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Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

"O Poder das Pequenas Coisas", de Jodi Picoult

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Racismo.

Este é o tema central da história, inspirada num acontecimento real,  que Jodi Picoult quis abordar levando-a, porém, para um caminho e desfecho diferente.

 

Serão, as pessoas brancas, racistas por natureza?

Acredito que todos sejamos um pouco racistas. Não especificamente, os brancos em relação aos pretos, mas de uma forma geral. Muitas vezes, sem nos darmos conta. Em pequenas coisas, ou situações. Ainda que sem aquela intenção inerente de "agredir", de menosprezar, de diminuir os outros.

Todos nós podemos discriminar, ou ser discriminados, por qualquer uma das nossas características, seja ela física, cultural ou qualquer outra.

 

Serão, as pessoas brancas, privilegiadas à nascença, e ao longo de toda a sua vida, apenas pela sorte de ter nascido com esse tom de pele?

Sim, há pessoas que, mesmo não tendo feito nada para tal, acabam por ser privilegiadas por diversos motivos, como o local onde nasceram, a riqueza, o tom de pele, a religião e por aí fora.

Mais uma vez, não é um exclusivo das pessoas brancas.

 

No entanto, esta história é sobre pessoas brancas, e pessoas negras.

Sobre oportunidades, e privilégios.

Sobre aquilo que é tido por adquirido, e aquilo pelo qual se tem que lutar.

Sobre aceitação. Sobre poder de encaixe. Sobre resiliência e resignação.

Sobre ouvir, calar e perdoar.

Sobre desvalorizar, ainda que se tenha que anular.

Sobre pré julgamentos.

Sobre direitos. E deveres.

 

E, se é verdade que pessoas negras, como Ruth, estão em clara desvantagem, por conta de um sistema que aí as coloca à partida, de racistas activos, que fazem questão de mostrar o seu ódio, e de racistas passivos, que não questionam e nada fazem para mudar o sistema, também é verdade que esse "racismo" não é, de todo, unilateral.

Por outro lado, não se deve julgar o todo pela parte. E descarregar frustração, e anos de discriminação, apenas por serem negros, culpando os brancos, não deixa de ser, também, uma prática implícita de racismo.

Sim, podem não ter facilitado as coisas, podem não ter desbravado o caminho, podem ter ficado alheados ou abster-se de intervir.

Mas a culpa não recai sempre, e só, sobre uma das partes envolvidas. Sobretudo, se a outra não se impuser, não lutar, não se aceitar, não se valorizar. Se passar o tempo todo a agir como inferior. A acreditar que o seu lugar é a servir, e não a ser servido. Se passar o tempo todo a querer ser como aqueles que acusa de racismo, e a tentar encaixar-se no meio deles, em vez de mostrar o que vale, e se orgulhar da pessoa que é.

Cada vez mais as pessoas, ao querer estar um pouco em cada um dos lados, acabam por nunca estar em nenhum deles, nem pertencer verdadeiramente a nenhum deles.

 

Posto isto, e no que respeita à história em concreto, não há dúvidas de que Ruth, uma enfermeira negra com mais de vinte anos de experiência, é vítima de racismo.

Primeiro, por parte de Turk e Brit, dois brancos supremacistas que exigem que Ruth não volte a tocar no seu bebé, apenas porque é negra, sem qualquer outra queixa a nível de atendimento e trabalho enquanto enfermeira.

Depois, por parte da chefe que, atendendo ao pedido dos pais, e querendo salvaguardar o bom nome do hospital, acede ao pedido, sabendo que ela é das enfermeiras mais qualificadas e profissionais que ali trabalha.

E, por fim, quando o bebé morre, e Ruth é acusada de homicídio. Porque alguém tinha que ser sacrificado, em detrimento do hospital, e ela era o bode expiatório perfeito.

Porque, se ela cumpriu as ordens da sua superior, e não auxiliou o bebé porque a tal não estava autorizada, agiu mal e pôs em risco a vida do bebé. Ou então, ela ignorou essa ordem, prestando auxilio, e não o fez como deveria, levando à morte do bebé. 

Estes são os argumentos que vão ser levados a tribunal, para dá-la como culpada. Para além do óbvio, que os pais do bebé veem: é negra, logo, culpada.

