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Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

O banco

(1 Foto, 1 Texto #105)

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Numa zona residencial, por entre o estacionamento e duas ou três árvores de um pequeno espaço verde (agora mais castanho), encontrei este banco.

Não percebi muito bem o porquê de o terem ali posto, meio escondido, quase à beira do precipício, virado para a estrada.

No entanto, talvez o objectivo não seja observar a estrada, ali mesmo à frente, mas mais além. Os terrenos circundantes, o horizonte.

Talvez nem esteja ali para observar o que quer que seja, mas apenas para parar, relaxar, reflectir, descansar.

Um momento de privacidade e paz, no meio do rebuliço da vida.

 

Texto escrito para o Desafio 1 Foto, 1 Texto

Enquanto esperava...

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...naqueles minutos, enquanto não chegava a minha vez, fui observando quem, por ali, estava. E quem ia chegando.

 

Um casal de idosos, ela a guiar o marido, debilitado, até ao gabinete onde aquele iria ser atendido.

Lembrei-me dos meus pais. Se fossem vivos, talvez fossem eles ali. Ou talvez não. O meu pai, provavelmente, iria sozinho. A minha mãe, talvez, comigo.

 

Uma outra senhora, também já idosa, chegou sozinha.

É o que acontece quando não há ninguém disponível para acompanhar.

Ou quando não se quer chatear ninguém com essas coisas.

 

E pensei em mim.

Ali estava eu, sozinha, apenas para levantar uns exames.

Mas, como será quando chegar àquela idade?

Entraria ali com o companheiro de uma vida? Ele a tomar conta de mim, ou eu a acompanhá-lo na sua luta? Como em todos os outros momentos da vida?

Ou estaria ali sozinha, independente, entregue a mim própria?

 

 

1 Foto, 1 Texto #11

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Lasiocampa quercus

 

Parar.

Escutar.

Observar.

Nem sempre, andando de um lado para o outro, sem rumo, ora chegando aqui, ora chegando ali, sem nunca permanecer muito tempo, conseguimos perceber o que nos rodeia.

Há que ser paciente.

Astuto.

Apurar todos os sentidos.

Compilar toda a informação.

E, só então, voar!

 

 

 

Texto escrito para o Desafio 1 Foto, 1Texto

Uma espécie de "teleconsulta", mas presencial

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Na sexta-feira tive que ir ao médico.

Tentei marcar consulta na minha hora de almoço, no centro de saúde, mas os serviços administrativos estavam encerrados a essa hora.

Acabei por ir à saída do trabalho, por volta das 19 horas, ao atendimento complementar, uma espécie de urgência aberta 24 horas, a que só posso ir quando o centro de saúde está encerrado.

Tinha seis pessoas à minha frente. Fiquei. 

Percebi que, ou me calhava uma médica que não conheço, ou o estrangeiro do outro dia, que atendeu o meu pai.

 

Chamaram um rapaz que estava antes de mim, e a mim, para entrar e esperar no corredor.

O gabinete 6 estava fechado, sem nenhum médico lá dentro.

No gabinete 7 ouvia-se uma voz de mulher, e uma outra voz, que parecia um homem. Sendo que a mulher era a utente.

Entretanto, o tal médico estrangeiro aparece, vai para o gabinete 6 e chama o rapaz que estava à minha frente.

 

No gabinete 7, chamam uma utente que estava na enfermaria, mas ninguém aparece.

Uns minutos depois, vejo sair de lá uma senhora. Aí com uns 60 anos, talvez. Pensei que fosse a tal utente, e que houvesse algum acesso interior entre gabinetes. Até porque estava convencida que a voz do profissional era de homem.

A senhora passa por mim e vai não sei onde. Depois, volta, e sai, pela saída de emergência, para a rua.

Volta a entrar, olha para mim, e pergunta como me chamo, e se já fui atendida.

Respondo, e manda-me, então, entrar para o gabinete 7.

Ou seja, a dita senhora era a médica!

Pelos vistos, agora, nem batas é preciso usar.

 

Sento-me, e pede-me para esperar um pouco.

Passados uns minutos, lá me pergunta o que tenho.

Explico-lhe os meus sintomas.

Eu, na minha cadeira. E a médica, na dela.

Em nenhum momento me observou.

Confirmou-me o que tinha, e passou-me o antibiótico.

Simples assim!

 

Não sei se ela tem poderes de adivinhação, se tem raios laser ou uma lupa incorporada nos olhos, para me observar à distância. Mas o importante é que já me podia tratar.

Pelo que percebi, ela não é muito dada a observações, mas parece que costuma ser eficaz.

Ainda assim, para além de toda a situação surreal, em que uma médica anda a passear pelo hospital, enquanto os utentes estão à espera de ser chamados, senti-me como numa espécie de teleconsulta, mas presencial!

 

E pronto, a primavera trouxe-me de presente uma conjuntivite, uma temporada a usar óculos, e umas lentes de contacto, acabadas de estrear, destinadas ao lixo.

Devemos proteger os jovens da realidade, ou deixá-los ver e lidar com ela?

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Dizia-me, no outro dia, alguém que, por vezes, quando as famílias iam visitar os idosos nos lares, ou instituições, acabavam por permitir que os mais novos (netos/ bisnetos) não entrassem, porque eram novos, e não tinham que ver "aquilo". 

Há também uma grande tendência, no que respeita ao falecimento de familiares, para deixar os jovens em casa, ou com alguém que possa ficar com eles algumas horas, enquanto decorre o velório e funeral, porque poderia ser demais para eles, e não estarão preparados para tal.

Outras vezes, fugimos de certos temas, e pintamos uma realidade alternativa, para mascarar aquela que existe, como a dos sem abrigo, da violência, das guerras, das fomes, da miséria.

São jovens. Têm mais em que pensar. Não precisam de lidar com a dura realidade. 

Pois...

 

Não digo que, de forma totalmente oposta, desatemos a esfregar-lhes na cara a realidade.

Que os obriguemos, de repente, a ir para as ruas, ou para onde se passam as diversas problemáticas sociais, ou cenários menos coloridos, para que saibam como a vida é.

Que os forcemos a algo para o qual não estão preparados. Por vezes, nem nós estamos preparados.

Mas também não nos caberá, somente a nós, decidir isso.

Seeia bom ouvir os jovens. Saber qual é a sua vontade. O seu desejo. Se se sentem confortáveis.

Ou não, mas ainda assim querem ver e lidar com a realidade.

 

Se calhar, mesmo sem querer, somos nós que, muitas vezes, temos mais dificuldades em encará-la, e projectamos as mesmas nos jovens.

No entanto, eles não têm que ser iguais a nós.

E, se é verdade que não há necessidade de expô-los a tudo, de um momento para o outro, também há limites para a excessiva protecção que lhes queremos dar, alienando-os da realidade que, mais cedo ou mais tarde, lhes surgirá à frente, de uma forma ou de outra.