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Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Porque é que temos tendência para pensar sempre o pior?

 

 

Quem me conhece já sabe que não costumo ser uma pessoa muito positiva dependendo, obviamente, da situação em si, e das circunstâncias. 

Há quem considere que isso é um grave defeito, mas eu prefiro ser "realista" e ter os pés bem assentes na terra, do que sonhadora e viver num mundo que só existe nos nossos sonhos.

Claro que, quando as coisas acontecem aos outros, tento sempre puxar pelo meu positivismo, ou desvalorizar a gravidade das situações. Mas quando me diz respeito, ou mais precisamente, à minha filha, vejo-me várias vezes a pensar o pior.

O episódio de ontem só veio comprovar esta teoria.

A minha filha tem o hábito de me ligar quando sai da escola, e quando chega a casa, para eu ficar mais descansada. Ontem, como sempre, ligou quando estava a sair. Como estava entretida com o trabalho, nem reparei nas horas, até porque algumas vezes ela liga um bom bocado depois de chegar a casa.

Entretanto, recebo uma chamada do meu pai a perguntar pela minha filha, porque ainda não tinha chegado a casa. Activou-me logo o botão "alerta vermelho"!

Já tinha passado mais do dobro do tempo que ela leva no caminho da escola a casa. Liguei logo para ela. Tinha o telemóvel desligado! 

Ainda com algum poder de discernimento, lembro-me de ligar para o meu marido, para saber se por acaso ela estaria com ele. Não me atendeu.

A esta altura já eu estava numa pilha de nervos, a pensar o pior!

Felizmente, ao fim de uns minutos, a minha filha ligou-me a dizer que estava a chegar a casa. Afinal demorou porque esteve à espera de uma colega de turma, para ver se vinha com ela e com a mãe para casa de carro, mas acabou por não ter boleia. Não passou de um valente susto.

Mas porque é que o ser humano tem tendência para pensar ou esperar sempre o pior? Será um mecanismo de defesa? Querer estar mentalizado ou preparado para a pior das hipóteses, para não ter surpresas? Não se iludir para não se decepcionar? Não criar muitas expectactivas para não correr o risco de vê-las cair por terra? Será o pessimismo uma característica enraizada na personalidade de algumas pessoas?

Talvez um pouco de tudo isso. E daquilo que nos rodeia, do mundo em que vivemos, daquilo que presenciamos, ouvimos ou conhecemos. 

Mas tenho para mim que até as pessoas mais positivas sentem, de vez em quando, medo, dúvida e apreensão, e vêem-se, algumas vezes, confrontadas com o seu lado mais negativo, ainda que jurem a pés juntos que isso nunca acontece. E, da mesma forma, embora o possam negar, as pessoas mais negativas também têm esperança, sonhos e expectativas, e conseguem pôr o pessimismo de parte em algumas ocasiões!  

 

 

A Tica fugiu de casa

 

 

 

A nossa Tica fugiu ontem de casa.

Apanhou-me distraída no espaço de alguns minutos, e saiu pela janela da entrada, que estava entreaberta enquanto a máquina de secar roupa estava a trabalhar.

Quando dei por isso, tinha ela acabado de sair. Fui atrás dela, mas fugiu para um lado. Depois voltou para trás, mas em vez de ir para casa, olhou para mim e saltou para a rua, depois foi para o quintal dos vizinhos e enfiou-se debaixo de uma carrinha. 

Chamei-a, mas nem se mexeu.

Parva, estúpida, palerma, idiota...sei lá o que lhe chamei na altura, irritada como estava por ela ter fugido. Tem tudo cá em casa, é tratada como uma rainha (tomara muitos terem a mesma sorte) e é assim que agradece. Não dá valor à sorte que tem. Pois se não está bem em casa, fique na rua, para onde sempre quis ir. Nós é que somos maus por tentar protegê-la, por evitar que ela vá para a rua sozinha e lhe aconteça alguma coisa.

Os animais são como as pessoas, têm que aprender à sua custa, com os seus erros. Espero é que a lição não lhe saia cara.

Com este estado de espírito só pensava que, quando ela voltasse, ia levar um belo raspanete. E ia ficar de castigo sem ir à rua nos próximos dias para aprender. Depois, pensei em, simplesmente, ignorá-la por uns tempos para ela perceber que nos magoa cada vez que foge de casa.

No entanto, a minha fúria dura pouco, e com o passar das horas, sem ela dar sinal, só quero mesmo que ela volte, para recebê-la de braços abertos, como a um filho pródigo.

Não voltou. Passou a noite toda fora. Uma noite em que, a cada barulhinho, me levantava para ver se ela estava à porta. Sem sucesso. Em que ouvia a chuva lá fora e imaginava onde ela poderia estar - se estaria ao frio, se estaria molhada. Ou se tinha encontrado um abrigo. Se alguém a tinha apanhado, ou se algum cão a tinha atacado, ou algum carro atropelado. Se estaria presa em algum sítio sem conseguir sair.

A essa altura, o meu único desejo era que ela estivesse bem, onde quer que estivesse, mesmo que não voltasse.

De manhã, procurámos nos sítios em que ela normalmente se costuma esconder. Nada. Chamámos por ela, apitámos os seus ratos, agitámos a caixa da ração. Apareceram outros gatos, mas não a Tica.

