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Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Histórias soltas #10

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Em casa de Sofia o ambiente estava pesado. Tanto ela como Filipe pareciam estar a agarrar-se a um último pedaço de madeira em pleno oceano, sem saber bem como, tentando sobreviver, quando tudo parecia indicar que não havia salvação possível.

- Não está a ser fácil Sofia. Não sei se a nossa relação vai aguentar muito mais tempo.

- E para mim, achas que está a ser?

- Pelo menos tens tudo o que desejaste. Já eu…

- Ah sim, claro! Eu desejei que a nossa vida se virasse de pernas para o ar e estivéssemos prestes a deitar pelo ralo tudo o que sonhámos!

- Não estou a dizer que a culpa é tua. Mas tiveste a vida mais facilitada que eu.

- Facilitada?! Achas que perder o meu marido a pouco tempo de nascer a nossa filha é ter a vida facilitada? Ver a bebé nascer antes do tempo e ter que ficar internada uns dias no hospital, é fácil? Ver a associação que eu fundei encerrar por causa de um incêndio que fui acusada de provocar, e ver alguns dos animais morrerem, é fácil?

- Sofia…

- Não! Agora vais ouvir-me. Eu sei que não tiveste culpa do acidente. Aconteceu contigo, como podia ter acontecido com outra pessoa qualquer. E não imaginas como fiquei feliz quando percebi que estavas vivo! Não sabes o quanto eu sonhei com isso, esperei por isso. E o quanto sofri por não acontecer, por ter que te esquecer e andar para a frente com a minha vida.

Não foi fácil criar uma filha sem pai, com tudo a desmoronar à minha volta, e à beira da depressão.

Foi ainda mais difícil pôr o passado para trás das costas, abstrair-me dos problemas, e dedicar-me à nossa filha e à escrita.

E, quando finalmente a minha vida tinha ganhado alguma normalidade, tu chegas e viras o jogo todo.

- Estás a dizer que sou eu que te destabilizo?

- Estou a dizer que foi algo que ninguém esperava, e é normal que as coisas levem o seu tempo a equilibrar-se de novo.

- Estou contigo há alguns meses, e mal nos vemos, mal conversamos, não temos tempo para nós. Alguma coisa não está bem.

- Filipe, se estás aqui este tempo todo sem trabalho, eu não tenho culpa. Se tens todo o tempo do mundo e eu não posso estar aqui contigo a usufrui-lo, também não tenho culpa. Tenho o meu trabalho, alguém tem que pagar as contas.

- E andares para todo o lado com o Alexandre, também é para te pagar as contas?

- O Alexandre é meu amigo. E meu editor!

- E quer voltar a ser mais do que isso!

- Para com isso. Sabes bem que quando ele apareceu tu não estavas cá, e terminámos assim que soube que estavas vivo. Nunca mais houve nada entre nós.

- Mas se calhar, até querias que houvesse! Talvez tenhas ficado comigo só por pena. Talvez não sintas mais o mesmo por mim.

- Chega. Não te faças de vítima comigo que não vai resultar.

- Fazer de vítima?! És muito engraçada!

Eu passo dois anos da minha vida sem saber quem sou e, quando recupero a memória, a primeira coisa que faço é vir para junto da minha mulher e da minha filha.

E o que é que eu encontro? A minha mulher com outro homem, que já assumiu o papel de pai que não lhe pertencia.

A minha mulher a continuar todos os dias a conviver com uma pessoa que, para todos os efeitos, é meu rival, sem se importar com aquilo que eu sinto.

A minha mulher demasiado ocupada para poder passar uns momentos com o marido que julgava morto, e por quem afirma ter sofrido tanto com a sua ausência.

O que queres que pense?

- Por muito que queiras, a vida não parou nos dois anos que estiveste fora. Não podes querer, com um estalar de dedos, voltar ao ponto em que ficámos.

- Também ainda não a vi sair do ponto em que a recomeçámos… - disse Filipe, pegando nas chaves do carro e saindo porta fora.

Ia tão alterado que nem se apercebeu que, a poucos metros, alguém vigiava a casa.

