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Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Migrantes ou vítimas de tráfico humano

(e como a sombra da morte os acompanha sempre)

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Há algo que é inevitável neste mundo: qualquer pessoa que não esteja bem no país onde vive, tentará a sua sorte noutros, que lhe pareçam melhores, seja quais forem os motivos que levaram a tal.

Só que nem sempre o conseguem fazer legalmente e, quando assim é, resta-lhes comprar a travessia, para a promessa de uma vida melhor. Travessia que não cobre riscos, acidentes ou até a morte de quem a compra.

É também esse desejo de melhores condições de vida que leva a que muitas pessoas apostem tudo em propostas de trabalho que, mais tarde, se revelam falsas, funcionando apenas como isco para o tráfico humano.

 

Assim, sejam migrantes ou vítimas de tráfico humano, sejam eles transportados em barcos, em contentores ou outra forma de transporte clandestina, uma coisa é certa: a sombra da morte acompanha-os sempre. E, em último caso, é com a própria vida que pagam o sonho e a esperança, que os levou a arriscar a partida, em busca de algo melhor.

 

Se, no caso dos migrantes, eles já têm a noção de que estão a participar numa missão arriscada, que pode correr mal, no caso das vítimas de tráfico humano, o choque com a realidade é maior, porque é algo que, certamente, nunca ponderaram vir a ocorrer.

 

As causas são muitas, mas todas têm um ponto comum: falta de condições humanas para transportar essas pessoas em segurança. 

As mais frequentes são afogamento, desnutrição, calor ou frio excessivo ou falta de oxigénio.

Muitas vezes, por abandono por parte de quem faz o transporte, e demora das autoridades em encontrar o local exacto onde se encontram, em tempo útil, e determinante para fazer a diferença entre a vida e a morte.

 

 

 

Imagem: euronews

 

A Delatora

 

Tinha este filme gravado há vários meses, e foi sempre ficando de parte porque nunca chegou aquele dia em que se olha para um filme e se diz "hoje apetece-me ver".

Estive, inclusivamente, para apagá-lo porque, de cada vez que ia à procura de um filme nas gravações, torcia-lhe o nariz.

Mas este fim de semana, saiu-lhe a sorte grande! Chegou o tal dia! Mas mais valia não ter chegado.

E não é porque o filme não é bom, pelo contrário. O filme retrata mesmo a realidade que se vive, as consequências da guerra, o tráfico humano, a corrupção, os interesses políticos, etc.

Eu é que ando de tal maneira sensível que não consigo ver mais nada do género. O que alguns homens são capazes de fazer por sexo e dinheiro. Até vender a própria família. Os abusos que aquelas adolescentes sofrem nas mãos de tarados e pervertidos que acham que elas são apenas objectos ou animais que podem ser escravizados.

A frustração daqueles que tentam lutar contra isso e nada conseguem fazer, porque interesses mais altos se levantam, e tudo fica abafado. Pior, a frustração por prometer que nada lhes irá acontecer e que as irão proteger, e não conseguirem cumprir, levando a que estes verdadeiros animais as castiguem com abusos ainda maiores, e inclusive, matem para servir de exemplo para as restantes, que se atrevam a abrir a boca para os denunciar.

Para mim, já me bastou o primeiro filme da saga Taken, outros do género, e agora este. Se no primeiro, ainda há jovens com um final feliz, neste último nem por isso. Ainda por cima, baseado em factos verídicos.

A partir de agora, proibo-me de ver qualquer outro filme sobre este assunto. Já chega as notícias reais que todos os dias ouvimos. 

 

Sinopse:

Filme baseado em eventos reais, datados de 1999-2002, que retratam o tráfico humano de raparigas de leste levadas para a Bósnia para uso como objecto sexual de indivíduos pertencentes a organismos internacionais nomeadamente às Nações Unidas. Estes indivíduos, abusando da sua imunidade diplomática, perpetram todo o tipo de crimes inclusive participando activamente no próprio trafico. A protagonista Kathryn Bolkovac, baseada na pessoa real homónima, tenta expor todo o esquema - daí o título do filme "A delatora"- mas enfrenta todo o tipo de sabotagem a seu trabalho pelas policias locais a soldo dos traficantes e, principalmente, pelo próprio pessoal da UN envolvido no tráfico. Por fim é expulsa da Bósnia, despedida pela empresa de segurança privada que a contratou que, com medo de por em causa contratos milionários com governos ocidentais, com o pretexto de ter desviado algo menor.
Expulsa, a protagonista, consegue levar consigo os processos das vitimas e, já em Inglaterra, após ganhar o processo no tribunal de trabalho contra a empresa de segurança, expõe o caso publicamente na BBC.