Ruth terá que provar que tudo fez para salvar o bebé e que, o que quer que tenha feito, não o foi por vingança, ou retaliação por ter sido vítima de racismo.

 

Quando as pessoas vivem demasiado tempo oprimidas, com questões por resolver, com palavras caladas e atitudes contidas, é normal que, um dia, a coisa descambe, e elas saiam fora dos eixos.

Por vezes, é libertador. É inofensivo. E funciona, permitindo seguir em frente.

Outras, leva a caminhos mais sombrios, a violência gratuita, a culpabilização de terceiros, para evitar a autoculpabilização.

Penso que Ruth e Turk representam bem estes dois opostos.

Ruth quer soltar a voz que durante anos calou, e falar do racismo de que é vítima, acabando por mostrar um pouco do seu racismo contra os brancos, ainda que isso lhe tenha saído no calor do momento.

Já Turk e, sobretudo, Brit, mostram às claras aquilo que defendem, o seu ódio aos negros, e chegam mesmo às ameaças.

Tudo indica que, se não obtiverem justiça de uma forma, a farão por sua conta, de outra.

 

Mas, um dia, tudo pode mudar.

A vida gosta de, quando menos esperamos, mostrar a sua ironia.

A hipocrisia por detrás da inflexibilidade.

A essência por debaixo da capa

E provar que as pessoas podem mudar.

Seja para pior. Ou para melhor...

 

 

 

 

Uma Hora de Vida, de M. J. Arlidge

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Este seria um bom livro para se transformar em filme, ou em série!

O que faríamos se, de repente, alguém desconhecido nos ligasse e dissesse as temidas palavras "Tens uma hora de vida"?

Eu penso que alternaria entre acreditar que era uma piada de mau gosto, e começar a premeditar e olhar para trás a cada passo que desse, durante a próxima hora, ansiando para que chegasse ao fim e a profecia não se concretizasse.

 

Mas, aqui na história, não é uma piada. 

E a primeira vítima está feita.

Outra se seguirá.

E se, no início, a investigação estava renitente em seguir um caminho, por não haver indicadores suficientes, cedo se percebe que, afinal, terão que ir pelo rumo que queriam descartar, uma vez que a segunda vítima leva a crer que os homicídios estão relacionados.

Na verdade, tanto Justin, o primeiro a morrer, como Callum, o segundo, tal como Maxine que, curiosamente, foi a segunda a receber a chamada mas ainda está viva, e Fran, que ainda não foi contactada, faziam parte do grupo de adolescentes que foi preso numa quinta, e torturado, tendo escapado com vida por pura sorte.

Daniel King, o sequestrador, nunca foi encontrado. Suspeita-se que terá cometido suicídio, após incendiar a quinta, com Rachel, a única dos cinco jovens que ele conseguiu matar, lá dentro, mas nunca se comprovou.

Será que é ele o assassino? Será que voltou para completar aquilo que não fez anos antes? Aniquilar os restantes quatro, um por um?

E porquê agora?

Terá o livro de Maxine, sobre esse pesadelo, acabado de lançar, sido o que acendeu o rastilho?

 

A verdade é que as pistas apontam para outro suspeito, e Emilia Garanita, a jornalista que vai cobrir os acontecimentos, terá um papel fundamental na captura desse suspeito.

Só que... pode não ser ele!

E, entretanto, Maxine é assassinada.

Só resta Fran que, neste momento, está numa casa de protecção da polícia, para mantê-la em segurança, até desobrirem quem anda a matar deliberadamente, os sobreviventes de King.

No entanto, também ela parece esconder alguma coisa.

 

Numa corrida contra o tempo, toda a equipa, liderada por Helen Grace, tenta apanhar o assassino que parece estar sempre dois passos à sua frente e que, após uma testemunha visual o descrever, poderá mesmo ser King.

 

Eu, que à medida que fui avançando na leitura, apontei as minhas suspeitas para outra direcção, embora parecesse absurdo, fiquei satisfeita por ver que, mesmo não sabendo de todos os contornos, tinha acertado em cheio.

 

A narrativa está muito bem construída, tal como todas as personagens, excepto Joseph que, ao longo da história, não chegamos a perceber que tipo de pessoa é, o que esconde, o que quer, e o que será capaz de fazer, para o obter.

