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Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Quando recebemos a notícia de que a nossa mãe partiu

É curioso que, tendo já escrito tantas homenagens, não me saiam agora palavras para falar da minha mãe.

Talvez porque tudo o que eu disser será pouco. E porque aquilo que está cá dentro não caberia num só texto. Ou porque talvez seja mais difícil quando são os nossos.

 

Apesar de, nos últimos tempos, ter previsto este cenário por diversas vezes, é algo para o qual nunca estamos preparados, quando ele se confirma.

Quando acordei, esta manhã, estava confiante. Nada me preparou para o que aí vinha.

 

Um telefonema da médica, pouco depois das 9 da manhã. Pensei que fosse para me pôr ao corrente da evolução da minha mãe.

Nem quando me disse que a minha mãe tinha um quadro complicado, suspeitei. 

Nem mesmo, quando me perguntou se eu tinha mais alguém em casa. Pensei que fosse por ser necessário ir lá.

Só quando lhe perguntei o que iria ser feito, quais os passos seguintes, é que ela me informou que, infelizmente, a minha mãe tinha falecido.

Portanto, ela falou e fez-me falar, já em modo de preparação, para atenuar o choque da triste notícia.

E foi, de facto, um choque. Como, imagino, será para todos os que perdem familiares.

 

Posto isto, a principal preocupação foi como dar a notícia ao meu pai.

Porque teria que ser eu a dá-la, e não o poderia fazer no estado em que estava, para além de não saber como iria ele reagir.

 

Depois, avisar familiares, amigos e, a cada telefonema, ou mensagem, reviver as emoções, relembrar o choque, encarar e tomar consciência da realidade.

E tentar não pensar nisso, para não descambar.

Fazer piadas, ocupar com tarefas domésticas.

Momentos intercalados com lágrimas e lembranças.

Até as bichanas perceberam. A Amora veio dar-me turrinhas, como que a consolar-me.

Estava em casa apenas com a minha filha.

Não foi fácil.

 

Depois, momentos de decisões.

Autopsiar, ou não autopsiar? Para quê? De que adiantava agora  saber a causa da morte?

Calhou-me ligar para a médica, e dizer que não queríamos autópsia.

 

E, em seguida, ligar para a agência funerária, para dar início a todo o processo.

Escolher urnas.

Escolher flores.

Escolher cartões para o velório.

Escolher mensagem.

E aperceber, mais uma vez, da realidade.

É necessário. É uma homenagem. Mas quem é que tem cabeça para essas coisas num momento destes?

 

Desligar o interruptor.

Há uma filha, as gatas para tratar, o almoço para fazer.

O meu marido chegou entretanto. Tinha ido trabalhar mas, perante a situação, arranjaram alguém para o substituir.

O meu irmão viria também.

 

Afinal, ainda havia mais trâmites a tratar.

A escolha da roupa para vestir a minha mãe.

É horrível.

Sabemos que será essa a última imagem dela, e queremos dar-lhe a dignidade possível, ainda que nesta hora em que nos despedimos dela.

Mas é voltar tudo ao de cima, olhar para as coisas dela, e um milhão de pensamentos e lágrimas a misturar-se, e a deitar abaixo.

 

No entanto, é preciso levar a roupa.

Fazer compras.

Limpar a casa.

Desligar o interruptor, e tentar distrair-me é o melhor remédio.

E, se possível, tentar que não toquem no assunto.

 

A esta altura, final do dia D, em que a minha mãe completa 79 anos e meio, e nos deixa para sempre, já nem sei bem o que sinto. 

Mas sei que o pior ainda está por vir.

Amanhã.

 

Por mim, seria uma despedida rápida, só para nós, e acabava.

Mas sabemos que as pessoas querem dar apoio. Que também se querem despedir. Mesmo que cada palavra, dita com a melhor intenção e sentida, nos faça mais mal que bem. Que seja como um escarafunchar numa ferida que está em carne viva, e que assim não sara.

E, por muito que saiba que vai ser duro olhar para a minha mãe, ou para o que restou dela, sei que quero olhá-la uma última vez.

 

Não sou dada a religião, mas a minha mãe era católica e, por isso, pedi serviço religioso.

Que, também ele, vai ser duro. Faz parte. E se não aguentar, é sinónimo que sou humana.

 

E, por fim, o encerrar de tudo.

O momento em que percebemos, definitivamente, que é real, que não a veremos mais. Que, a partir dali, estará debaixo de terra.

Que, ao menos, o seu espírito encontre uma moradia melhor.