 

Quando o entusiasmo inicial se transforma em dúvida

 

Sabem aquela sensação que muitas vezes experimentamos, depois do entusiasmo inicial, quando voltamos a pousar os pés na Terra? É assim que eu me sinto!

Mas, vamos lá começar do início, senão ainda começam a pensar, tal como o meu pai teve a gentileza de me perguntar, que eu não estou bem psicologicamente!

Tudo começou no dia da Corrida da Criança. Andávamos à procura da tenda das pinturas faciais e encontrámos, por mero acaso, uma tenda de uma agência de modelos. Pensei que a ideia era maquilhar as crianças ali mesmo e simular uma sessão fotográfica, só para se divertirem, mas não. Além de uma fotografia, o que faziam era ficar com os contactos de quem estivesse interessado, para depois chamarem para um casting na agência. 

Eu ainda disse "ah, não vale a pena", mas o meu marido incentivou e a minha filha também quis, por isso, vamos lá. Foi, então, chamada para o casting, em Lisboa.

A agência é a Space Milan Models. Não conhecia, nunca tinha ouvido falar, mas fui ver o site oficial e a página do facebook, e pareceu-me credível. Tanto pelos trabalhos que lá apresentam, como pelos agenciados e formadores conhecidos (Cláudio Ramos, Pedro Crispim, FF, Raquel Prates e muitos outros), e pelos parceiros que têm. 

Consegui combinar o casting para um dia em que o meu marido podia ir connosco e lá fomos. Para a Inês, seria uma experiência, e ficasse por ali, tudo bem. Não ia com expectativas, mas já tinha ouvido dizer que algumas pessoas foram chamadas para lhes apresentarem formações caríssimas.

O meu pai, logo aí, alertou-me para o facto de irmos expôr a Inês, de irmos dar os dados dela a pessoas que não conhecemos de lado nenhum, que podia ser tudo um esquema. Eu também tenho algum receio mas, como disse, não é assim uma empresa tão desconhecida e pareceu-me que é profissional.

No dia do casting, a directora de casting, Celina Machado, pareceu-me uma senhora excepcional, até mesmo na forma como conversou com a Inês e a pôs à vontade, à forma como nos explicou tudo, como lhe explicou como as coisas funcionavam. Como não ignorou os pontos mais fracos mas elogiou aquilo que ela tinha de melhor, e como se poderia contornar ou solucionar o restante. 

Ninguém fez promessas. A minha filha passou no casting e ficou agenciada. Mas isso acontece, provavelmente, a quase todas as crianças. E lá veio, então, a proposta de formação, pela quantia de 700 euros, que ficou imediatamente de parte.

A outra proposta era fazer um book, que consiste em duas sessões - uma teórica e a sessão fotográfica propriamente dita - por 200 euros, e que já é algo que se poderá mostrar a possíveis clientes, que poderão ser de várias áreas, desde catálogos de roupa, publicidade, televisão, teatro, etc.

Naquele momento, tendo em conta o feedback positivo em relação ao potencial da minha filha, achei que valia a pena o esforço, e paguei então o book.

No entanto, mal saí porta fora, fiquei com aquela sensação "já me enrolaram em grande estilo!". Sim, não houve promessas. Mas até que ponto, aquilo que foi dito à minha filha, não o é também às outras crianças e pais, só para que nos sintamos tentados a investir? 

Quantos daqueles pais que lá estavam naquele dia pagaram por alguma destas propostas? Tenho quase a certeza que, para muitos, tudo ficou por ali. Mas poderá ter havido quem, como eu, tenha investido na formação ou no book.

Mas, enfim, nem tudo é mau. Mesmo que o book não venha a servir para nada, vai ser uma recordação para a Inês, ter ali umas fotografias suas tiradas por profissionais. Isto, porque quero acreditar que, de facto, é uma agência séria e credível.

Acontece que, por azar, nos dois dias que temos que lá voltar, o meu marido está a trabalhar e não tem forma alguma de ir connosco, o que significa ter que ir eu com a minha filha sozinhas para Lisboa, e não me agrada nada.