Será um homem violento? Manipulador? Egocênctrico? Calculista?

Ou ainda se esconde algo de bom, por detrás dessa capa?

Ficou a dúvida, que talvez possa vir a ser esclarecida num próximo livro do autor.

 

 

 

SINOPSE

 

O que faria se recebesse uma chamada a dizer:
"Tens uma hora de vida"?
Estas são as únicas palavras recebidas num ameaçador telefonema. A seguir, desligam. Certamente que só pode ser uma brincadeira… Um engano? Um número errado? Qualquer coisa menos a verdade arrepiante… Que alguém está a observar, à espera, a trabalhar para roubar uma vida no espaço de uma hora. Mas porquê?
A tarefa de o descobrir recai sobre a inspetora Helen Grace: uma mulher com um histórico de caça a assassinos. No entanto, este é um caso em que o homicida parece estar sempre um passo à frente da polícia e das vítimas. Sem motivo, sem pistas e sem dicas — nada além de puro medo —, uma hora pode parecer durar uma vida inteira…

"Se Ainda Me Quiseres, Eu Fico", de Armindo Mota

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Por cada decisão que se toma, há consequências.

Algumas, têm apenas efeito em quem as toma.

Outras, afectam também quem está, de alguma forma, envolvido com quem as tomou.

Algumas, podem ser revertidas. E os seus efeitos atenuados.

Outras, nem tanto. E os efeitos podem permanecer ao longo do tempo.

Ainda assim, é preferível decidir, do que deixar que decidam por nós...

 

 

A história começa com uma viagem de Pedro, a Portugal, para tentar descobrir mais sobre a história e as origens dos seus pais, já falecidos, que sempre fizeram um grande mistério sobre o passado, sobre o que os levou a emigrar para Nova Iorque, e nunca mais querer regressar ao seu país.

Eles apenas dizem que foi um período complicado, tempos difíceis que não desejam a ninguém, e que não lhes foi permitido viver a sua vida e história de amor livremente.

No início, o autor dá a entender que se tratou de alguma interferência familiar, de alguma imposição ou manipulação, de algum esquema para os separar. Ou, quem sabe, discriminação ou preconceito.

Na aldeia, onde Pedro tenta saber mais sobre os pais, também quase ninguém parece disposto a esclarecê-lo, adensando ainda mais o mistério, apenas revelando que o pai era tido como um jovem estranho para a época, incompreendido, e que muitos criticavam.

No entanto, Pedro percebe que, apesar dos caminhos dos pais se terem separado na juventude, eles acabaram por se reencontrar, viver o seu amor e ser felizes. Só não sabe, o que poderia ter levado à separação.

 

E é isso que nos é revelado em seguida.

A história de Pedro e Inês, que tiveram dois filhos, a que deram os nomes de Pedro e Inês, e cujos netos, atrevo-me a dizer, mais à falta de originalidade, do que em homenagem aos avós, também herdaram os mesmos nomes!

Nesta segunda parte, Pedro e Inês reencontram-se, vários anos depois, e tentam perceber o que os afastou, e o que ainda os une.

Afinal, ao contrário do que foi dado a entender, foi Inês quem terminou o namoro, porque queria “viver outras experiências”, dizendo a Pedro que não o amava mais. E Pedro, aceitando a sua decisão, sofreu em silêncio, sem tentar fazê-la mudar de ideias.

Portanto, enquanto Inês foi, talvez, inconsequente, Pedro foi conformista, algo de que ambos se arrependem.

 

Pedro casou-se. Trabalha, agora, no ramo da hotelaria. Inês casou-se, teve filhos, e trabalha na área da saúde.

Ambos andaram com a sua vida para a frente, sem nunca serem totalmente felizes, porque o amor que sentiam um pelo outro o impedia.

Mas, agora, depois de esclarecidos os mal entendidos, ilibados de culpa e percebendo que o amor se mantém, não podendo mudar o passado, podem mudar o presente e o futuro, assim o queiram verdadeiramente.

 

E é aqui que considero que o autor atribuiu às personagens um sofrimento desnecessário, e alguma inconsistência nos seus actos.

É certo que, havendo outras pessoas envolvidas, não se pode tomar uma decisão de ânimo leve, e é preciso medir as consequências que essa decisão implicará em todos os que os rodeiam, nomeadamente, as suas famílias.

