, pai!

 

 

 

Memorial em homenagem “aos presos e perseguidos políticos do concelho de Mafra"

20240426_085503.jpg 

 

Há várias semanas que isto andava a ser "cozinhado", mas só há poucos dias se conseguiu ver o que ia sair dali.

Um memorial em homenagem “aos presos e perseguidos políticos do concelho de Mafra que, na longa noite fascista, resistiram e lutaram pela Liberdade e pela Democracia”.

A obra pretende expressar a luta levada a cabo para derrubar as grades das cadeias do fascismo, sobre as quais se eleva o cravo vermelho.

A autoria é do escultor mafrense José Eduardo, e pode ser visto no Largo Coronel Brito Gorjão, em Mafra.

 

 

20240426_085422.jpg

20240426_085516.jpg

20240426_085438.jpg

 

Pessoalmente, com todo o respeito pelo simbolismo da obra, e pelo autor da mesma, não gostei.

Pode ser que, com o tempo, passe do estranhar, ao entranhar.

 

 

"Ilha das Memórias", de Nora Roberts

500x.jpg 

 

Numa noite como outra qualquer, num centro comercial como outro qualquer, o inesperado aconteceu: um massacre, levado a cabo por três adolescentes armados, que começaram a disparar sem parar matando, um a um, todos os que ali tinham ido, por um qualquer motivo, sem sonhar com o destino que os esperava.

 

Mas nem tudo correu bem.

Alguém chamou a polícia.

Alguém ajudou a salvar vidas.

 

Pessoas escaparam.

Pessoas que, de uma forma ou de outra, sobreviveram para contar a história.

Pessoas que, de uma forma ou de outra, se destacaram.

Ganharam protagonismo. Superaram o trauma. E seguiram com a sua vida.

 

Enquanto isso, os causadores de tudo isso, morreram.

Um, abatido pela polícia. Os outros dois, honrando o pacto firmado, mataram-se um ao outro.

Seria de supor que o assunto, apesar das mazelas causadas, estaria encerrado.

 

Não está.

Cedo ficamos a saber quem, realmente, planeou o ataque, e quais são os seus planos para aqueles que, de alguma forma, se meteram no seu caminho, e sobreviveram.

Entre eles, Simone Knox, a primeira pessoa a ligar para a emergência.

Reed Quartermain, um jovem que se tornou polícia e vai fazer de tudo para deter a nova ameaça.

Essie McVee, a agente da polícia que assassinou o seu irmão.

E tantas outras pessoas... Tantos novos alvos a eliminar.

 

Há uma razão. Ou, talvez, várias. 

Quase sempre giram à volta do mesmo.

E nunca são justificação suficiente para tais actos.

Mas o cérebro por detrás deste novo massacre tem tudo delineado, justificado, e não vai parar.

Sem que alguém consiga travar, mas a começar a dar sinais de que começa a perder o controlo, a questão não é se vai voltar a matar, mas quando, onde, e quem será a próxima vítima.

 

Este é um livro que fala sobre superação.

Como superar o trauma de ser baleado, e ficar limitado. Ficar com marcas físicas, e psicológicas.

De ver pessoas a morrer, ou já mortas, à nossa frente, ao nosso lado, em cima de nós.

Como diferentes pessoas, lidam de formas tão diferentes mas, no fundo, sentem uma dor semelhante.

E, no meio de tudo isto, como amizades se constroem. Ou se firmam.

Como famílias se atacam, e se afastam. Ou permanecem unidas.

Como cada um se vai descobrindo a si próprio, e ao seu propósito na vida. 

Como se vai abrindo para as novas oportunidades, para um novo futuro.

Ou como vai ficando preso naquele mesmo dia, naquela mágoa, sem conseguir ultrapassar, e voltar a viver, ainda que vivo.

 

Porque a verdade é que muitas pessoas morreram.

Pais, filhos, amigos...

Há muito a lamentar, sem dúvida.

Mas tantas outras sobreviveram.

E cabe a essas fazer a vida, e o simples facto de estar vivas, valer a pena.

Por si, e por todos os que não tiveram a mesma chance.

E por quem acha que vai conseguir destrui-las, mais cedo ou mais tarde, e acabar o que ficou inacabado. 

 

O que menos gostei do livro, para além de se saber logo que vai ser o assassino de serviço, foi o facto de o dito cujo conseguir matar uma pessoa atrás da outra, e safar-se sempre, sem que consigam sequer chegar perto, gozando com a polícia e com todos à sua volta.

E depois, perante isso, o fim acaba por ser fácil e rápido demais.

 

Vale ainda a pena pelo Barney, o cão que sofreu de maus tratos e vai ser acolhido pelo chefe da polícia, aprendendo a voltar a confiar nos humanos, socializando, e tornando-se os melhores amigos.

Memórias de Uma Eterna Guerreira

Marta Segão - MEMORIAS DE UMA ETERNA GUERREIRA_ca

 

A ideia ganhou forma, e concretizou-se!
Este é o livro de homenagem à minha mãe.
 
E até a capa tem um significado.
Tenho a foto desta gaivota há muito tempo e, quando a vi, achei que era perfeita.
Sim, é uma capa muito cinzenta, mas representa, de certa forma, a tristeza da partida, o luto.
 
Depois, na contracapa, um cenário mais animador: um céu azul e branco, que representa a bonança, depois da tempestade.
A esperança.
O seguir em frente.
 
