Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

"O Poder das Pequenas Coisas", de Jodi Picoult

500x.jpg

 

Racismo.

Este é o tema central da história, inspirada num acontecimento real,  que Jodi Picoult quis abordar levando-a, porém, para um caminho e desfecho diferente.

 

Serão, as pessoas brancas, racistas por natureza?

Acredito que todos sejamos um pouco racistas. Não especificamente, os brancos em relação aos pretos, mas de uma forma geral. Muitas vezes, sem nos darmos conta. Em pequenas coisas, ou situações. Ainda que sem aquela intenção inerente de "agredir", de menosprezar, de diminuir os outros.

Todos nós podemos discriminar, ou ser discriminados, por qualquer uma das nossas características, seja ela física, cultural ou qualquer outra.

 

Serão, as pessoas brancas, privilegiadas à nascença, e ao longo de toda a sua vida, apenas pela sorte de ter nascido com esse tom de pele?

Sim, há pessoas que, mesmo não tendo feito nada para tal, acabam por ser privilegiadas por diversos motivos, como o local onde nasceram, a riqueza, o tom de pele, a religião e por aí fora.

Mais uma vez, não é um exclusivo das pessoas brancas.

 

No entanto, esta história é sobre pessoas brancas, e pessoas negras.

Sobre oportunidades, e privilégios.

Sobre aquilo que é tido por adquirido, e aquilo pelo qual se tem que lutar.

Sobre aceitação. Sobre poder de encaixe. Sobre resiliência e resignação.

Sobre ouvir, calar e perdoar.

Sobre desvalorizar, ainda que se tenha que anular.

Sobre pré julgamentos.

Sobre direitos. E deveres.

 

E, se é verdade que pessoas negras, como Ruth, estão em clara desvantagem, por conta de um sistema que aí as coloca à partida, de racistas activos, que fazem questão de mostrar o seu ódio, e de racistas passivos, que não questionam e nada fazem para mudar o sistema, também é verdade que esse "racismo" não é, de todo, unilateral.

Por outro lado, não se deve julgar o todo pela parte. E descarregar frustração, e anos de discriminação, apenas por serem negros, culpando os brancos, não deixa de ser, também, uma prática implícita de racismo.

Sim, podem não ter facilitado as coisas, podem não ter desbravado o caminho, podem ter ficado alheados ou abster-se de intervir.

Mas a culpa não recai sempre, e só, sobre uma das partes envolvidas. Sobretudo, se a outra não se impuser, não lutar, não se aceitar, não se valorizar. Se passar o tempo todo a agir como inferior. A acreditar que o seu lugar é a servir, e não a ser servido. Se passar o tempo todo a querer ser como aqueles que acusa de racismo, e a tentar encaixar-se no meio deles, em vez de mostrar o que vale, e se orgulhar da pessoa que é.

Cada vez mais as pessoas, ao querer estar um pouco em cada um dos lados, acabam por nunca estar em nenhum deles, nem pertencer verdadeiramente a nenhum deles.

 

Posto isto, e no que respeita à história em concreto, não há dúvidas de que Ruth, uma enfermeira negra com mais de vinte anos de experiência, é vítima de racismo.

Primeiro, por parte de Turk e Brit, dois brancos supremacistas que exigem que Ruth não volte a tocar no seu bebé, apenas porque é negra, sem qualquer outra queixa a nível de atendimento e trabalho enquanto enfermeira.

Depois, por parte da chefe que, atendendo ao pedido dos pais, e querendo salvaguardar o bom nome do hospital, acede ao pedido, sabendo que ela é das enfermeiras mais qualificadas e profissionais que ali trabalha.

E, por fim, quando o bebé morre, e Ruth é acusada de homicídio. Porque alguém tinha que ser sacrificado, em detrimento do hospital, e ela era o bode expiatório perfeito.

Porque, se ela cumpriu as ordens da sua superior, e não auxiliou o bebé porque a tal não estava autorizada, agiu mal e pôs em risco a vida do bebé. Ou então, ela ignorou essa ordem, prestando auxilio, e não o fez como deveria, levando à morte do bebé. 

Estes são os argumentos que vão ser levados a tribunal, para dá-la como culpada. Para além do óbvio, que os pais do bebé veem: é negra, logo, culpada.

Ruth terá que provar que tudo fez para salvar o bebé e que, o que quer que tenha feito, não o foi por vingança, ou retaliação por ter sido vítima de racismo.

 

Quando as pessoas vivem demasiado tempo oprimidas, com questões por resolver, com palavras caladas e atitudes contidas, é normal que, um dia, a coisa descambe, e elas saiam fora dos eixos.