E não ajuda o meu pai estar a converter-me numa mãe irresponsável que não se encontra no seu perfeito juízo, ao ponto de me perguntar se eu me sinto psicologicamente bem para concordar com esse absurdo! Ir com uma criança de 11 anos para Lisboa, para lhe tirarem fotografias, com tudo o que se houve sobre redes de pedofilia e tráfico de crianças.

Obrigadinha! Eu sei de tudo isso. Mas quero acreditar que não é esse o caso. E quem me dera que fosse tudo feito aqui em Mafra mas, infelizmente, estas agências estão todas nas cidades. E até queria que ele fosse acompanhar-nos, mas nem cheguei a pedir porque em conversa com a neta ele disse logo que não ia. 

Também sei que ela só tem 11 anos, mas vemos crianças ainda mais novas nas revistas e na televisão. E sei que ela tem que estudar, mas se (e isto é mesmo o se, porque ninguém disse que ia ser chamada para fazer alguma coisa) ela eventualmente for chamada para algum trabalho, sou eu que decido se ela fará ou não. E se ganhar algum dinheirito, pode juntar às poupanças dela, ou para alguma coisa que ela venha a precisar.

Por isso, estou aqui sem saber se devo dar ouvidos a quem me incentiva a ir, ou a quem considera tudo isto um risco desnecessário. Como se não bastassem já os meus receios e dúvidas.

Alguém por aí conhece a agência ou sabe minimamente como estas coisas funcionam, que me ajude a dissipar todas estas incertezas que pairam por aqui?

Ou deve ser urgentemente decretado o meu internamento compulsivo?

 

Hoje em dia, "tudo se compra e tudo se vende"...

 

...incluindo seres humanos.

 

Já antes tinha escrito um texto sobre este tema aqui, mas nunca será demais falar sobre uma realidade que parece aumentar a cada dia e que acontece, por vezes, mesmo "debaixo do nosso nariz".

A reportagem que a SIC transmitiu, na passada 2ª feira, mostra bem o que sofrem aqueles que, de um momento para o outro, se vêem enredados nesta teia sem saber como dela sair.

A pobreza, a miséria e a esperança de encontrar melhores condições de vida são os principais impulsionadores para que alguém caia na rede.

Tal como se diz na reportagem, hoje em dia "tudo se compra e tudo se vende". E o tráfico de seres humanos é um dos maiores negócios ilícitos da actualidade. Até mesmo, em Portugal! De facto, parece que o nosso país não só está na rota como intermediário entre o país de origem e o de destino, como também actua esses dois papéis - emissor e receptor. A procura faz a oferta.

A escravatura foi, há muito, abolida. Mas não extinta. Apenas sofreu uma metamorfose. Hoje não são os negros que são escravos. Qualquer um se pode tornar. Difícil será sair. Muitas vezes sem alternativas, sem documentos, com medo do que lhes possa acontecer ou à família, e quando, depois de tentarem como podem, pedir ajuda, são ignorados, acabam por "aceitar" a situação.

No livro do Jeff Abbott, O Último Minuto, faz-se uma abordagem sobre o tráfico de mulheres para a prostituição. Nesse caso, uma mulher era levada. Para se ver livre a sua família teria que, em troca, enviar 2 ou 3 outras mulheres como moeda de troca. Mesmo que essas mulheres fossem amigas, vizinhas, conhecidas. É a lei da sobrevivência, e não olha a meios para atingir os fins. É também assim no mundo real.

Outras vezes, pedem dinheiro para pagamento da dívida que, alegam os traficantes, as vítimas contraíram para com eles. Como não o têm, as vítimas vêem-se obrigadas a trabalhar para estas pessoas como forma de pagamento, sem direito a nada.

E se por acaso tentam denunciar e têm o azar de serem descobertas, são eliminadas.

É triste, mas é a verdade nua e crua da realidade do século XXI - o ser humano reduzido à condição de mercadoria... 

 

 

 

 

 

Tráfico Humano - ao virar da esquina

 

Duas jovens adolescentes viajam, sozinhas, para Paris. À chegada, como muitas outras pessoas, tentam apanhar um táxi que as leve ao destino. Enquanto esperam, um rapaz simpático mete conversa com elas. Apresentam-se. Em ambiente descontraído, uma delas pede-lhe que tire uma foto às duas, entregando-lhe para isso o telemóvel.

