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Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta - O meu canto

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Eu Queria Usar Calças, de Lara Cardella

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Este livro conta a história de Annetta, uma miúda que sempre quis usar calças, numa época em que asmeninas e mulheres só estavam autorizadas a usar saia, estando as calças guardadas para o sexo masculino, ou para aquelas raparigas que ousavam desafiar a sociedade

 

No início, Annetta queria tornar-se freira, convencida de que as freiras usariam calças por baixo do hábito mas, quando essa teoria caiu por terra, desistiu.

Ainda pensou tornar-se rapaz, imitando em tudo o seu primo, até que percebeu que havia algo que diferenciava rapazes e raparigas, pelo que também essa ideia foi colocada de parte.

Só restava uma última hipótese. Quando formulou o seu pedido à mãe esta respondeu-lhe "os homens e as putas* é que usam calças". E foi uma dessas mulheres que Annetta tentou ser.

 

Até ao dia em que um tio a apanhou aos beijos com o namorado, e a levou ao pai, que lhe deu uma valente tareia. Sem conseguirem esquecer a vergonha, acabam por enviá-la uns dias para casa de uma tia, onde vai descobrir terríveis segredos, e perceber que nem tudo é o que parece.

 

Anos mais tarde, Annetta está casada. Os tempos são outros, e as regras não são tão rígidas.

No entanto, Annetta nunca usou calças.

Quando questionada pela tia sobre o que a levou a casar-se, Annetta responde:

 

"Posso mudar uma cabeça, todas não!"

 

Um livro que fala de violência infantil, pedofilia, da vida em meios pequenos onde todos se conhecem, de direitos, de mentalidades, da mudança, de sonhos proibidos e desfeitos.

 

 

 

*mulheres que, pelo modo de vestir e atitudes, possa ser considerada libertina

 

Lion - A Longa Estrada Para Casa

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Vi no fim de semana este filme,por insistência do meu marido, que já tinha visto uma parte e achou que o filme era bom.

Sei que, por ocasião dos Óscares de 2017, era um dos candidatos e reuniu várias críticas, algumas positivas, mas não me lembrava já do que se tinha falado ao certo sobre ele.

 

Na primeira parte do filme, foi possível constatar a miséria, a pobreza, as más condições em que vivia aquele povo, a forma como tinham que se desenrascar para sobreviver. Ainda assim, em família, o pouco que tinham era partilhado. Havia amor, havia união.

Quando Saroo é levado para Calcutá, voltamos a ver mais miséria, a forma como vivem os sem abrigo, muitas crianças nas ruas obrigadas a sobreviver a traficantes, pedófilos, e à própria polícia mas, ainda assim, na sua pobreza, solidários com aqueles que encontram em condições semelhantes.

Ali, todas aquelas crianças estavam em risco. E se, por cá, temos instituições e casas de acolhimento para estas crianças e jovens (ainda que algumas sejam pouco recomendáveis), duvidei que por ali houvesse algo do género.

No entanto, até havia! Mas o objectivo, por muito nobre que fosse tendo em conta o local e as condições, assemelhava-se mais a uma prisão, em que as crianças eram maltratadas e vítimas de abusos, pelo que acabamos por ficar na dúvida se teria sido preferível Saroo continuar nas ruas, ou ter sido levado para tal abrigo.

Destaco a assistente social que, ao contrário daquilo que poderíamos estar à espera - uma carrasca e sem coração - era a única pessoa decente, que viu que Saroo não poderia ficar ali muito tempo na instituição. Pena que as restantes crianças não tenham tido a mesma sorte.

E, assim, Saroo é adotado por uma família australiana, cheia de amor para lhe dar, e que acabou por ser a sua salvação. À semelhança do que fizeram com Saroo, adoptaram mais tarde outro menino indiano - Mantosh, mas este com marcas muito mais profundas, que lhe valeram o desenvolvimento de problemas mentais. E por aí percebemos que nem todas as adopções correm da melhor forma, e nem todas as crianças são iguais.

Mas estas duas adopções foram gestos de amor, de generosidade - abdicar de ter os próprios filhos, para dar uma vida melhor a crianças que mais precisam.

