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Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta - O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Se...

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Se soubéssemos como tudo poderia mudar em dois meses, talvez tivéssemos estado mais atentos. Ou talvez não...

Se desconfiássemos que o cenário era pior do que parecia, talvez não tivéssemos desvalorizado tanto. Ou talvez não...

Se a minha mãe fosse pessoa de se queixar, ao invés de guardar e calar, talvez as coisas pudessem ter sido diferentes. Ou talvez não...

Se ela fosse pessoa de ir regularmente ao médico, talvez se pudesse ter previsto, ou prevenido, a situação. Ou talvez não...

Se soubéssemos que ela não comia pouco por mera falta de apetite, mas por algo mais, talvez tivéssemos agido mais cedo. Ou talvez não...

Se tivéssemos percebido que não lhe custava a falar por simples falta de um dente ou outro, mas por outra situação mais grave, talvez tivéssemos ganhado tempo. Ou talvez não...

Se não tivéssemos sido tão ingénuos, ao acreditar que as coisas eram menos graves do que são, talvez não estivéssemos agora tão desesperançados. Ou talvez não...

Se ela não se recusasse terminantemente a ir ao hospital e ficar internada, talvez não estivéssemos neste dilema. Ou talvez não...

Quem sabe, se ela fosse, houvesse um hipótese de ser tratada, e reverter a situação. Ou talvez não...

Se...

Se...

Se...

 

A vida é feita de "se's". E não nos podemos agarrar a eles, como argumento, ou como desculpa.

As coisas são como têm de ser. E nem sempre está nas nossas mãos evitar o pior, ou conseguir o melhor.

Há situações em que não existem decisões melhores, ou piores.

Não existem respostas certas, nem erradas. O que será bom, ou o que será mau.

Existem opiniões diferentes, maneiras de estar diferentes, mas que têm em comum um mesmo fim: querer o melhor para os nossos. Ainda que esse "melhor" chegue de perspectivas diferentes.

As pessoas podem dizer muita coisa, aconselhar, dizer que, no mesmo lugar, fariam isto ou aquilo. 

E, ainda assim, nada disso importa, quando a pessoa mais interessada em ficar bem, está consciente, e capaz de tomar a sua própria decisão. Que vai no sentido contrário.

 

Há cerca de dois meses, a minha mãe ainda estava activa, mais ou menos bem, para a idade.

Depois, algo aconteceu. Algo de que não nos apercebemos.

O médico suspeita que tenha sido um AVC. Mas não pode afirmar com certeza.

Desde então, ela começou com dificuldade em falar. Mas ainda se mexia bem.

Desde então, ela começou a comer cada vez menos. Mas dizia sempre que só comia o que tinha vontade.

E nós deixámos andar. Não vimos. Às vezes, só vemos o que queremos ver, ainda que inconscientemente.

 

O meu pai queixava-se. 

Mas dizia que não valia a pena marcar consulta, que ela não ia.

E as coisas foram agravando.

Na passada semana, estive de férias.

Levei-a ao médico. Consulta de urgência, porque se estivesse à espera da médica dela, só para Outubro.

O médico queria mandá-la para Santa Maria. Ela recusou.

Lá passou umas análises para fazer, e uns suplementos de dieta hipercalórica, para ajudar.

No dia seguinte, foi fazer as análises. Quase não lhe conseguiram tirar sangue.

 

Está completamente desidratada, e desnutrida.

Precisa de ajuda para subir e descer degraus. Para andar. Para sentar e levantar. Para fazer a higiene. Não consegue comer grande coisa.

Quinta-feira, consulta particular de medicina geral. Para tentar alternativas, soluções que não fossem contra a vontade dela.

Internamento em casa, só depois de passar pelo hospital, de ficar lá uns dias e de se averiguar o que tem, e qual o melhor tratamento a seguir. Ela recusa. Sem esse primeiro passo, não há mais nenhum.

O médico aconselhou a comer papas Cerelac. Uma espécie de "engorda", para ver se não emagrece ainda mais, ainda que já só tenha 29 kilos.

Mas avisou logo: ou ela vai para um hospital, ou "está para breve".