Aparentemente, também ele tinha viajado até Paris e, tal como elas, aguardava a sua vez na fila para o táxi. Por isso mesmo, perguntou-lhes se não queriam dividir a despesa do mesmo, ficando assim mais barato para todos. E assim fizeram. Chegadas à moradia onde iriam ficar instaladas, despediram-se do rapaz, que entretanto já tinha conhecimento que ambas estariam sozinhas. Alguns instantes depois, as duas são levadas por 3 ou 4 homens que ali entraram. Na verdade, o tal rapaz, aparentemente simpático e inofensivo, pertencia a uma rede de tráfico de mulheres, actuando como intermediário, se assim se pode chamar.

O destino que as esperava? O pior que se possa imaginar – drogadas, as que não morriam de overdose, eram obrigadas a prostituir-se, em bordéis ou nas ruas, sempre controladas e vigiadas.

Outras, na opinião dos traficantes, mais valiosas, eram levadas para leilões, vendidas a quem oferecesse o valor mais alto. Representantes de magnatas compravam, sob a sua ordem, o que para eles nada mais significava que um mero objecto.

Um cenário deprimente, chocante e repugnante que, infelizmente, retrata uma realidade que nos pode apanhar a qualquer um, nas suas malhas. Ali mesmo, ao virar da esquina!

A razão para que isto aconteça? Dinheiro! Como eles diziam, não era nada “pessoal”, apenas ganhavam dinheiro!

O tráfico humano, é a terceira actividade criminosa mais rentável do mundo, logo depois das drogas ilícitas e do tráfico de armas. Não escolhe raça, idade ou classe social. E nem mesmo sexo! Embora a grande maioria das vítimas sejam mulheres e, entre essas, adolescentes, também estão incluídos no pacote homens e crianças, que são traficados para os mais diversos fins.

A prostituição, como já atrás referi, é a forma mais corrente do tráfico humano. Iludidas por falsas promessas de bons empregos, uma vida melhor, ou financiamento de estudos, são alvos fáceis de cair em mãos criminosas, que não pedem consentimento às vítimas para as traficarem, retirando-lhes direitos humanos básicos como a liberdade – de movimento, de escolha, de controlo sobre si próprio e sobre a sua vida. E enquanto os criminosos lucram, estas mulheres sofrem todo o tipo de violência física e psicológica.

Mas também pode acontecer a quem pura e simplesmente, como estas duas adolescentes, gosta de viajar.

O recrutamento é o primeiro passo, o primeiro elo da cadeia do tráfico humano, através do qual os traficantes encontram as vítimas, enganando-as ou forçando-as a entrar num mundo onde a escravatura, que julgávamos ter acabado há muito, é uma constante em pleno século XXI. São os recrutadores, aparentemente pessoas normais, que fazem o primeiro contacto com a vítima. Qualquer um pode ser recrutador, até mesmo aquela pessoa em quem, à partida, tínhamos total confiança. Bastante criativos, servem-se muitas vezes de anúncios em jornais ou na Internet, agências ou empresas falsas, e até mesmo através de conhecimentos privados.

O próximo passo é entregar as vítimas aos verdadeiros criminosos, que as forçam aos mais variados actos, sob ameaça constante, sob violência, sob chantagem. Afinal, elas passam a ser responsáveis pelo pagamento do dinheiro que o traficante pagou por elas.

Mas não é só para a prostituição ou pornografia que são traficados estes seres humanos.

No caso dos homens, por exemplo, é frequente estes serem levados para trabalhos forçados, como por exemplo na agricultura, na indústria ou na construção civil.

Já as crianças, são utilizadas muitas vezes para actividades criminosas como a mendicidade, tráfico ou venda de droga, passagem de dinheiro falso ou pornografia infantil, bem como para adopção ilegal.

Não podemos ignorar esta realidade, este fenómeno que pode estar tão perto de nós e nos afectar mais do que julgamos.

O que é certo é que não existem receitas infalíveis para não cair nesta teia, existem medidas de sensibilização, de prevenção, que embora úteis, não nos dão a garantia de que nunca iremos ser apanhados.

Também é certo que não podemos viver com medo, desconfiar de tudo e de todos, e deixar de fazer determinadas coisas porque há uma possibilidade remota de não correr bem.

Mas convém lembrar e ter presente que, por vezes, as possibilidades remotas podem ter avançado a grande velocidade na nossa direcção, e estar mais próximas do que pensamos, até mesmo ao virar daquela esquina!

 

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