 

 

E saltamos agora para a segunda parte, em que ambos são adultos, para chegar a uma conclusão - embora seja dada a mesma oportunidade a duas pessoas diferentes, haverá sempre aquela que aproveita e tira partido dessa oportunidade, e aquela que a desperdiça e deita no lixo.

Haverá sempre aquela com quem se consegue trabalhar e levar a bom porto, e aquela que nenhuma ajuda poderá alterar o seu destino. E é, também, por isso, que nem sempre é gratificante e compensador trabalhar com crianças e jovens em risco. Porque no meio de muitas, poucas são as que fazem valer a pena todo o trabalho que se desenvolveu com elas.

Claro que haverá muito mais na história de Mantosh, para além do que nos é mostrado, e as coisas podem não ser assim tão lineares e tão "preto no branco". Mas isso ficará,quem sabe, para outro filme.

 

A determinada altura, Saroo começa a querer procurar a sua família verdadeira, e torna esse desejo uma obsessão. Não acho que ele esteja a ser ingrato para com os pais adotivos. Considero apenas que algumas das suas atitudes, erradas e parvas, são resultado de uma mente em extrema confusão, de um homem perdido entre o passado e o presente, sem conseguir encontrar o seu caminho.

Por vezes, até os filhos mais certinhos saem da casca e agem como perfeitos idiotas.

 

 

Achei o filme demasiado longo, com cenas que eram escusadas e que em nada contribuiram para valorizá-lo. Poderia ter sido dada outra dinânica a esta segunda parte em que Saroo tenta descobrir de onde veio, e se a sua família ainda estará viva. Houve também um pormenor que talvez me tenha escapado, ou delirei, mas fiquei com a sensação de que, no início do filme, eram quatro irmãos: Guddu, Saroo, Kallu e Shekila. No entanto, no final, quando se reencontram, não fazem referência a Kallu, como se nunca tivesse existido.

Embora tenha sido um filme que deu origem ao debate de alguns temas, lá por casa, e que o meu marido adorou, confesso que não é daqueles filmes que tenha vontade de ver uma segunda vez, ou me tenha tocado como outros o fizeram. 

 

 

Quando o entusiasmo inicial se transforma em dúvida

 

Sabem aquela sensação que muitas vezes experimentamos, depois do entusiasmo inicial, quando voltamos a pousar os pés na Terra? É assim que eu me sinto!

Mas, vamos lá começar do início, senão ainda começam a pensar, tal como o meu pai teve a gentileza de me perguntar, que eu não estou bem psicologicamente!

Tudo começou no dia da Corrida da Criança. Andávamos à procura da tenda das pinturas faciais e encontrámos, por mero acaso, uma tenda de uma agência de modelos. Pensei que a ideia era maquilhar as crianças ali mesmo e simular uma sessão fotográfica, só para se divertirem, mas não. Além de uma fotografia, o que faziam era ficar com os contactos de quem estivesse interessado, para depois chamarem para um casting na agência. 

Eu ainda disse "ah, não vale a pena", mas o meu marido incentivou e a minha filha também quis, por isso, vamos lá. Foi, então, chamada para o casting, em Lisboa.

A agência é a Space Milan Models. Não conhecia, nunca tinha ouvido falar, mas fui ver o site oficial e a página do facebook, e pareceu-me credível. Tanto pelos trabalhos que lá apresentam, como pelos agenciados e formadores conhecidos (Cláudio Ramos, Pedro Crispim, FF, Raquel Prates e muitos outros), e pelos parceiros que têm. 

Consegui combinar o casting para um dia em que o meu marido podia ir connosco e lá fomos. Para a Inês, seria uma experiência, e ficasse por ali, tudo bem. Não ia com expectativas, mas já tinha ouvido dizer que algumas pessoas foram chamadas para lhes apresentarem formações caríssimas.

O meu pai, logo aí, alertou-me para o facto de irmos expôr a Inês, de irmos dar os dados dela a pessoas que não conhecemos de lado nenhum, que podia ser tudo um esquema. Eu também tenho algum receio mas, como disse, não é assim uma empresa tão desconhecida e pareceu-me que é profissional.

