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Marta O meu canto

Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!

Marta O meu canto

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Desafio de Escrita do Triptofano #4

A Bela e o Jogador

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Jogador: Surpreendida?

Bela: Deveras.

Jogador: Queria passar algum tempo contigo. E uma partida de xadrez pareceu-me um bom desafio.

Bela: Para ti? Ou para mim?

Jogador: Para ambos.

Bela: Vamos, então, elevar a fasquia ao desafio. Se tu venceres, continuarei tua prisioneira. Se eu te vencer, libertas-me para sempre!

Jogador: Mas tu já és livre! Não te tenho acorrentada. Tão pouco, amordaçada. Dou-te tudo o que queres. Faço tudo o que me pedes.

Bela: Então, não terás qualquer problema em aceitar o desafio.

Jogador: Certo. Assim seja. Mas sabes que tudo o que faço é para te proteger. Há por aí muita gente que não te quer bem.

Bela: E julgas que eu não me sei defender sozinha e, por isso, preciso de ti?

Jogador: Eu sei que até te podias defender. Mas eu amo-te. E que ama cuida.

Bela: Claro! Como quem cuida de uma flor muito sensível que, à mínima intempérie, se pode quebrar!

Jogador: Eu não te considero frágil, mas com a minha força, aliada à tua, somos mais fortes.

Bela: Pois... Se tu dizes...

Jogador: Acredita. Já tenho muita experiência. Sei do que falo.

Bela: E no xadrez, também és assim tão experiente?

Jogador: Não me quero gabar, mas costumo sair vencedor.

Bela: A sério?! A mim, parece-me que talvez tenhas esquecido algumas regras fundamentais.

Jogador: De que regras falas?

Bela: A primeira, é nunca misturar jogo com amor! Tira-te o discernimento.

Jogador: Achas? 

Bela: Tenho a certeza! A segunda regra é perceber que a paciência é uma virtude, e pode ser a tua melhor aliada. Sobretudo, no xadrez. Se a perdes, perdes-te. E tu, acabas de perder. Xeque-mate!

 

Texto escrito para o Desafio de Escrita do Triptofano

 

Também participam:

Bii Yue

Ana de Deus

Triptofano

Maria Araújo

Cristina

Bruno

Maria

 

 

 

 

O Gambito da Rainha, na Netflix

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"O Gambito da Rainha" é uma minissérie que retrata a história de Beth Harmon, uma órfã que se tornará campeã de xadrez, desde que chegou ao orfanato, até ao estrelato, acompanhando todo o caminho que esta percorreu.

 

Começando pelo fim, um dos ensinamentos que podemos retirar desta série é a de que, quando temos amigos verdadeiros, não importa aquilo que fizemos, ou como os magoámos, ou afastámos, em alguma fase da nossa vida porque, quando menos esperamos e achamos que já os perdemos, eles estão lá, ao nosso lado, para mostrar que, apesar de tudo, ainda querem o nosso bem, ainda nos apoiam, e que há muito nos perdoaram.

 

Outro dos ensinamentos e, como é óbvio, poderá não se aplicar a todos, é o de que, muitas vezes, quando deixamos de fazer algo de que gostamos, pelo prazer, e passamos a fazê-lo por dinheiro, pela fama, pela necessidade de nos afirmarmos, pelo poder, as coisas podem sair fora do nosso controlo, descambar, fazer-nos perder o gosto, e querer desistir.

Quando os outros começam a exigir demasiado de nós, e nós próprios nos exigimos mais do que aquilo que deveríamos, podemos estragar e deitar tudo a perder.

Sobretudo, quando aquilo que era um talento nato, passa a funcionar apenas à base de drogas. Quando as vitórias e conquistas se tornam algo tão obsessivo que, se não acontecem, o nosso mundo parece desmoronar, não aceitando as derrotas, e descarregando a nossa frustração naquilo que nos destrói, física e/ou psicologicamente.

 

Voltando ao início, e à chegada da Beth ao orfanato, aquela primeira impressão que temos da directora, uma pessoa bondosa, carinhosa e compreensiva, comovida com a triste história que a leva a receber aquela criança, depressa passa. Não que ela seja uma bruxa malvada, como estamos acostumados a ver. Mas também não é a bondade em pessoa.

Já o orfanato, parece estar a criar um bando de cordeirinhos que têm que se manter amestrados, mansinhos e sossegados e, para isso, nada como uns calmantes a que eles chamam de "vitaminas" e que, logo desde tenra idade, nalguns casos, começam a provocar dependência. 

 

No caso de Beth, ela segue o conselho de outra orfã, Jolene, e toma-os à noite. E é sob o seu efeito que ela começa a desenvolver o seu conhecimento, a sua capacidade, e as suas técnicas de xadrez, um jogo que aprende a jogar com o zelador do orfanato.

Decidida a aprender e tornar-se a melhor, ela passa a ir à cave jogar com o seu amigo sempre que tem oportunidade, e a encher-se de calmantes, para visualisar com mais clareza os jogos.  Até ao dia em que os calmantes são proibidos, e ela, em abstinência, rouba o frasco e toma mais do que devia, desmaiando em seguida.

 

Mais tarde, e já ambas mais velhas, Jolene e Beth continuam grandes amigas. Só que Beth acaba por ser escolhida para adopção, e a separação é inevitável.

Jolene fica sentida porque parece que ninguém a quer, e que irá envelhecer para sempre naquele maldito orfanato, onde todas as crianças chegam e partem, menos ela, que não tem sorte.

 

No entanto, a vida de Beth, que começa a jogar a nível profissional, e a participar em vários torneios, ao mesmo tempo que tem que lidar com o seu passado, com os problemas na sua família adoptiva, com a nova vida escolar e pessoal, com as novas descobertas sobre si mesma, e com o preço da pressão e do sucesso, não será, também ela, um conto de fadas, mas antes um inferno, do qual pode nunca vir a sair.

 

Ser mulher, jogadora de xadrez e campeã, num mundo e num jogo de homens, eleva muito a fasquia. Estará Beth preparada para vencer? Não só os jogos, mas também o jogo em que a sua vida se torna? Ou acabará por sair vencida?

 

Uma boa série, que recomendo, na qual Anya Taylor-Joy desempenha o seu papel de protgonista de forma exemplar.