Por vezes, é libertador. É inofensivo. E funciona, permitindo seguir em frente.

Outras, leva a caminhos mais sombrios, a violência gratuita, a culpabilização de terceiros, para evitar a autoculpabilização.

Penso que Ruth e Turk representam bem estes dois opostos.

Ruth quer soltar a voz que durante anos calou, e falar do racismo de que é vítima, acabando por mostrar um pouco do seu racismo contra os brancos, ainda que isso lhe tenha saído no calor do momento.

Já Turk e, sobretudo, Brit, mostram às claras aquilo que defendem, o seu ódio aos negros, e chegam mesmo às ameaças.

Tudo indica que, se não obtiverem justiça de uma forma, a farão por sua conta, de outra.

 

Mas, um dia, tudo pode mudar.

A vida gosta de, quando menos esperamos, mostrar a sua ironia.

A hipocrisia por detrás da inflexibilidade.

A essência por debaixo da capa

E provar que as pessoas podem mudar.

Seja para pior. Ou para melhor...

 

 

 

 

Em Troca de Um Coração, de Jodi Picoult

9789722626491_1594290164.jpg

 

Shay está no corredor da morte.

Claire, na lista de espera para transplante de coração.

Shay irá ser executado brevemente por injecção letal.

Claire, irá morrer brevemente, sem um coração novo que lhe prolongue a vida.

Shay quer doar o seu coração a Claire.

Claire prefere morrer, a aceitar "aquele" coração.

 

E o que tem a dizer June, a mãe de Claire? E de Elisabeth, a sua outra filha, que Shay assassinou a sangue frio, tal como ao seu marido?

Estará ela disposta a ignorar tudo isso, para salvar a filha que lhe resta? 

Pensará ela que é algo que ele lhe deve? Ou, pelo contrário, recusará o coração por não lhe querer satisfazer essa última vontade?

Conseguirá ela lidar com a filha, sabendo que dentro dela bate o coração de um assassino? Um assassino que lhe disse, na cara, quando ela lhe perguntou "porquê?", que "Foi melhor assim"?

Que a recordará a cada instante tudo aquilo que perdeu? Que lhe foi tirado?

 

Seja como for, a vontade de Shay não pode ser concretizada.

A injecção letal inviabiliza o coração. A não ser que...

E é, aí, que entra a advogada Maggie, disposta a tudo para arranjar uma solução para este caso, ao mesmo tempo que tenta lutar pela abolição da pena de morte.

Na verdade, não é isso que o seu, agora, cliente quer. Ele quer morrer, e doar o seu coração a Claire. Mas, se ela conseguir, de alguma forma, "tocar na ferida", talvez consiga mudar alguma coisa.

Já que não se consegue mudar, nem aceitar a si própria...

 

Depois, temos o padre Michael, que se torna conselheiro espiritual de Shay.

Michael foi, há onze anos, um dos jurados que votou a favor da pena de morte para Shay. Um dos últimos. E, em certa medida, por pressão. Para não ser o único do contra.

Será esta uma forma de se redimir perante Shay? De obter o seu perdão? De se perdoar a si próprio?

Michael é padre. Católico. Mas ainda tem muito para aprender. E para questionar.

Shay não tem religião. Mas parece saber mais sobre Deus e os seus mandamentos e vontades, que aqueles que melhor o deveriam conhecer. Só não tem respostas para as perguntas que lhe fazem, nem explicações para aquilo que ele próprio faz.

 

Será ele Jesus?

Será ele um profeta?

Ou será, apenas, um assassino?

Estará ele, agora, no fim da sua vida, a querer fazer o bem para expiar os seus pecados?

Ou ele sempre tentou fazer o bem?

 

Por vezes, a mentira pode ser a verdade. E a verdade pode ser a mentira. Ou ambas podem ser, simultaneamente, verdade e mentira. Depende do lado em que a olhamos...

Um pouco à semelhança dos palíndromos.

Se olharmos de uma perspectiva, vemos algo que, para nós, é verdade mas que, quem está do outro lado, não consegue ver dessa forma, e vice-versa.

Qual é a verdade, neste caso, e nesta história?

Seja aqui, ou em qualquer outra situação, a verdade é sempre, e só, uma. E conseguimo-la ver quando nos predispomos a isso,

Mas, de que servirá a verdade, se a decisão estiver tomada, e não houver forma de a evitar?

 

Este é um daqueles livros que, a determinado momento, pode tornar-se aborrecido para quem não é dado, como eu, a assuntos religiosos, que ocupam uma boa parte da narrativa. Ou a milagres. Ou a acontecimentos inexplicáveis que soam a fantasia a mais, numa história tão real.