Não é o fim.
Mas um recomeço.
Para ela, onde quer que esteja.
E para nós, que ficámos.
 
 
 

Marcador 50x195 MEMÓRIAS DE UMA ETERNA GUERREIRA.

 

E os marcadores foram uma pequena extravagância da minha parte!

 

 

Mais uma edição de autor, com o apoio da Euedito.

 

Quando recebemos a notícia de que a nossa mãe partiu

É curioso que, tendo já escrito tantas homenagens, não me saiam agora palavras para falar da minha mãe.

Talvez porque tudo o que eu disser será pouco. E porque aquilo que está cá dentro não caberia num só texto. Ou porque talvez seja mais difícil quando são os nossos.

 

Apesar de, nos últimos tempos, ter previsto este cenário por diversas vezes, é algo para o qual nunca estamos preparados, quando ele se confirma.

Quando acordei, esta manhã, estava confiante. Nada me preparou para o que aí vinha.

 

Um telefonema da médica, pouco depois das 9 da manhã. Pensei que fosse para me pôr ao corrente da evolução da minha mãe.

Nem quando me disse que a minha mãe tinha um quadro complicado, suspeitei. 

Nem mesmo, quando me perguntou se eu tinha mais alguém em casa. Pensei que fosse por ser necessário ir lá.

Só quando lhe perguntei o que iria ser feito, quais os passos seguintes, é que ela me informou que, infelizmente, a minha mãe tinha falecido.

Portanto, ela falou e fez-me falar, já em modo de preparação, para atenuar o choque da triste notícia.

E foi, de facto, um choque. Como, imagino, será para todos os que perdem familiares.

 

Posto isto, a principal preocupação foi como dar a notícia ao meu pai.

Porque teria que ser eu a dá-la, e não o poderia fazer no estado em que estava, para além de não saber como iria ele reagir.

 

Depois, avisar familiares, amigos e, a cada telefonema, ou mensagem, reviver as emoções, relembrar o choque, encarar e tomar consciência da realidade.

E tentar não pensar nisso, para não descambar.

Fazer piadas, ocupar com tarefas domésticas.

Momentos intercalados com lágrimas e lembranças.

Até as bichanas perceberam. A Amora veio dar-me turrinhas, como que a consolar-me.

Estava em casa apenas com a minha filha.

Não foi fácil.

 

Depois, momentos de decisões.

Autopsiar, ou não autopsiar? Para quê? De que adiantava agora  saber a causa da morte?

Calhou-me ligar para a médica, e dizer que não queríamos autópsia.

 

E, em seguida, ligar para a agência funerária, para dar início a todo o processo.

Escolher urnas.

Escolher flores.

Escolher cartões para o velório.

Escolher mensagem.

E aperceber, mais uma vez, da realidade.

É necessário. É uma homenagem. Mas quem é que tem cabeça para essas coisas num momento destes?

 

Desligar o interruptor.

Há uma filha, as gatas para tratar, o almoço para fazer.

O meu marido chegou entretanto. Tinha ido trabalhar mas, perante a situação, arranjaram alguém para o substituir.

O meu irmão viria também.

 

Afinal, ainda havia mais trâmites a tratar.

A escolha da roupa para vestir a minha mãe.

É horrível.

Sabemos que será essa a última imagem dela, e queremos dar-lhe a dignidade possível, ainda que nesta hora em que nos despedimos dela.

Mas é voltar tudo ao de cima, olhar para as coisas dela, e um milhão de pensamentos e lágrimas a misturar-se, e a deitar abaixo.

 

No entanto, é preciso levar a roupa.

Fazer compras.

Limpar a casa.

Desligar o interruptor, e tentar distrair-me é o melhor remédio.

E, se possível, tentar que não toquem no assunto.

 

A esta altura, final do dia D, em que a minha mãe completa 79 anos e meio, e nos deixa para sempre, já nem sei bem o que sinto. 

Mas sei que o pior ainda está por vir.

Amanhã.

 

Por mim, seria uma despedida rápida, só para nós, e acabava.

Mas sabemos que as pessoas querem dar apoio. Que também se querem despedir. Mesmo que cada palavra, dita com a melhor intenção e sentida, nos faça mais mal que bem. Que seja como um escarafunchar numa ferida que está em carne viva, e que assim não sara.

E, por muito que saiba que vai ser duro olhar para a minha mãe, ou para o que restou dela, sei que quero olhá-la uma última vez.

 

Não sou dada a religião, mas a minha mãe era católica e, por isso, pedi serviço religioso.

Que, também ele, vai ser duro. Faz parte. E se não aguentar, é sinónimo que sou humana.

 

E, por fim, o encerrar de tudo.

O momento em que percebemos, definitivamente, que é real, que não a veremos mais. Que, a partir dali, estará debaixo de terra.

Que, ao menos, o seu espírito encontre uma moradia melhor.

 

A nós, restam-nos dias duros, de mais burocracias que, também elas, são necessárias, e a esperança de que o tempo atenue a dor e o sofrimento dos que cá ficam, com a certeza de que a minha mãe, que partiu, já não sofre mais.

É a lei da vida. Calha a todos. Uns mais cedo. Outros mais tarde. Mas ninguém escapa.

Ainda assim, não deixa de ser sempre pior quando nos toca a nós, e aos nossos.

É tentar agarrar ao que de bom vivemos com ela, com plena noção de que não ficou nada por fazer, dizer ou demonstrar, no tempo que que estivemos com ela.