Mas Pedro, afinal, até já estava separado da mulher, embora tenha passado a maior parte do tempo sem o revelar.

E Inês, a quem no início lhe parecia impossível deixar o marido e os filhos, para viver este amor do passado, a partir do momento em que descobre a traição do marido, parece esquecer tudo isso, e já está disposta a ir viver com Pedro noutro continente!

 

Pedro e Inês passam a maior parte do tempo a recordar o passado, embora concordem que não devem mais falar do passado.

Passam a maior parte do tempo a chorar, apesar de acordarem que já chega de lágrimas.

Passam a maior parte do tempo a falar de culpas, a ilibar o outro da culpa, a auto culpar-se e desculpar-se pela culpa que tiveram mas, afinal, não tiveram, ou numa tentativa de medir quem teve mais ou menos culpa.

Até parece que os seus encontros, em vez de lhes proporcionarem momentos felizes, trazem ainda mais sofrimento.

Passam o tempo todo a planear viver uma relação extraconjugal, limitada no tempo e espaço, com muitas reservas e receios, quando bastava separarem-se dos respectivos cônjuges (o que Pedro já tinha feito), se o seu amor é assim tão forte como dizem, e não estão dispostos a abdicar dele novamente.

Mas a Inês, faltava-lhe coragem. Se da primeira vez, falhou e arrependeu-se desde então, parece ainda não ter aprendido a lição, e estar prestes a falhar novamente.

E, apesar de ela própria já estar a trair o seu marido, acabou por usar a traição dele como a chave para sua cobardia, como a desculpa de que ela precisava para terminar a relação, e poder viver o seu amor livremente, sem se sentir responsável pelo término do casamento.

Na verdade, depois de conhecermos o Pedro e a Inês da adolescência, percebemos que ambos mudaram muito. Pedro para melhor. Inês, nem por isso.

 

Outro dos aspectos que considero desnecessário e, até, maçador para quem lê, são os eternos "esquecimentos" sobre o que iam dizer, o "engonhar" das conversas, e a excessiva lamechice "meu querido", "minha querida", "és tão querido", "és tão querida" a toda a hora.

E quando parecia que a história ia ganhar um novo fôlego, e tornar-se mais intrigante, logo o mistério foi resolvido, e voltámos ao mesmo.

 

Confesso que as minhas expectativas relativamente a esta história foram um pouco defraudadas.

Prometia mais do que deu.

E poderia ter dado tanto, se tivesse cortado aquilo que era desnecessário, para nos dar mais sobre o tanto que ficou por saber.

 

 

Sinopse

"Não havia luar e o céu estava carregado de nuvens negras. A escuridão era total. Ouvia-se um leve murmúrio da brisa que corria lá fora, e o rumorejar das árvores batidas pelo vento. Ao longe, no terminal de cruzeiros de Leixões, um barco produzia um sinal sonoro, porventura a assinalar a sua presença no cais. Não tardaria e as nuvens cumpririam a ameaça de que, quando menos se esperasse, descarregariam sobre a terra a imensidão de água que acumulavam nas suas entranhas, adivinhando-se, por consequência, uma noite imprópria para se estar fora de casa. Inês não se importou com isso. A sua cabeça estava ocupada com um só pensamento: tenho de o encontrar. Custe o que custar, tenho de o encontrar. E, a espaços, a sua memória reportava-lhe as palavras que, vezes sem conta, ouvira da boca do Pedro: “só se vive uma vez, minha querida; só se vive uma vez”. Era a réstia de motivação que lhe faltava. Vestiu o seu casaco acolchoado, impermeável, com capuz, enrolou um cachecol à volta do pescoço, calçou botas, forradas com pele de carneiro, desceu as escadas do prédio que habita, saiu para a rua e apanhou o primeiro táxi que apareceu.

– Para a Avenida da Boavista, por favor – disse ao taxista, ainda emocionada e com dificuldade em conter os soluços que a tomaram de assalto."

 

 

Autor: Armindo Mota

Data de publicação: Maio de 2021

Número de páginas: 388

ISBN: 978-989-37-0030-3

Colecção: Viagens na Ficção

Idioma: PT

 

"Perdeste o Meu Nome", de Ricardo Mota Pereira

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Existem duas formas de reagir ao amor:

Ou se corre para ele. Ou se foge dele.

