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Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Páscoa

(1 Foto, 1 Texto #81)

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Quantas vezes não somos traídos pelas pessoas que nos eram mais próximas?

Quantas vezes não somos crucificados, e condenados, sem qualquer motivo válido?

 

Como se nos cravassem espinhos?

Ferindo. Provocando dor. Causando lágrimas.

 

Quantas vezes não nos sentimos "morrer", por dentro, pelas mais diferentes situações que enfrentamos?

Ou com as quais temos que lidar?

 

E, não obstante, quantas vezes não "ressuscitamos" depois?

Quantas vezes não nos reerguemos, e seguimos em frente?

 

Inteiros.

E mais fortalecidos.

 

 

Texto escrito para o Desafio 1 Foto, 1 Texto

Viver depois de ti

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Vou para o trabalho e continuo a ver-te, ali na rua, a fazer a tua caminhada do costume - o teu exercício matinal às pernas.

Venho do trabalho e continuas a estar lá, à janela, à minha espera, para aquele bocadinho entre dois dedos de conversa e deixar-te os comprimidos a jeito para o dia seguinte.

Nos fins de semana, à tarde, continuo a ver-te ali encostado ao muro, a apanhar sol, que te sabia pela vida. 

Partiste, mas continuas vivo na nossa mente, nos nossos corações, a fazer a tua vida, ainda que não o vejamos mais.

 

E, da mesma forma, imagino que estes dias tivessem sido, para ti, um enorme castigo, porque a chuva não te teria dado espaço para dares a tua voltinha, e terias que ficar fechado em casa, preso.

Num destes dias de chuva, chorei.

Não sei se contagiada pelas lágrimas do céu, deixei que as minhas, disfarçadamente, se misturassem com elas. 

Talvez tivesse aqui uma daquelas nuvens negras e pesadas, e tivesse que aliviar, da mesma forma que a natureza o faz.

 

E, sim, continuo a ver-te, ansioso por irmos ao Mc'Donalds. Depois, lá sentado, cheio de pressa enquanto não trazem o teu hamburguer. E, a seguir, a saboreá-lo! A beber o teu café cheio, com dois pacotes de açúcar! E a comer o teu gelado, que sobrava sempre para, depois, comeres em casa! 

Prometo comer um por ti, quando lá formos. 

Mas, por enquanto, ainda é difícil ir lá sem ti.

 

Da mesma forma que é difícil ir às compras, e já não comprar nada para ti.

Já não compro o queijo de ovelha, os bolinhos, o doce.

Já não compro a mão de vaca com grão, nem o arroz de pato.

Já não compro o arroz doce, nem um geladinho ou outra sobremesa qualquer que por lá houvesse.

 

E as águas?!

Item obrigatório na lista de compras semanal.

Ainda sobraram tantas. 

 

Enfim, todos nós, por aqui, te relembramos como sempre foste, como nos habituaste a ver-te, e tentamos lidar com tudo da forma como gostarias que fizessemos, embora nem sempre seja fácil.

Um dia de cada vez.

Se há pessoa que, provavelmente, viveu tudo o que tinha para viver, foste tu.

Resta seguir-te o exemplo.

 

 

 

Lágrimas que uma folha amparou

(1 Foto, 1 Texto #67)

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Num passeio pelo bosque, a filha pergunta à mãe:

- O que são estas gotas?

- São lágrimas que uma nuvem chorou, e que esta folha amparou.

- E porque chorou a nuvem?

- Porque já estava muito carregada e, quando assim é, tem que aliviar o peso que carrega. 

- Então, agora, já está mais leve?

- Talvez. Ou talvez tenha que chorar mais algumas vezes. Mas, com o tempo, ficará. 

- E como sabemos?

- Quando vires que ela está branquinha como um floco de neve, ou uma bolinha de algodão, por entre o céu azul.

- E porque é que a folha amparou as lágrimas?

- Para se mostrar solidária com a nuvem, e dizer-lhe que não está sozinha.

- Então, vão ficar sempre ali?

- Não, filho. Primeiro, toda a folha ficou molhada. Agora, apenas restam algumas gotas que, daqui a uns tempos, se irão evaporar.

- Isso quer dizer que quando a nuvem estiver leve, também a folha secará?

- Talvez. Vai tudo desaparecendo aos poucos, até que não reste nenhum vestígio daquele momento mais frágil que, um dia, partilharam.

- E a nuvem vai ficar leve para sempre, ou vai sentir-se pesada outra vez?

- É provável que, uma vez ou outra, as nuvens voltem a ficar mais cinzentas, e chorem novamente. Faz parte da vida.

- E a folha, vai estar sempre ali para amparar as lágrimas?