Essa pessoa viu Filipe sair, e percebeu que era a oportunidade perfeita para atuar. Afinal, Sofia estaria sozinha em casa com a menina.

Tinha chegado a hora da vingança. Não há nada como esperar, pacientemente, pelo momento mais oportuno para agir. E como tinha esperado por este momento.

O momento em que mostraria a Sofia que não se deveria ter metido no seu caminho, que não deveria ter deixado que se metessem nos seus caminhos.

O momento em que lhe diria todas as decisões erradas que tinha tomado, e como agora pagaria por isso.

Histórias soltas #9

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O dia amanheceu ensolarado, e Francisco quis aproveitar para ir até à praia treinar um bocadinho.

Tinha um campeonato pela frente dentro de um mês, e não podia falhar.

Pegou na prancha, colocou-a no carro e seguiu, ouvindo, pelo caminho, as novas músicas que tinha gravado.

Estava tão entretido que nem reparou que o seguiam de perto.

De repente, sentiu uma pancada na parte traseira do carro, e assustou-se. Mal teve tempo de assimilar o que estava a acontecer, quando uma nova pancada já na lateral, o fez guinar o carro, e perder o controlo, fazendo-o dar várias voltas na estreita estrada, até cair ribanceira abaixo.

Cerca de uma meia hora depois, quando o trânsito começou a aumentar, um dos condutores apercebeu-se de um carro acidentado, e ligou de imediato para os bombeiros.

Francisco foi transportado para o hospital, onde deu entrada em estado grave.

António que, entretanto, foi avisado, correu para perto dele preocupado com o que pudesse acontecer.

Após várias horas de espera, o médico pediu para falar com a família. O prognóstico era muito reservado, mas o mais certo era Francisco ficar paralisado da cintura para baixo.

Isso iria destruir completamente a vida de Francisco. Todos os seus planos iriam por água abaixo.

Seria o fim do surf, o fim dos campeonatos, o fim de todos os seus sonhos.

Como é que aquilo teria acontecido? Porquê com o Francisco?

Tudo levava a crer que se tratara de um acidente. Só mais tarde viriam a saber que esse acidente fora bem premeditado.

Histórias soltas #8

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Algures na ilha de Saint George, no arquipélago das Bermudas, um homem fazia compras no supermercado.

Ia percorrendo os corredores à procura daquilo que tinha ido buscar quando, sem querer, embateu numa mulher que levava meia dúzia de coisas na mão, fazendo-a deixar cair tudo.

Pedindo desculpa pelo sucedido, logo se baixou para apanhar o que tinha espalhado. Pão, um pacote de bolachas, um pack de sumos que, por sorte, não rebentou, e um livro.

Sem saber bem porquê, ele deteve-se a olhar para aquele livro por instantes.

- Conhece? – perguntou a mulher, uma filha de emigrantes açorianos que ali morava.

- Como?

- Se conhece o livro?

- Ah, não! Não me parece. – respondeu, devolvendo-o.

- É de uma autora portuguesa, Sofia Mendes. Foi uma prima minha que mo ofereceu.

- Pois. Não devo conhecer. Peço-lhe desculpa mais uma vez.

- Está desculpado.

Terminou as suas compras, pagou e foi para casa, esquecendo o embaraçoso episódio que tinha protagonizado há instantes.

Na verdade, era curioso ele ter esquecido, quando tudo o que lhe pediam para fazer no último ano, era tentar lembrar-se.

Lembrar-se de quem era, de onde vinha, o que fazia antes de ir ali parar.

Não foi fácil, embora aos poucos tenha conseguido recuperar pedaços da sua memória, que tinha perdido.

O que os médicos lhe tinham dito, quando acordou do coma em que se encontrava, é que tinha sido encontrado inanimado no porto de Saint George, com ferimentos graves por todo o corpo e um traumatismo cranioencefálico, tendo sido levado de imediato para o hospital.

Conseguiram mantê-lo estável, mas em coma, durante vários meses, até que acordou sem se lembrar de nada do que tinha acontecido. Com ele, nada trazia que o pudesse identificar.