Ou se abre os braços para o receber. Ou se fecha a porta, para não o deixar entrar.

O amor pode ser comunhão, ou conflito.

Ou ele acalma, ou ele desassossega.

Ou ele faz bem, ou gera mal estar.

Mas uma coisa é certa: para ele florescer e se fortalecer, têm que ser dois a querer.

 

E, nesta história, a maior parte dos protagonistas está numa dança solitária, que o par parece não estar disposto a dançar.

 

Fernando e Alice têm uma relação há vários anos.

Ele ama-a. Faz tudo por ela. É capaz de tudo, por ela. Até anular-se. O que leva a suspeitar antes de uma obsessão. Ou libertá-la, o que confirma o seu amor.

Ela, acredita que o ama.

Alice vai ser operada a um tumor no cérebro e, após a cirurgia, começa a tratar Fernando de forma diferente. Nada é como antes.

Ou, acredito eu, já nada era, antes da cirurgia, mas Alice andava a adiar o inevitável. 

E a cirurgia foi a desculpa perfeita.

A história leva-nos a crer que Alice tem medo de não sobreviver à delicada operação a que vai ser submetida. Não digo que não. Mas havia, também, a certeza do que aconteceria após a cirurgia.

O saber que, ultrapassada aquela barreira, se sobrevivesse, não haveria mais desculpas, e tudo o que tinha estado a conter, correria livre e sem barreiras.

Alice era amada, mas não sabia aceitar esse amor. Nem, talvez, amar. 

 

Num outro núcleo, Teresa amava.

E Pedro, parecia começar a saber o significado disso. E o peso do amor que ameaçava surgir, também, da parte dele.

Mas não sabia lidar com isso. E, por isso, antes que o amor o matasse, matou ele o amor.

 

Amélia amava António.

António, à sua maneira, amava Amélia.

Mas, então, por força das circunstâncias, Ana entrou nas suas vidas. Ou foram eles que entraram na vida dela.

E, desde então, Amélia desistiu do seu amor.

Ana começou a amar António, mas António fugiu desse amor.

No fim, restou o amor puro, e genuíno, de uma mãe, pelo seu filho, seja ele de sangue ou não.

Um filho que lhe foi tirado e que, só passados vários anos, voltou a reencontrar.

 

Poderá, no meio de tantos amores destruídos, haver um final feliz?

Amélia, que amava, morreu.

Teresa, que amava, morreu.

António, que fugiu do amor, morreu.

Pedro, ao rejeitar o amor, morreu.

Ana, morreu amando, e sentindo-se amada.

De uma forma, ou de outra, todas estas vidas, e mortes, se cruzam na história de Alice e Fernando.

 

O que estará destinado a Fernando e Alice, outrora tão unidos, agora dois estranhos?

Uma vez separados os caminhos de cada um poderão, algum dia, voltar a transformar-se num só?

Ou será cada um deles mais feliz, em caminhos separados?

 

Pessoalmente, penso que o autor se dispersou por várias histórias e personagens em simultaneo, não desenvolvendo muito algumas delas, pelo que poderia ter optado por se focar mais, naquelas que mais relevância têm, em todo o enredo.

Por outro lado, foi um pouco difícil habituar-me à escrita do autor, nomeadamente quando passa da terceira pessoa, enquanto narrador, para a primeira pessoa, enquanto personagem.

Talvez por isso, apesar da questão central, não me tenha conseguido prender.

 

Sinopse

"Parada diante do mar, Alice percebe que a sua vida está prestes a mudar para sempre. Dentro da sua cabeça existe um tumor que vai ser removido nesse dia. Fernando, que a vigia à distância, deseja apenas que a sua vida volte à nor­malidade dos dias felizes. Contudo, não sabe que a Alice que ele ama desaparecerá no meio da cirurgia.

Até onde estamos dispostos a ir em nome do amor? Até onde podemos ir para não perder o centro da nossa perso­nalidade? Estas são as questões que as personagens têm de responder. Estas são as perguntas que todos fazemos em algum momento das nossas vidas."