 

Ela não quer ir para um hospital.

Quer estar em casa.

Ouviu dois médicos, e nenhum a fez mudar de opinião.

Tentei perceber os receios dela. Se estava a desistir de viver. Se achava que já não tinha hipóteses, e preferia estar junto da família. Se o problema era ver-se lá sozinha, e deixar-se ir psicologicamente. Não fala. Não quer ouvir falar.

Explicámos-lhe que em casa pode não conseguir recuperar. Pode acontecer alguma coisa. Pode piorar de dia para dia. Pode mesmo ter que ir parar a um hospital, e depois ser tarde demais. 

Mantém a decisão. E diz para sossegarmos.

Irrita-se com a conversa.

 

Mas, se não tocarmos no assunto, fala de outras coisas. Até se ri.

Vê televisão.

Ainda põe as gotas nos olhos para controlo da tensão ocular.

Vai andando, lá por casa. Embora não saibamos como se aguenta em pé.

 

E nós, respeitando a sua decisão, estamos à espera, não do "se", mas de quando acontecerá o que não queremos. Porque o mais certo é acabar por acontecer.

E quem nos garante que, indo para um hospital, não seria igual?

Pois...

 

Por isso, apesar de tudo, não descurem a saúde. 

Não menosprezem ou desvalorizem os mínimos sinais. Por mais inocentes ou inofensivos que possam parecer.

Quanto mais cedo se conseguir detectar e agir, mais se poderá evitar.

Fiquem atentos a quem não se queixa. A quem esconde a dor. A quem tende a disfarçar as situações.

Porque são essas as pessoas que, muitas vezes, exigem uma maior preocupação.

 

Esqueçam os "se's".

Esqueçam as "chantagens emocionais".

Ponham-se no lugar da pessoa.

Tentem perceber o que vai na mente dela.

Oiçam o vosso coração.

E façam o que acham melhor. Ainda que se venha a constatar que não o foi.

 

Não é fácil vermos alguém que nos criou, que esteve sempre ali para nós, nesta situação.

Uma pessoa que, há uns anos atrás, cuidava da neta. Do marido. Ajudava os filhos como podia.

Pela primeira vez, em 42 anos que tenho, vi o meu pai ir abaixo, e chorar. De tristeza. De impotência.

Ele, que tanto dizia que a minha mãe tinha que estar preparada, para quando ele partisse, arrisca-se, agora a vê-la partir primeiro.

Encaramos cada dia como se fosse, literalmente, o último. Porque um dia poderá ser mesmo.

Mas, até lá, está com a família, na sua casa, no seu ambiente, com os seus programas de televisão, a fazer um esforço para comer o pouco que passa, como decidiu... 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sentimentos ambivalentes que as "despedidas" me provocam

Sobre despedidas e o partir... | ACESSA.com - Saúde

 

Existem pessoas que são avessas a despedidas. E as evitam a todo o custo.

E outras que fazem questão de as viver, que ampliam o seu significado, e as tornam ainda mais difíceis.

Eu tenho sentimentos ambivalentes em relação às despedidas.

 

Por um lado, quero-as.

Considero-as necessárias, importantes.

Faz-me sentir que, dessa forma, nada fica por fazer, ou dizer. 

É uma espécie de conclusão de um ciclo.

Um andar para a frente, e seguir o curso natural das coisas.

O deixar ir, partir, o apoiar e dizer que estamos lá, apesar de tudo.

 

Mas, por outro lado, deixam-me a sofrer antecipamente.

Deixam-me melancólica, saudosista.

A pensar no que passou, e já não volta, ou poderá não voltar.

 

É uma felicidade, ensombrada por uma tristeza, de certa forma, egoísta.

É um adeus, disfarçado de um "até breve" quando, muitas vezes, sabemos que nunca haverá essa brevidade.

 

É uma mistura de risos, com lágrimas.

De coragem, com fraqueza.

De suspensão, ou corte definitivo, com renovação, e recomeço.

 

É uma espécie de tormenta, que acreditamos que nos traz paz. Ou uma paz momentânea, que sabemos que se irá transformar em tormenta.