 

A nós, restam-nos dias duros, de mais burocracias que, também elas, são necessárias, e a esperança de que o tempo atenue a dor e o sofrimento dos que cá ficam, com a certeza de que a minha mãe, que partiu, já não sofre mais.

É a lei da vida. Calha a todos. Uns mais cedo. Outros mais tarde. Mas ninguém escapa.

Ainda assim, não deixa de ser sempre pior quando nos toca a nós, e aos nossos.

É tentar agarrar ao que de bom vivemos com ela, com plena noção de que não ficou nada por fazer, dizer ou demonstrar, no tempo que que estivemos com ela.

 

 

 

 

Pieces of a Woman, na Netflix

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Pieces of a Woman aborda a gestação, o momento do parto e a perda de um filho, com as implicações que esse acontecimento refletem em cada um dos pais, família mas, sobretudo, do ponto de vista da mãe.

Aquela que viu o seu corpo transformado ao longo dos meses. Que sentiu todas as dores. Que pôs a sua filha no mundo. Que a teve nos braços e experimentou minutos de felicidade para, logo a seguir, a perder, e o seu mundo desmoronar.

Aquela cujo corpo continua a comportar-se como se houvesse um bebé para alimentar e cuidar.

Aquela a quem todos olham com pena, a quem querem consolar, muitas vezes, sem qualquer tacto. Aquela a quem são exigidas determinadas reacções e acções, sem lhe perguntar o que ela realmente sente e quer, ou precisa.

 

Sou mãe.

Tenho uma filha.

Não quero sequer imaginar a dor de a perder.

Não será mais fácil para quem perde os seus filhos poucas horas depois de nascerem, do que seria para quem com eles teve oportunidade de conviver e ver crescer.

Por isso, não consigo imaginar a dor de Martha. Mas seria normal que, enquanto mãe, me sentisse solidária com a sua dor.

Pois, por muito boa que tenha sido a actuação da protagonista, ela não conseguiu despertar a minha empatia.

“Estive” com ela no momento do parto. Identifiquei-me. Quase senti as dores como ela mas, a partir daí, foi-me totalmente indiferente no resto do filme.

 

Toda a história do filme tem, por base, um parto caseiro.

Por opção do casal ou, talvez, mais de Martha que, como vimos, não tinha muita vontade de abdicar do parto no aconchego do seu lar, para ter a sua filha num hospital.

Não condeno a sua escolha.

Sei, por experiência própria, como pode ser stressante, e ficar marcado como uma má experiência, um parto na maternidade, quando não existe privacidade, quando não conseguem (ou não querem) perceber as nossas dores, a necessidade de ter alguém ao lado, o facto de, uma coisa que é normal para quem lá trabalha, ser especial para quem o vive na pele, sem ser encarada e tratada como apenas um número, alguém fraco que só sabe gritar e queixar-se. Como pode ser invasivo, quando decidem levar avante procedimentos sem questionar a grávida. Quando, para terem menos trabalho e preocupações, e “despacharem o serviço”, decidem dar uma “ajudinha” da qual muitas mães preferiam abdicar, se lhes fosse perguntado.

E é por isso que algumas grávidas preferem ter os seus filhos num ambiente familiar, de forma o mais natural possível, rodeadas de quem lhes quer bem, vivendo o momento de forma tão tranquila quanto possível.

 

Mas…

Um parto num hospital, será, à partida, mais seguro. Se houver algum problema, estão no sítio certo. Existem os meios, e uma equipa de profissionais. Poupa-se tempo, por vezes precioso. E o transporte desnecessário de casa até ao hospital.

Isso não significa que o desfecho fosse diferente.

Por mil e uma razões, a bebé poderia estar, à partida, condenada. Poderia ter havido, como há tantas vezes, erros médicos no parto, na vigilância, no acompanhamento, no procedimento de expulsão.

No entanto, fica sempre a dúvida se não teria sido diferente…

Não sei se Martha, de alguma forma, se culpa por ter insistido nessa escolha, e ter resistido quando a parteira lhe falou da ambulância e do hospital. Ou por achar que há algo de errado com o seu corpo e, por isso, não conseguiu salvar a filha. Talvez se culpe, e seja por isso que não quer iniciar um julgamento contra a parteira que a assistiu. A sua mãe, certamente, fá-lo. E como não pode julgar a filha, decide virar-se para a parteira, a quem acusa pela morte da neta.