Mas vale a pena chegar ao final porque é aí que se centram as maiores descobertas, e as maiores emoções. E é aí que começamos a questionar todo este mundo em, que vivemos...

 

 

 

Dezanove Minutos, de Jodi Picoult

Dezanove Minutos

 

Confesso que o início do livro foi um pouco confuso, e não me entusiasmou muito.

Muita informação "solta", muitas personagens, diversos acontecimentos, e pouca ligação entre tudo.

Mas, depois, melhora. 

E faz-nos reflectir. Muito!

 

É uma história sobre relações. 

Relações amorosas. 

Relações entre pais e filhos.

Relações de amizade.

 

É uma história sobre a realidade.

Sobre impotência.

 

É uma história sobre amizades que se desfazem.

Sobre comparações e expectativas.

Sobre escolhas.

Sobre ausências.

Sobre autopreservação.

Sobre bullying, e humilhação.

Sobre relações abusivas.

 

E dezanove minutos, o tempo que Peter levou a libertar o que foi guardando ao longo de 17 anos.

O tempo que demorou a destruir a vida de tantas pessoas, quando a sua já estava em cacos há muito tempo.

O tempo necessário para abrir os olhos, a quem sempre preferiu fechá-los. 

O tempo necessário para, finalmente, fazer-se ouvir. Vingar-se. Fazer justiça. 

E pôr fim ao sofrimento.

 

No final, resta a lembrança.

Porque, como diz Alex "Uma coisa ainda existe desde que haja alguém para a lembrar".

Uma Verdade Simples, de Jodi Picoult

Uma Verdade Simples

 

Katie é Amish.

Os Amish não são dados à violência.

Os amish não mentem.

os amish não matam...

 

Ainda assim, aparece um bebé morto no celeiro de uma família Amish.

Katie, que acabou de dar à luz, afirma com todas as letras que isso não aconteceu. Que nunca esteve grávida. Que não teve nenhum filho. Quando é óbvio que está a mentir.

E se Katie, que é Amish, mentiu, o que mais poderá ela ter feito?

 

Ellie é uma advogada que tem feito sucesso a defender criminosos. Ainda que as vítimas, injustiçadas, lhe apareçam depois no pensamento, para a atormentar.

Como ela própria diz, não se trata da verdade. Trata-se de contar a melhor história. Aquela em que o juiz ou os jurados irão acreditar, ainda que seja totalmente falsa.

E a defesa de Katie poderia ser mais um caso para o seu currículo.

 

No entanto, há uma coisa que Ellie quer ainda mais que o seu sucesso: ter filhos! E como poderá ela defender uma mãe que é acusada de matar o seu próprio filho? Alguém que, também ela, à partida, condena?

Como poderá ela defender alguém que lhe mente? Que lhe omite coisas? 

Como poderá Ellie defender alguém que não percebe que a justiça pela qual se rege a sua comunidade, não funciona da mesma forma nos tribunais?

 

Ainda assim, Ellie aceita o caso. E é obrigada a mudar-se para casa dos Fisher, contra a vontade destes, sujeitando-se ao seu modo de vida, ajudando nas tarefas, e ficando condicionada pelas imensas regras desta comunidade.

Uma comunidade onde algumas pessoas tendem a levar demasiado à risca os ensinamentos e leis, quando até os maiores responsáveis são, algumas vezes, mais permissivos em determinadas circunstâncias.

Uma comunidade de pessoas simples, que querem passar despercebidas. Onde é mais respeitável confessar os pecados, ainda que quem os confesse não os tenha cometido, do que negar e andar com desculpas.

 

Uma comunidade que parece disposta a apoiar Katie.

A jovem que esteve grávida e não contou a ninguém.

A jovem que deu à luz, e não disse a ninguém.

A jovem que traiu o seu namorado, já que este nunca poderia ser o pai do filho que espera.

A jovem que adormeceu com o seu filho nos braços, e acordou sem ele. E continuou a sua vida normal, como se nada fosse.

A jovem que teria muito a perder, se a verdade viesse à tona.

 

Mas, afinal, qual é a verdade?

A verdade, é uma verdade simples.

Que se vai descobrir no final.

Poderiam ser muitas outras. 

Mas é apenas aquela.

 

E agora, conseguirá Ellie a absolvição para Katie?

Ou será ela condenada à prisão?

 

 

Gostei desta história por ter vários ingredientes diferentes:

- o primeiro é conhecer um pouco da cultura dos Amish, e do seu modo de vida

- o segundo é uma abordagem ao estudo do Paranormal e dos ditos "fantasmas" que muitas pessoas dizem ver

- tem mistério

- tem também a parte jurídica, para quem gosta dos duelos entre acusação e defesa 

- e tem romance, como não poderia deixar de ser

 

 

"Lobo Solitário", de Jodi Picoult

Lobo Solitário

 

Um pai...