É uma espécie de "estou mal", mas vou ficar bem". Ou de "estou bem, mas logo me vou sentir mal".

 

Comovo-me sempre.

Com as minhas despedidas, e as dos outros.

Com as reais, e as fictícias.

Com as despedidas de pessoas, de animais, de momentos, de locais, até de livros ou séries que gosto!

 

Poderia evitar tudo isso.

Mas não quero.

As despedidas fazem parte da vida e, se é para vivê-la na sua plenitude, então que se experimente tudo o que ela traz consigo.

Incluindo, as despedidas.

Porque, para mim, abdicar delas, far-me-ia sentir ainda pior, do que viver o tubilhão de emoções com que elas me brindam.

 

Existe algum fio condutor na nossa vida?

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"Há algum fio condutor na nossa vida ou ela é um emaranhado de acontecimentos sem sentido e sem relação entre si?"

 

A minha filha anda a dar religião, na disciplina de filosofia e, às tantas, leu algures no manual esta questão, perguntando a minha opinião. 

A primeira imagem que me veio à mente, ao ler a questão, foi a do algodão doce: também ele tem um "fio condutor" - a vareta - mas, ao mesmo tempo, o que o caracteriza é o "emaranhado de fios de açúcar", que se vão juntando uns aos outros e formando o conteúdo.

 

Acredito que existe um fio condutor, que nos guia, a partir do momento em que nascemos, e até morrermos.

Esse fio condutor pode traduzir-se na sociedade em que estamos inseridos, através das regras, conduta, deveres e direitos, responsabilidades. Sem elas, cada um faria o que lhe desse na real gana, e viveríamos numa espécie de anarquia.

Traduz-se na família, nos valores que nos transmitem, no seu apoio e orientação, no seu suporte e alicerce.

Traduz-se nos planos que traçamos, nos objectivos que nos propomos concretizar, nas metas que ambicionamos alcançar.

De alguma forma, consciente ou inconscientemente, há algo a que estamos "presos", ligados, e que nos mantém no trilho que aparentemente escolhemos, ou nos foi destinado.

 

No entanto, isso não significa que, a esse fio condutor, não se possam ir juntando acontecimentos, experiências, vivências, que nos acrescentam enquanto seres humanos.

Ainda que alguns façam sentido, e outros nem tanto.

Ainda que alguns tenham relação entre si, e outros, nenhuma.

Mal de nós se nos limitássemos a seguir o fio condutor da nossa vida, sem absorver mais nada. Sem complementar, sem viver o inesperado, sem ser surpreendido.

Somos eternos seres em construção, e haverá sempre espaço para mais, ainda que não estejamos a contar com isso, ou não o tenhamos previsto.

 

E, da mesma forma que, quanto mais fios se forem juntando à vareta, maior o algodão doce, também quanto mais acrescentarmos à nossa vida, mais rica ela se tornará. E melhor nos saberá vivê-la!

Até mesmo nas dificuldades e momentos menos bons, que dispensaríamos de bom grado.

 

 

 

"Abre-olhos"

👀 Olhos Emoji

De quantos "Abre-olhos" precisamos na vida, para os abrir realmente? 

 

Foi um "abre-olhos", dizemos nós, sempre que acontece algo que nos alerta, ou faz repensar a forma como estamos a viver.

Mesmo que não tenha sido directamente connosco, pelo simples facto de termos conhecimento, já nos chama a atenção. 

Atitudes que devemos mudar. Tempo que devemos aproveitar. Pessoas com quem devemos estar. Sentimentos que devemos demonstrar. Palavras que devemos dizer. E por aí fora.

Mas a verdade é que, sem darmos por isso, os nossos olhos começam, lentamente, a fechar. E lá os vamos mantendo assim, até que algo os faça, de novo, abrir.

A verdade é que os "abre-olhos", com os quais nos vamos deparando, depressa caem no esquecimento. Funcionam nos primeiros tempos mas, depois, acabamos por ignorá-los.

De quantos "abre-olhos" precisaremos nós, na vida, para os abrirmos realmente? Para os abrirmos mesmo, de vez?