Não tendo para onde ir, nem dinheiro para retomar a sua vida naquela ilha, aceitou a ajuda do casal que o tinha encontrado, e que costumava ir visitá-lo, até ele se conseguir organizar.

Pouco a pouco, foi-se lembrando de algumas coisas, como a sua profissão. Talvez por ter observado a riqueza da arquitetura histórica da cidade, e as fortificações circundantes.

Foi assim que conseguiu que lhe desse um trabalho num escritório de arquitetos, à experiência, onde se mantinha até à atualidade.

Várias vezes, via flashes de rostos que lhe pareciam familiares, mas que não conseguia determinar a quem pertenciam, nem lhes dar nomes.

Lembrou-se que tinha uma irmã, Alice. Mas não fazia a mínima ideia de onde ela estaria.

E tinha uma vaga ideia de uma mulher grávida, mas só se recordava de uns casos sem importância em Nova Iorque, e nenhum deles tinha resultado em gravidez. Ou será que tinha?

Histórias soltas #7

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"Em que momento é que as coisas mudaram?

Em que momento é que deixou de haver tempo?

Em que momento é que deixou de haver vontade?

Em que momento é que deixou de haver cumplicidade? Vontade de conversar, de partilhar?

Em que momento é que, sem darmos por isso, nos tornámos apenas colegas de casa?

Em que momento é que, insconscientemente, deixámos de lutar do mesmo lado, e declarámos, silenciosamente, guerra um ao outro?

Em que momento é que começámos a ser mais papistas que o Papa, e a implicar com coisas que sempre criticámos os outros por implicar?

Em que momento é que deixou de ser um prazer estarmos juntos, para ser um tormento?

Em que momento é que deixou de haver paciência, para dar lugar à irritação, à mais pequena palavra proferida? 

Em que momento é que o silêncio passou a ser algo tão desejado?

Em que momento é que, apesar da proximidade, começámos a parecer tão distantes?

Tenho saudades dos tempos em que namorar era uma coisa boa. E talvez continue a ser, nós é que nem sequer temos disponibilidade para isso. 

Eu bem sabia que era assim que as coisas iam ficar. Acontece sempre. Acontece a todos! Sim, não somos o primeiro nem o último casal em crise.

Não somos o único casal a ser engolido pela rotina, pelo trabalho, pelas obrigações, pelas responsabilidades.

No início é tudo muito bonito. Com o passar do tempo, a cobertura desvanece-se, e fica à vista aquilo que antes cobria.

Percebemos que algo está errado quando preferimos os momentos em que estamos sós, aos que estamos juntos. Quando começamos a fugir um do outro, a evitarmo-nos. Quando nos decidimos dedicar a uma quaquer actividade ou ocupação, como desculpa para passar o mínimo tempo um com o outro. Quando o ambiente se torna tenso e pesado, quando estamos juntos no mesmo espaço.

Ambos sabemos que ainda há amor. Esse não morreu. Não foi levado. Está, antes, soterrado. E é cada vez mais difícil chegar a ele e trazê-lo ao de cima.

Precisamos de tempo. Tempo é algo que não temos. Ou nem nos damos ao trabalho de tentar ter.

Porquê?

Não sei.

Será uma atitude conformista? Derrotista?

A única coisa que eu sei é que sinto cansaço, físico e psicológico. Esgotamento. E é mais fácil revestir-me de pedra, para ultrapassar cada dia que passa, mal aproveitado, mas vivido dentro do que é possível.

O que nos espera daqui para a frente? O que será de nós, a continuar assim?"

 

Caminhava pela praia, entregue aos seus pensamentos, depois de mais uma discussão sem sentido. Tinham sido várias nos últimos tempos. A praia era o seu refúgio. O seu porto de abrigo. O mar acalmava, a areia sob os pés descalços ajudava a relaxar.

Ia recordando os bons momentos que haviam passado juntos, desde que se tinham conhecido. As dificuldades também. E a forma como sempre tinham conseguido ultrapassá-las. Agora não estava a ser fácil.