No dia do casting, a directora de casting, Celina Machado, pareceu-me uma senhora excepcional, até mesmo na forma como conversou com a Inês e a pôs à vontade, à forma como nos explicou tudo, como lhe explicou como as coisas funcionavam. Como não ignorou os pontos mais fracos mas elogiou aquilo que ela tinha de melhor, e como se poderia contornar ou solucionar o restante. 

Ninguém fez promessas. A minha filha passou no casting e ficou agenciada. Mas isso acontece, provavelmente, a quase todas as crianças. E lá veio, então, a proposta de formação, pela quantia de 700 euros, que ficou imediatamente de parte.

A outra proposta era fazer um book, que consiste em duas sessões - uma teórica e a sessão fotográfica propriamente dita - por 200 euros, e que já é algo que se poderá mostrar a possíveis clientes, que poderão ser de várias áreas, desde catálogos de roupa, publicidade, televisão, teatro, etc.

Naquele momento, tendo em conta o feedback positivo em relação ao potencial da minha filha, achei que valia a pena o esforço, e paguei então o book.

No entanto, mal saí porta fora, fiquei com aquela sensação "já me enrolaram em grande estilo!". Sim, não houve promessas. Mas até que ponto, aquilo que foi dito à minha filha, não o é também às outras crianças e pais, só para que nos sintamos tentados a investir? 

Quantos daqueles pais que lá estavam naquele dia pagaram por alguma destas propostas? Tenho quase a certeza que, para muitos, tudo ficou por ali. Mas poderá ter havido quem, como eu, tenha investido na formação ou no book.

Mas, enfim, nem tudo é mau. Mesmo que o book não venha a servir para nada, vai ser uma recordação para a Inês, ter ali umas fotografias suas tiradas por profissionais. Isto, porque quero acreditar que, de facto, é uma agência séria e credível.

Acontece que, por azar, nos dois dias que temos que lá voltar, o meu marido está a trabalhar e não tem forma alguma de ir connosco, o que significa ter que ir eu com a minha filha sozinhas para Lisboa, e não me agrada nada.

E não ajuda o meu pai estar a converter-me numa mãe irresponsável que não se encontra no seu perfeito juízo, ao ponto de me perguntar se eu me sinto psicologicamente bem para concordar com esse absurdo! Ir com uma criança de 11 anos para Lisboa, para lhe tirarem fotografias, com tudo o que se houve sobre redes de pedofilia e tráfico de crianças.

Obrigadinha! Eu sei de tudo isso. Mas quero acreditar que não é esse o caso. E quem me dera que fosse tudo feito aqui em Mafra mas, infelizmente, estas agências estão todas nas cidades. E até queria que ele fosse acompanhar-nos, mas nem cheguei a pedir porque em conversa com a neta ele disse logo que não ia. 

Também sei que ela só tem 11 anos, mas vemos crianças ainda mais novas nas revistas e na televisão. E sei que ela tem que estudar, mas se (e isto é mesmo o se, porque ninguém disse que ia ser chamada para fazer alguma coisa) ela eventualmente for chamada para algum trabalho, sou eu que decido se ela fará ou não. E se ganhar algum dinheirito, pode juntar às poupanças dela, ou para alguma coisa que ela venha a precisar.

Por isso, estou aqui sem saber se devo dar ouvidos a quem me incentiva a ir, ou a quem considera tudo isto um risco desnecessário. Como se não bastassem já os meus receios e dúvidas.

Alguém por aí conhece a agência ou sabe minimamente como estas coisas funcionam, que me ajude a dissipar todas estas incertezas que pairam por aqui?

Ou deve ser urgentemente decretado o meu internamento compulsivo?

 

Sobre as infelizes de declarações do arcebispo Jozef Michalik...

...acerca dos padres pedófilos da Polónia!

Porque será que determinadas pessoas tentam sempre sugerir que as vítimas dos mais variados crimes são sempre culpadas pelo que lhes aconteceu?

Se alguém é assaltado, a culpa é da vítima, porque tinha algo que os ladrões queriam!

Se alguém é atropelado, a culpa é sua, porque não viu o carro, porque não esperou, porque estava onde não devia!

Se uma mulher é violada, a culpa é dela. Deve ter tido algum comportamento que motivou o violador a fazê-lo!