 

Penso que outro dos motivos para não ter criado empatia com Martha, é o facto de ela se mostrar, aparentemente, tão indiferente, tão fria, tão controlada, sem exteriorizar qualquer emoção, ainda que ela exista, e a esteja a corroer por dentro. 

Ao mesmo tempo que não quer saber de quem também está a sofrer.

Sim, uma mãe é uma mãe. Mas porque tem a dor do pai que ser tão desvalorizada, como se não se pudesse comparar à dor de uma mãe? Como se o pai fosse incapaz de sentir, de sofrer. E de compreender.

Como disse há dias, num outro post, perante uma desgraça, ou a família se une, ou desmorona.

Aqui, começou a desmoronar-se, sem retorno.

Eventualmente, Martha conseguirá, algum dia, juntar os seus pedaços, e seguir em frente.

 

Achei o filme demasiado longo.

Achei que poderia ser melhor explorado. 

Não me emocionou.

Não cativou.

Não marcou.

E não o veria novamente.

Perder um filho é perder um pedaço de nós...

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É perdermo-nos, também nós...

É ficar sem ar...

É ficar sem chão...

É sentir uma dor tão forte no coração, que parece que também ele quer deixar de bater...

 

É sentir arrancada uma parte de nós...

Sem dó, nem piedade...

A vida, eventualmente, segue sem ela...

Tem que seguir... Sobretudo, se houver quem ainda dependa de nós...

Mas nunca mais será a mesma.

Não há nada que substitua esse pedaço, ou nos devolva a vida como ela era antes, completa.

 

É perceber que queremos tanto proteger os filhos e, ainda assim, nunca os conseguiremos proteger o suficiente.

É sentir que a nossa missão foi interrompida, muito antes de terminada.

É sentir que, a esse filho, lhe foram cortadas as asas. Vedado o caminho que começava a trilhar...

Ninguém cria um filho, para vê-lo ficar pelo caminho, sem viver a vida para a qual o preparou, e onde queria vê-lo, feliz e realizado, a passar por todas as etapas que, também os pais, um dia, passaram, mas à sua própria maneira.

 

O tempo atenua a dor.

Apazigua o espírito.

Acalma o coração.

Embala a lembrança.

Mas não nos faz esquecer, que uma parte de nós, um dia, cedo demais, antes de nós, se foi...

 

 

 

Pedro Lima...

...e o que está para lá do que se vê

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Sábado à tarde, vou a casa da minha mãe e ela diz-me "Olha, morreu mais um actor. O Pedro Lima."

Fiquei atónita. Parece que, de repente, os actores se lembraram de partir novos. Ainda há pouco tempo tinha sido o Filipe Duarte.

Fui para casa a pensar nisso e, mal cheguei, fui pesquisar mais, momento em que percebi que não tinha sido por doença, ou acidente. Pedro Lima tinha-se suicidado.

Ao que parece, a mulher já estaria a desconfiar que algo de grave se poderia passar o que, a juntar às mensagens que terá enviado nessa madrugada a alguns amigos, terá levado à rápida (mas não a ponto de impedir o pior) descoberta do corpo do actor, confirmando-se a morte.

 

É-nos difícil compreender como uma pessoa como o Pedro Lima que, aparentemente, tinha "tudo" - trabalho, dinheiro, uma família bonita, amigos verdadeiros, sucesso e por aí fora - se tenha suicidado.

Que motivos teria?

Não havia nada, à nossa vista, que nos pudesse levar a pensar que ele não estivesse bem. Não havia escândalos, falta de trabalho, problemas financeiros ou familiares, nada.

O que o levaria a tal acto de desespero, quando há tanta gente em pior situação, que não o faz.

Mas os problemas, fossem eles quais fossem, estavam lá. Ainda que não se vissem a olho nu.

 

 

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Diz-se que Pedro Lima sofria de depressão. Como assim?

Se estava sempre animado, bem disposto, de bom humor, de sorriso aberto?

Estas pessoas são, por norma, as que representam mais risco. Porque escondem aquilo que sentem. Porque guardam para si. Porque não querem incomodar os outros, levá-los para os problemas que têm. Porque sofrem em silêncio, e em solidão.

Já não seria a primeira vez que lidava com a depressão quando, para todos nós, era parecia sempre um homem feliz e realizado.

E, agora, lá estava ela outra vez. Ainda que Pedro Lima desse a mão a todos, pareceu recusar-se a pedir a quem quer que fosse, que lhe desse a mão. Provavelmente, não queria incomodar. Provavelmente, achava que era algo que só a ele dizia respeito, e só ele poderia resolver.