- Esperemos que sim. Que haja sempre uma folha, uma flor, ou um galho para o fazer.

 

Passados uns instantes, a filha volta a questionar:

- Mãe, quando eu for uma nuvem, tu serás a "minha folha"?

Ao que a mãe responde:

- Sempre! 

 

Texto escrito para o Desafio 1 Foto, 1 Texto 

Músicas que nos tocam: Christmas Lights, dos Coldplay

 

A primeira vez que ouvi esta música estava eu a sair do trabalho, e era a que tocava no momento na rua.

Não a conhecia.

Mas mexeu comigo.

Quando dei por mim, estava com lágrimas nos olhos.

 

Talvez o momento não tenha sido o melhor: tinha acabado de saber que o pai de um amigo do meu marido tinha falecido.

E isso fez-me solidarizar-me com ele, porque acabámos por passar por situações semelhantes e, inevitavelmente, as lágrimas eram por ele, que tinha acabado de perder o pai, e por mim, que perdi a minha mãe.

 

No entanto, hoje voltei a ouvi-la.

E voltou a tocar-me.

Definitivamente, é uma música que me comove.

 

Que me transmite nostalgia, saudade, desilusão mas, ao mesmo tempo, esperança.

Que me deixa triste mas, ao mesmo tempo, me faz sorrir.

É difícil de explicar.

 

Mas não o são todas as músicas que nos atingem o coração?! 

Da guerra...

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A guerra…

Procurei, calmamente, escapar dela.

Eu.

A minha família.

Os meus amigos.

E todos aqueles que aqui estavam, tranquilamente, a viver a sua vida.

 

Não a antevi. Não a percebi.

Para falar a verdade, nem sequer a concebi. Não a imaginei.

E, no entanto, parece que ela estava implícita.

Nas entrelinhas que não vi.

Nas letras pequeninas que ignorei.

 

Falava-se disso, é certo.

Mas acontecer mesmo, não acreditava.

Não queria acreditar.

Até ao dia em que aconteceu.

E percebi que era real.

 

A guerra…

Procurei, racionalmente, contorná-la.

Tentei esconder-me. Mas não o consegui fazer.

Arrisquei enfrentá-la. Afinal, sou forte.

Mas ela fintou-me.

E avisou-me do que me esperava, se continuasse.

 

A guerra…

Procurei, seguramente, afastar-me dela.

Deixando tudo para trás.

Anos de vida. De lutas. De conquistas.

Tudo o que tinha construído. Alcançado.

Não havia tempo.

 

A guerra…

Procurei, apressadamente, salvar-me. E aos meus.

Com o receio, a angústia, e a tristeza a inundar-me.

Com a sensação de perda. De fracasso. De luto.

De lágrimas nos olhos. O coração, nas mãos, apertado.

E uma dor no peito, impossível de descrever.

 

A guerra…

Porque é que, simplesmente, não nos deixam?

Porque é que, simplesmente, não nos respeitam?

Porquê, nós?

Sempre os mesmos.

Os que ficam. Os que partem. Os que já nada podem fazer.

 

A guerra…

Procurei, desesperadamente, fugir dela.

Mas, por mais que fuja, ela persegue-me.

Nenhum lugar é seguro.

Mesmo que assim o creia.

Sinto que não passa de uma ilusão.

 

Mesmo quando me dizem que está tudo bem.

Que estou em segurança, e já não corro perigo.

Sinto que, a qualquer momento, uma bomba pode rebentar.

Um míssil pode cair.

A morte me pode levar.

 

A guerra…

Procuro ter fé. Ter esperança.

Acreditar que o pior já passou.

Que já não corremos perigo.

Mas não passou.

Porque os traumas ficam para sempre.

 

Os traumas.

As marcas.

O medo.

A destruição à nossa volta.

O que se perdeu, e já não se recupera.

 

Perde-se a liberdade.

Perde-se a inocência das crianças.

Perde-se a alegria.

Perde-se a segurança.

Perde-se um povo.

 

A guerra…

Procuro, deste lado, acreditar que vai acabar.

Com um sentimento de gratidão.

Por ter tido a oportunidade de sobreviver.

Ou, quem sabe, desolação.

Por ter perdido os meus, pelo caminho.

 

Do outro lado, os que ficaram de livre vontade.

Para defender a nossa terra.

Ou foram obrigados a ficar.

Para lutar nesta guerra.

Com as armas que têm, e que não têm.

 

A guerra...

Espero, um dia, regressar.

À minha terra. Ao meu país. 

Ter tempo para recomeçar a vida, que ficou suspensa.

Até lá, resta rezar para que mais nenhum inocente sofra.

Nesta guerra que nunca quisémos. E nunca pedimos...