 

 

Autor: Ricardo Mota Pereira

Data de publicação: Maio de 2021

Número de páginas: 652

ISBN: 978-989-37-0831-6

Colecção: Viagens na Ficção

Idioma: PT

 

 

O Rapaz à Porta, de Alex Dahl

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No outro dia, perguntava-me a minha filha: qual o sentido da vida?

Porque nascemos, e vivemos, para depois morrermos e desaparecermos?

O que é suposto andarmos nós, aqui, a fazer?

 

Pois…

Não sei. Mas deverá existir algum motivo, ainda que o desconheçamos.

E, felizmente, temos a sorte de ter uma vida que, não sendo de sonho também, nem de longe, se aproxima do pesadelo.

 

Terá Annika feito essa mesma pergunta?

Para ela, a vida não foi assim tão simples, tão generosa, tão simpática.

Annika fez muitas coisas erradas na vida. Escolhas dela. Decisões dela. Nada as desculpa.

Ainda que tenha tido pessoas boas na sua vida, que lhe deram várias oportunidades de se tornar uma pessoa diferente, havia sempre algo, ou alguém que, de certa forma, a puxava de volta ao abismo, a desviava do caminho, e lhe devolvia a velha vida de miséria. Que, no fundo, ela acreditava ser aquela em que melhor se encaixava, em que melhor se sentia, em que mais se esquecia do quão duro, e complicado, era viver.

Annika era aquela jovem, depois mulher, a quem foi tirado tudo, quando já nada tinha.

Mas havia coisas que ainda restavam dentro de si: arrependimento, consciência dos seus actos, e do quão mal tinha agido, e um pedacinho pequeno do seu coração intacto, que ainda lhe permitia ter alguns sentimentos mais nobres.

Annika cedo percebeu que não teria uma vida longa. Sabia que o fim estava próximo. E a sua intuição não lhe falhou.

 

Cecília, ao contrário de Annika, parecia saber para o que estava a viver. Parecia saber quem era, o que queria, o que estava disposta a fazer para manter o que tinha e, sobretudo, o que estava disposta a fazer, para não deixar de o ter.

Até ao momento em que os alicerces da sua vida perfeita, mas de fachada, ameaçam fazer ruir tudo o que construiu até ali.

É nesse momento que começa a perder o controlo. Que começa a ver tudo a escapar-lhe pelas mãos.

E, numa última, e desesperada, tentativa de se agarrar como pode àquilo que a segura, vai tecendo a sua teia de mentiras sobre mentiras, em que já poucos acreditam, e que lhe mostrará que, também ela, é tão frágil que a deixará cair, na realidade, a qualquer momento.

 

Se Annika nos desperta alguma compaixão, Cecília, nem por isso.

A primeira, assume os erros. A segunda, esconde-os, ignora-os, finge que nunca existiram.

A primeira, tem a “desculpa” das drogas, da dependência. A segunda, apenas a de que o seu coração é frio, calculista, manipulador. Ou, se necessário for, a de que está louca.

 

E entre as duas, há o Tobias.

O rapaz à porta.

Um rapaz traumatizado, que quase não fala.

Um rapaz que Cecília tinha visto, noutro dia, e lhe era estranho.

Um miúdo que, num determinado dia, Annika não vai buscar à piscina. E Cecília foi encarregada de levar para casa.

O miúdo que, a certa altura, acaba por ficar com Cecília temporariamente, enquanto família de acolhimento, até a assistência social lhe encontrar uma família definitiva. E que, logo a seguir, lhe é tirado quando Cecília é internada numa clínica psiquiátrica, após um surto psicótico.

Tobias era o rapaz que vivia com Annika. Que agora está morta. E que sabia quem era Cecília.

Será que Tobias também conhece a verdade?

 

O que será agora deste rapaz, sem família, sem amigos, sem ninguém?

Longe daqueles que o rejeitaram, mas também daqueles que o amaram?

Que futuro lhe estará reservado?

 

Este foi mais um daqueles livros que comecei a ler e não me estava a inspirar nada.

Acho que parecia uma história aborrecida, como um dos dias passados em Sandefjord, onde se desenrola a trama, em que o sol nasce depois das 9 para logo desaparecer, ainda antes das 16h, em que a chuva e o frio eram uma constante.

Mas depois, à medida que o fui lendo, é como se, lentamente, o inverno desse lugar ao verão, e os dias escuros, aos dias em que o sol está presente até depois das 22h!