A verdade é que não há muito que possamos fazer. Não sabemos onde está ou para onde foi. Só podemos esperar que ela apareça, e bem. Foi ela que escolheu o seu caminho. Mas custa-me não saber dela.

Já tentei ser compreensiva, optimista, forte, realista ou indiferente para não descambar. Para não me lembrar que todas as noites ela dormia encostadinha a mim, e esta sabe-se lá onde dormiu. Para não me lembrar do último olhar que me deu antes de saltar o muro e fugir. Para não me lembrar que todas as manhãs estava a postos para receber o dono e ir para a janela da sala, para não pensar na falta que ela faz e como a casa fica mais vazia sem ela...

Pode até parecer um exagero, mas a Tica é como uma filha para mim. E a pior coisa que pode acontecer a uma mãe, é perder um filho...

Conversas a dois

 

Ela: Sinto que estou a travar os teus sonhos...

Ele: Porque dizes isso?

Ela: Com a vida que temos é difícil pensarmos em filhos...

Ele: As coisas hão-de mudar!

Ela: Achas? Eu não acredito muito. Se eu não tivesse já uma filha, poderíamos pensar nisso, mas assim...

Ele: Não podes ser tão pessimista.

Ela: Pois...Mas se tivesses com uma mulher sem filhos, as coisas seriam diferentes...

Ele: Talvez...Mas eu não quero outra mulher! É a ti que eu amo! É a ti que eu quero na minha vida!

Ela: (sorri) 

Ele: Sabes que vou tirar o curso, para poder arranjar um emprego melhor, e termos outras condições. E aí já vamos poder ter o nosso filho!

Ela: (a brincar) Hum...estás a dizer que termos um filho depende de um canudo!?

Ele: (sorri) Não!

Ela: (sorri também mas, no fundo, continua convencida de que nada vai mudar)

Tempestade

 

"Depois da tempestade, vem a bonança." - costumam dizer. E depois da bonança? Nova tempestade...

 

Depois de a tempestade parar, as nuvens negras se dissiparem e o sol voltar a brilhar, renasce a esperança!

Esperança de que o sol tenha vindo para ficar, e que o mau tempo seja esquecido.

Mas, subitamente, o sol desaparece, as nuvens voltam ainda mais negras e o temporal abate-se de novo, com maior intensidade. A esperança desvanece-se...

A vida é, muitas vezes, injusta connosco. E nós somos, muitas vezes, injustos com os outros. Quando entramos numa relação, entramos para o bem e para o mal. Se assumimos um compromisso, baseado em amizade, respeito, cumplicidade e amor, assumimo-lo para os bons e para os maus momentos. Mas se, a cada contrariedade, se puser em causa a relação, então começa a ser difícil acreditar nela. Se, a cada momento mais complicado da qual ninguém tem culpa, nos atiram as culpas para cima, é difícil não nos sentirmos injustiçados. Se, em vez de haver apoio e compreensão, há acusações, é difícil não ficar triste. Se a pessoa que está ao nosso lado não se sente bem na relação nem está feliz, e começa a procurar compensar nos amigos e fora de casa, aquilo que lhe falta, é impossível não sentir frustração.

 

Claro que eu já sou conhecida pelo meu pessimismo, mas por vezes é impossível mandá-lo embora.

Chego a casa, e estou dividida entre ajudar a minha filha para a ficha de Língua Portuguesa do dia seguinte, o jantar dela, enxugar e arrumar loiça, quando o meu marido me chama. Ainda lá vou rapidamente tirar-lhe uma dúvida, e volto para a cozinha. Começo a comer um iogurte, em pé, enquanto continuo as tarefas. Em seguida, volta a chamar-me. Digo-lhe que não posso, que depois vou. Ele insiste. Peço-lhe que espere um bocadinho. Um bocadinho que se tornou bem grande, mas caramba, eu estava ocupada e com uma coisa mais importante que criar ou gerir um blog. Ficou aborrecido porque, na opinião dele, o ignorei, o desprezei, porque não lhe dei atenção. Mas se era assim tão importante e não podia esperar (não era o caso), por que raio não se levantou do sofá e foi ter comigo? E se não era urgente, podia ter esperado até eu me sentar no sofá.

Não lhe dou a atenção que ele precisa? É verdade, nem sempre posso. Mas por essa ordem de ideias a minha filha tinha muitos mais motivos para reclamar comigo, afinal, na maior parte dos dias, só consigo fazê-lo por breves instantes, quando tenho tempo para o fazer. E até a Tica, que farta-se de miar porque quer que eu me sente para vir para o colo, porque quer brincar, porque quer mimos...E eu? Tenho dias em que nem sei o qe é comer calmamente sentada à mesa.

Se fico triste com isso? É óbvio que sim! Todos nós precisamos de atenção, mimos, carinho. Somos humanos (embora muitas vezes tenhamos que ser máquinas) e temos sentimentos. E compreendo perfeitamente que ele fique aborrecido com esta falta de tempo, tal como eu fico. Mas esta é a nossa vida - com momentos em que temos tempo, e outros que nem por isso. Se nos vamos chatear um com o outro cada vez que não pudermos ter atenção, então a nossa relação vai ser feita de discussões, em vez de apoio e compreensão. E isso não fará bem a nenhum de nós...

 

 

 

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