Mas a depressão estava lá, enraizada, profunda, a dominá-lo, a puxá-lo como um polvo embora, para quem o visse, parecesse um homem liberto.

 

Diz-se que Pedro Lima tinha problemas de autoestima. 

E nós pensamos: "Problemas de autoestima? O Pedro Lima?"

Parece impossível.

Mas esta morte que tanto nos chocou, só vem provar que, por vezes, o "tudo" que achamos que as pessoas têm, não é nada do que elas precisam.

Que, por mais que os outros nos elogiem ou nos atribuam qualidades, se nós mesmos não as virmos, é como se não existissem.

Choca-nos, mas só ele saberia o que sentia, e como queria livrar-se desse sentimento. Daquilo que o ensombrava. Que o aprisionava.

 

Talvez pudesse ser ajudado. Talvez não...

Por Pedro Lima, resta desejar que tenha encontrado a paz que lhe faltava, e que esteja melhor do que neste mundo, de onde partiu.

Mas, por tantas outras pessoas, é bom que percebamos que nem tudo é o que parece. Que um sorriso pode esconder uma tristeza profunda. Que a boa disposição pode ser a camuflagem para a dor insuportável.

É uma chamada de atenção, para aquilo que, muitas veses, está para além do que se vê, ou do que nos é dado a ver.

 

 

Os médicos podem/ devem mentir aos pacientes?

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Deve um paciente saber a verdade sobre a sua situação clínica, ainda que esse paciente seja apenas uma criança?

É legítimo os familiares de um paciente, pedirem a um médico que omita/ minta a esse mesmo paciente?

Quanto de altruísmo ou de egoísmo está presente nesse pedido?

 

Por vezes, tentamos proteger tanto, que não percebemos que aqueles que queremos proteger não vivem dentro de uma bolha, que não são parvos e sabem pensar por si, e perceber quando nos dizem a verdade ou nos mentem.

Por vezes, as nossas acções visam aquilo que achamos que é o melhor para os outros mas, no fundo, é aquilo que é o melhor para nós próprios.

 

"Ah e tal, não vai aguentar!", "Vai ser pior saber", "Se não souber, não sofre.".

 

Mas, quem somos nós para dizer o que os outros querem, o que vão pensar ou como vão reagir, decidindo por eles em algo que diz, acima de tudo, respeito a eles?

 

Coloco-me no lugar do paciente e, por mais que me custasse, iria querer sempre que me dissessem a verdade, nua e crua, do que fingirem que estava tudo bem, quando tudo e todos à minha volta agiam em sentido contrário às palavras, denunciando-os. 

Até porque o facto de omitirem só leva a que seja mais fácil, para eles próprios, lidar com o sofrimento deles. Se não virem o sofrimento dos outros, não sofrem ainda mais.

Estando eu doente, não tenho o direito de saber? Correndo riscos, não tenho o direito de ser informada? Estando com os dias contados, e a vida por um fio, não tenho direito a fazer a minha própria despedida, à minha maneira?

É eticamente correcto os médicos, a pedido de alguém ou por sua própria autoria, ocultarem a real situação clínica do paciente?

E quando transpomos isto para uma criança? Mudará alguma coisa? Ou continuará a ter os mesmos direitos?

 

Colocando-me no lugar de familiar, nomeadamente, mãe, quereria eu que a minha filha soubesse a verdade? Estaria ela preparada para isso? Saberia eu própria lidar com essa verdade, e com os eventuais estragos que ela pudesse fazer à minha filha? Ou pediria ao médico que lhe mentisse, tal como eu, para que ela continue a ter uma vida normal, sendo que nunca o será?

Lá está, mais uma vez, percebo que, não querendo que a verdade seja dita, estaria a aliviar-lhe os últimos momentos da sua vida mas, sobretudo, a aliviar-me a mim, enquanto mãe, de lidar com as frustrações, negações, conformismo, depressão da minha filha, a somar às minhas. Nesse sentido, é altruísmo para com a minha filha, ou egoísmo da minha parte?

 

Conseguiria eu levar a farsa até ao fim, sem me denunciar? É pouco provável e, como já referi, as crianças não são parvas. Acho que, em qualquer caso optaria, por mais difícil que fosse, pela verdade.

 

E enquanto médica? Posso eu mentir a um paciente, seja ele qual for, sobre o seu estado de saúde? Que os pais não tenham coragem, ou queiram esconder/ proteger, é com eles. Mas como profissional de saúde, como devo agir?

Com uma verdade esmagadora, ou com uma mentira piedosa?