Dois filhos...

Um deles quer manter o pai vivo. O outro, nem por isso.

Duas motivações diferentes. Duas perspectivas diferentes. Duas decisões contrárias.

Nesta história, nenhuma está certa ou errada.  Ambas estão certas. E ambas estão erradas.

E as decisões que tomam, tomam-nas pelas razões certas, e pelas erradas.

Porque, quando se tomam decisões que dizem respeito a terceiros, é mais fácil pensar naquilo que nós próprios queremos, e em como as mesmas nos afectarão, do que pensar naquilo que esses terceiros desejariam, e em como eles se sentiriam.

Se deixássemos de pensar em nós, e pensássemos apenas na pessoa que é a principal visada e interessada, talvez as decisões fossem mais acertadas, e menos difíceis de tomar.

Mas o ser humano é egoísta por natureza. E é com base nesse "egoísmo", que teima em justificar as suas acções e decisões, pelo fim a que as mesmas levariam e que, para ele, é o único fim possível.

No entanto, pior ainda que agir, ou decidir, é optar por não fazê-lo, esperando que outro o faça por si.

Deixar uma qualquer decisão nas mãos de outra pessoa retira, a quem não a quer tomar, a responsabilidade e o peso que a mesma acarretaria, ao mesmo tempo que lhe concede o argumento necessário para culpar quem a tomou por si, ou em nome dos dois.

É uma atitude cobarde. Mas, tantas vezes posta, em prática...

 

Uma mãe...

Dois filhos...

Um que fugiu de casa há seis anos, sem ela saber bem porquê, e que não vê desde então. Outro que preferiu ir morar com o pai, com quem se sentia bem.

E que, agora, regressam, ao mesmo tempo, pela mesma razão, para junto da mãe. Por força das circunstâncias. Embora cada um queira voltar à sua vida o mais depressa possível.

Dois filhos que a disputam entre si. Que procuram nela uma aliada. 

Dois filhos que precisam dela mais do que nunca mas, ajudando um, estará a afastar o outro.

Como provar que ama igualmente os dois?

 

Dois irmãos...

O reencontro após seis anos de ausência, traz com ele toda a mágoa, toda a recriminação, todo o ressentimento.

Se houve um dia em que foram companheiros, e amigos, hoje que estão em lados opostos.

Um, luta pela vida, ainda que essa possa não vir a existir da forma como gostaria. Uma vida sem dignidade. sem liberdade. Uma vida de dependência. Uma vida à espera da morte.

O outro, luta pelo direito a uma morte digna. Pela satisfação de um antigo desejo formulado pelo pai. Pelo salvamento de outras pessoas que ainda possam ter esperança numa vida melhor.

Pode alguém conviver diariamente com uma pessoa e, ainda assim, perceber que, ao contrário do que pensava, não a conhece minimamente?

Pode alguém ausente, ainda assim, conhecer mais uma pessoa que não vê há anos, do que aqueles que lhe são mais próximos?

 

Uma mulher...

Uma nova família, um novo recomeço. Um novo marido. Dois novos filhos.

E, quando tudo parecia perfeito, o passado volta a bater à porta. Como dividir-se em duas? Em quatro? Em cinco? Ou, até mesmo, em seis, sem deixar de ser ela própria? 

Como agradar a uns, sem desagradar a outros?

 

E os lobos...

Esses seres tão peculiares, que nos são dados a conhecer mais profundamente nesta história.

A forma como se organizam dentro da alcateia. Como protegem a sua família.

Como se guiam pelo instinto de sobrevivência, pelo sentido de responsabilidade, pelo dever.

A forma como ensinam as suas lições, como marcam as suas posições.

Como comunicam. Como sentem. Como reagem entre si, e como interagem com os humanos.

 

 

Adorei o livro, e estas foram algumas das frases que destaco desta leitura:

“Não importa o que fazes por alguém, não importa se lhe dás o biberão em bebé, ou se te enroscas com ele à noite para o manter quente, ou se lhe dás comida para que não tenha fome… Dá um passo errado na altura errada e tornas-te irreconhecível.”

 

“Podemos tirar o homem da natureza selvagem, mas não podemos tirar a natureza selvagem do homem.”

 

“Após dois anos a viver com os lobos, tinha-me esquecido da quantidade de mentiras que é precisa para construir um relacionamento. Há uma honestidade no mundo dos lobos que é libertadora. Mas aqui, entre os humanos, havia tantas meias-verdades e mentiras inofensivas que era demasiado difícil lembrar o que era real e o que não era.”