Sentada na areia, ia observando o voo das gaivotas. Queria também poder voar como elas. Mas não podia. Mesmo que pudesse, não seria justo. Nem sequer sabia se seria justo estar a preocupar-se com estas coisas insignificantes, quando comparadas com tudo o que a sua irmã tinha passado, e ainda estava a passar. Ela sim, tinha problemas bem mais graves para resolver.

Mas, naquele momento, queria dar-se ao luxo de pensar na sua própria vida, e no seu futuro. Rodava a aliança no dedo até que, involuntariamente, a tirou. Estaria a chegar ao fim o seu casamento? Ou haveria ainda uma oportunidade?

Será que amar é suficiente para duas pessoas permanecerem juntas?

A aliança estava na sua mão. Bastava um gesto, e ela seria levada pelas ondas, levando também todas as esperanças de um final feliz.

Mas, seria mesmo isso que queria? Teria mesmo coragem de o fazer?

 

 

Histórias soltas #6

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Houve uma pessoa, talvez a única, que realmente reparou em mim em toda a minha vida!

Foi já na minha adolescência.

Nessa altura, eu tinha conseguido fugir daquela rede que, por estupidez minha, me apanhou naquele dia, arrancando-me de uma vida que, apesar de não ser a melhor, era bem mais desejável que aquela que me foi dada em troca. Dada é uma maneira de dizer, porque paguei-a bem cara, apesar de nunca a ter querido comprar.

Nessa altura, eu andava nas ruas, a tentar esconder-me, a tentar não ser apanhada de novo. Tinha frio. Tinha fome. Tinha medo. Tudo o resto me havia sido tirado. Estava vazia por dentro. Mas precisava de me alimentar, de me fortalecer.

As pessoas que passavam por mim, simplesmente, ignoravam-me. Talvez pelo estado das minhas roupas, por acharem que era mais uma delinquente que por ali andava, uma prostituta até.

E, no fundo, com razão! Tinha sido obrigada a vender o meu corpo durante todo aquele tempo, mesmo que essas pessoas não o soubessem. Mas, pelo menos, davam-me alguma comida. Com isso não tinha que me preocupar.

Agora, mesmo quando pedia às pessoas para me ajudarem, todas viravam costas, todas fugiam como se eu tivesse uma doença contagiosa que lhes pudesse pegar só de se aproximarem.

Tinha fome, e a minha única hipótese foi entrar naquele supermercado, e tentar roubar alguma coisa para comer. Roubar, sim. Não pensem que não me envergonho disso, mas que mais podia eu fazer se ninguém me podia ajudar? Morrer? Depois de ter gasto todas as forças que ainda me restavam para fugir, não ia agora desistir da minha vida.

Era a primeira vez que roubava, e nem sabia bem como agir. Não queria ser apanhada e levada para uma nova prisão, logo agora que me tinha acabado de libertar de uma.

Não tinha uma mochila. Apenas a roupa que trazia vestida. E essa, por si só, já chamava a atenção e punha qualquer um a olhar para mim com um ar desconfiado. Era difícil não dar nas vistas.

Ainda assim, arrisquei. Deambulei pelos corredores do supermercado, à procura de algo que coubesse nos bolsos, que não tivesse códigos de barras, que passasse despercebido. Ia observando as câmaras de vigilância, e o próprio segurança do supermercado.

Quando vi que o caminho estava livre, comecei. Mas uma mão logo me deteve.

Fui apanhada, pensei, sem coragem de me virar para ver quem me segurava o braço, coberta de vergonha, e totalmente quebrada por dentro, sabendo o destino que me esperava.

Foi então que ouvi a sua voz "não precisas de fazer isso, leva o que quiseres, que eu pago", e me virei, ainda incrédula.

Pôs-me uma nota no bolso, juntamente com um cartão, e disse-me que, se precisasse de ajuda, podia ligar. Quem quer que fosse, parecia estar a ajudar-me. Ou estaria eu enganada novamente?

 

 

 

 

 

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