Se o país está em crise, a culpa é do seu povo, que não se esforça para o pôr a andar para a frente!

Por isso já não me espanta que o arcebispo Jozef Michalik, líder do Episcopado na Polónia, ao comentar as revelações sobre padres pedófilos no seu país, tenha sugerido que as crianças eram parcialmente responsáveis pelos abusos sexuais sofridos por padres.

É óbvio que as crianças, na sua inocência e busca de atenção, afecto e carinho, seduzem os pobres padres e lhes pedem para cometer tais actos de carácter sexual. E os pobres padres, coitados, no cumprimento da sua missão de ajudar o próximo, ou porque antes de serem padres são homens e a carne é fraca, satisfazem assim tão nobre e inocente vontade.

É um perfeito absurdo! Mas é este o mundo em que vivemos. Aqueles em que é suposto nós confiarmos e que supostamente nos deveriam proteger de alguma forma (membros da igreja, polícia, instituições, família, amigos, etc.), são aqueles que cometem, muitas vezes, os piores crimes.

O arcebispo terá mais tarde pedido desculpa, e dado o dito pelo não dito, mas ninguém esquecerá, tão cedo, as suas infelizes declarações.

Factores e comportamentos de risco

 

 

Não costumo passar muito tempo em frente à televisão. Normalmente, para ver algum programa que me agrade, vou saltitando entre a cozinha e a sala, e apanhando o básico.

Mas nessa noite, estava sentada com a nossa Tica ao colo, e comecei a procurar entre uma infinidade de canais, algum que me agradasse. Parei no canal Odisseia, onde estava a passar um documentário sobre o Camboja, mais precisamente, sobre a pobreza, a educação e a pedofilia e ciberpedofilia.

Embora nos últimos tempos tenha havido um maior desenvolvimento e crescimento económico, devido a um maior investimento, há ainda muita pobreza neste país do sudueste asiático. Essa pobreza que faz com que, muitas vezes, se "vendam" crianças e o seu corpo a qualquer preço.

No Camboja, também a educação não é para todos. Os professores vêem-se obrigados a pedir dinheiro aos alunos pelos seus serviços, uma vez que o ordenado pago pelo estado é muito baixo. Logo, crianças mais pobres não têm possibilidades para tal, e vêem-lhes vetado o direito à educação. 

Por outro lado, assisti a testemunhos de vítimas de abuso sexual, agora institucionalizadas, que estão, de tal forma, traumatizadas e fragilizadas, que se limitam a ir passando os dias, sem qualquer esperança, plano ou projecto para a sua vida.

Ontem, ao espreitar as manchetes dos jornais, detenho-me na do Correio da Manhã, que noticiava o disparo de casos de bebés abandonados em Portugal. Foram detectados casos de abandono em Portimão e em Cascais. Já no Porto, existem pelo menos 12 situações de mães que não têm capacidade para exercer a função parental.

No Hospital Amadora-Sintra duplicaram os casos de bebés rejeitados pelas mães, por motivos de carências económicas. Essas crianças foram encaminhadas para instituições de acolhimento.

Em Sintra, na Praia das Maçãs, uma menina de apenas 3 dias foi entregue pelos pais a uma advogada, encontrando-se, neste momento, internada no hospital de Cascais. Posteriormente, será desenvolvida uma medida de acolhimento institucional, havendo já uma acção de promoção e protecção da menor no Ministério Público do Tribunal de Família e Menores de Sintra. 

Muitas vezes, pode-se atribuir este abandono a imaturidade ou inexperiência dos pais, bem como a baixa competência para assumir a responsabilidade parental. Mas, por norma, predominam os factores sócio-económicos. 

De facto, a situação de crise que o país actualmente atravessa é propícia ao aumento do número de crianças em risco, não só pelas dificuldades económicas dos pais, como também pelo clima de instabilidade que provoca, bem como o aumento de pais com depressão.

Verifica-se também que, nas classes mais desfavorecidas e em meios mais pobres, há uma tendência para recorrer à violência como forma de resolução dos problemas, prevalecendo os maus tratos às crianças.

Por outro lado, factores como a falta de trabalho, o emprego precário ou a dependência de outrem, podem levar a comportamentos de risco.

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